Acreditei, por alguns momentos, que a prisão
de Daniel Dantas era um indício da diminuição
da impunidade no Brasil. Fiquei surpreso de que o governo
deixasse prosseguir uma investigação sobre
alguém tão próximo do poder, com
certamente muitos tentáculos em Brasília.
A impressão começou a ruir com a proteção
que se fez a Greenhalgh. Levou mais algumas pancadas
com a leitura do relatório do delegado Protógenes
e as fragilidades da peça. Tomou um tombo definitivo
com o afastamento dos delegados da PF que cuidaram do
caso e, agora, a ridícula pantomima que se monta
ao redor dessa operação de abafa. A coisa
já degringolou para o circo, para a farsa. A
própria PF está grampeando os seus delegados
e vazando trechos da conversa para inocentar a sua cúpula.
O delegado Protógenes e o juiz de Sanctis viraram
alvos da própria investigação,
enquanto os meliantes e seus crimes desaparecem do noticiário.
É um caminho normal das revoluções
que acabem tombando sobre si mesmas, devorando os filhos
que criou. No Brasil o ciclo foi acelerado, e a mini-revolução
natimorta já entrega sua pizza cozinhada mesmo
antes de ir ao forno.
No mesmo dia, o foragido Cacciola chega de volta ao
Brasil sorridente, dizendo confiar na Justiça
brasileira. É o escárnio total. No restaurante
em que almoçava ontem quando o retorno do sorridente
plutocrata apareceu na TV, um trio de senhores comentava
o caso. Disse um deles para o outro: "Sabe qual
foi o grande erro desse aí? Ter fugido. Se tivesse
se entregado, já taria solto." É
isso aí. Basta prestigiar as instituições
tupiniquins pra que até os réus confessos
fiquem em liberdade. Só imagino o que os agentes
da PF disseram a Cacciola para deixá-lo com aquele
sorriso no rosto. "Foi querer morar na Itália,
ficar preso em Mônaco, né? Fez a gente
pagar mico. Agora vai passar uma semaninha em Bangu.
Perdeu, playboy!"
Leitura
A coluna de Fernando Barros e Silva na Folha de
S. Paulo deste dia 18 é um ótimo e
cortante resumo do que acontece nos intestinos do poder.
Ei-la:
A corrupção
dos outros
SÃO PAULO - Com o olhar agitado, evitando as
câmeras e a multidão de repórteres,
e a fala alterada, denotando desconforto e irritação,
o presidente Lula dizia anteontem que, "moralmente,
este cidadão tem de continuar no caso",
"a não ser que diga publicamente e espontaneamente
que não quer". O que não pode, seguia
a bronca, "é vender insinuações
à sociedade".
Protógenes Queiroz desde então nada
disse -nem pública nem espontaneamente. O governo
decidiu falar pelo delegado. Fez liberar fragmentos
de uma reunião gravada na PF, na qual Protógenes
estaria jogando a toalha por sua escolha. Mentira. A
fala editada do outro que não quis falar é
coisa de regime de exceção -teatrinho
stalinista.
Protógenes foi afastado à revelia de
suas funções, como sabe qualquer adulto.
E não caiu em função de seus erros
- muitos e graves -, mas porque parte deles, junto com
os acertos da investigação, chegou perto
demais do coração do poder sem que os
palacianos percebessem a dimensão da encrenca
em curso.
Não foram, é claro, imagens como a de
Celso Pitta de pijama e algemado o que derrubou Protógenes.
Caiu porque usou arapongas da Abin para espionar o presidente
do STF -supremo delírio. Mas sobretudo porque
entrou com o grampo no Palácio do Planalto e
instalou uma bomba perto demais de Lula.
Seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, foi flagrado
num diálogo pouco republicano com Luiz Eduardo
Greenhalgh, petista histórico a serviço
de Humberto Braz, capanga dileto de Daniel Dantas.
O papel vexatório de Greenhalgh -lobista com
anel de doutor- o coloca na rabeira de uma longa fila
de petistas e/ou amigos de Lula que já caíram
na folha de pagamento de Dantas, do advogado Kakay ao
compadre Roberto Teixeira. O deputado Zé Eduardo
Cardozo diz que nada tem com isso -hummm...
O PT e o governo têm mesmo razões de
sobra para se preocupar.
E a oposição tucano-democrata, tão
loquaz na condenação da tapioca, emudeceu
agora, diante deste suculento banquete de tubarões.
Fiquei pensando durante alguns dias se deveria responder
aos comentários sobre o artigo a respeito do ensino
de Filosofia, Sociologia e Estatística. Acho que vou
me abster. Dou a palavra a alguém com intelecto maior
do que o meu, e convido os leitores a identificar a
origem do pensamento. O dito é o seguinte:
Conheça a resposta certa nesta coluna, na segunda-feira,
dia 21.
Terça-feira, 15 de julho de 2008
Notas
Greenhalgh
Dida Sampaio/AE
O Brasil é o país onde é surpreendente
surpreender-se. Ou deveria ser. O acúmulo de
escândalos e falcatruas exige o desenvolvimento
de uma pele grossa por parte dos cidadãos. É
necessária certa dose de cinismo para se manter
a lucidez. Essa é uma conquista desse governo:
o mar de lama é tão espesso que ninguém
se choca com mais nada, a capacidade de indignação
foi pro buraco. Procuro não escrever mais sobre
política por isso: se o sujeito comprovadamente
recebe recursos de caixa dois para a sua campanha ou
faz pagamento ao marqueteiro em paraíso fiscal
e ainda é reeleito, não há nada
que a minha verve possa produzir que terá qualquer
efeito sobre quem tolera esse nível de pilantragem.
Melhor falar sobre educação, que é
a única maneira de construir um eleitorado mais
consciente.
Dito isso, preciso registrar que duas coisas da operação
Satiagraha me surpreenderam - pelo menos um pouquinho.
A primeira é que o único pedido de prisão,
que me conste, que não foi acolhido pelo juiz
foi justamente o de um quadro do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh.
Mantenho o que já disse aqui: me parece que todas
as prisões preventivas, nesse caso, são
desnecessárias. Mas se o juiz concede o pedido
de prisão de doleiros e políticos aposentados,
não entendo como pode querer deixar solta uma
pessoa que está se informando sobre o andamento
das investigações com o chefe de gabinete
da Presidência da República. A segunda
é que o próprio Greenhalgh esteja envolvido
nisso. Não conheço o ex-deputado nem sabia
de sua história. Até que há alguns
meses atrás vi um documentário, ruinzinho,
chamado Condor, sobre a operação de mesmo
nome, protagonizada pelos governos militares do Cone
Sul, que "desapareciam" com seus presos políticos.
E quem foi o advogado dos presos políticos que
com mais empenho e dedicação lutou por
sua soltura e pela elucidação de seus
desaparecimentos? Ele mesmo, Luiz Eduardo Greenhalgh.
Tendo a achar que as pessoas não mudam muito
ao longo da vida. Quem nasceu patife há de morrer
patife, quem nasceu inseguro jamais será confiante
etc. Fica verdadeiramente difícil de entender
como alguém que tenha arriscado a sua pele para
salvar desaparecidos políticos em um regime de
exceção agora esteja usando de seu prestígio
para defender Daniel Dantas. Não entro aqui no
mérito jurídico da questão; não
saberia dizer se o que Greenhalgh fez é lícito
ou não, se deve ser indiciado ou não.
Mas o fato é que, ao advogar para essas causas
e desse jeito, ele joga fora a sua biografia. Espero
que a remuneração compense.
Vergès
Falando em advogados e filmes, vale a pena conferir
O Advogado do Terror, documentário sobre
a atuação de Jacques Vergès, defensor
de gente de primeira como Klaus Barbie (O Açogueiro
de Lyon), Carlos o Chacal, Slobodan Milosevic, terroristas
palestinos, Tariq Aziz et caterva. É um estudo
sobre os limites da canalhice humana. Especialmente
recomendado para aqueles que lêem a cobertura
política do noticiário brasileiro e acham
que a coisa não pode ser pior. Animem-se! Ainda
há muito espaço para piora!
A querela jurídica em torno
de Daniel Dantas está tão confusa que já não se sabe
mais nem qual o Daniel Dantas estamos falando. Digna
de entrar para os anais dos grandes erros cômicos do
jornalismo internacional, tem feito sucesso na internet
a capa do jornal baiano Diário do Sul, que acabou
identificando como criminoso o ator de mesmo nome do
banqueiro. Veja abaixo.
Não é piada. O próprio jornal
escreveu nota tentando explicar o inexplicável, tornando
a emenda pior do que o soneto. Faltou ainda explicarem
quem é o sujeito que entrou de Naji Nahas na foto, que
parece mais um velhinho perdido do que o megainvestidor
real.
O valor
do silêncio
Manifestei, no post
da sexta-feira, minha indignação pelo fato de um tema
de relevância menor, como o ensino de filosofia e sociologia,
ter despertado muito mais atenção do que um assunto
importante, o caso do menino Felipe,
que fraturou dois braços e um pé em escola e não só
não foi atendido como ainda sofreu abusos e chacotas
por parte de seus professores. Bem, seria melhor ter
deixado o assunto quieto, porque as respostas que vieram
a esse segundo post foram piores ainda. Algumas perguntando
qual era a confiabilidade da fonte, outras querendo
saber se as lesões do menino foram ou não causadas,
direta ou indiretamente, por negligência de seus professores,
outros ainda querendo saber se havia sinal aparente
de fratura. Desculpem a franqueza, mas isso é canalhice.
Se uma criança está chorando e dizendo estar com dor,
ela deve, imediatamente, ser encaminhada para seus pais
ou para um médico. Se foi ou não descuido de fulano
e beltrano se apura depois, e se há ou não sinais de
fratura (?) não é tarefa para professor responder. Aos
que enviaram esses comentários, é simples notar o tamanho
do erro: basta imaginar como você se sentiria se fosse
o seu filho a passar por essa experiência.
É por essas e outras que a categoria dos professores
perde cada vez mais o respeito. Há um mecanismo de defesa
corporativista na categoria que se aciona como que por
reflexo dizendo "estão acusando a escola ou o professor?
Então vou defender!", sem ter a menor preocupação com
o mérito da questão ou com qualquer respeito, nesse
caso, à simples dignidade humana. Esse tipo de reação
causa raiva em quem o escuta, e mina a possibilidade
de diálogo com a categoria. Se os professores ficarem
conhecidos como os defensores intransigentes de seus
colegas e "atacadores" das reputações de todos aqueles
que ousam criticá-los, então é quase que líquido e certo
que a sociedade não lhes dará ouvidos – mesmo quando
tiverem razão. Não é por acaso que os professores se
dizem isolados, abandonados. É o destino de quem se
entrincheira e se aboleta em bunkers.
P.S. Sigo em busca de um advogado para ajudar a família
de Felipe. Até agora, houve apenas uma manifestação
de uma estudante de Direito do Mato Grosso do Sul, impedida
de ajudar pela distância. Nenhum advogado paulista se
habilita?.
Já deveria ter me
acostumado, mas fiquei surpreso com a reação
dos leitores ao artigo desse espaço sobre as
aulas de filosofia e sociologia. Em realidade, o que
mais me surpreendeu não foi o teor dos comentários,
sua virulência ou a impressão de que eu
não havia escrito um texto, mas sim pintado uma
daquelas figuras de Rorschach, que cada um interpreta
como quer, independente do que está no papel.
O que decepcionou mais foi que, dois dias depois da
publicação desse texto sobre algo realmente
secundário, beirando o insignificante, trouxe
à coluna um caso gravíssimo, de um aluno
que fraturou pulsos e pé em aula. Ainda por cima,
não foi atendido pelos professores e, pior, foi
ridicularizado pelos mesmos ao pedir socorro e se dizer
incapacitado de preencher uma prova. A discussão
sobre filosofia e estatística deve ter motivado
uns 300 comentários, entre posts e e-mails. O
caso do menino Felipe deve ter gerado cinco comentários,
se tanto. O pedido de ajuda de um advogado para tentar
reparar o dano a essa criança, lido por milhares
de internautas, não gerou uma mísera oferta
de auxílio.
Esse é o retrato
da nossa falência educacional. Muita preocupação
com a teoria, pouca com a realidade; muita atenção
aos professores, desprezo pelos alunos; muito palavrório
e declarações de garra e amor, nenhuma
ação. Colhemos o que plantamos.
Filhos
de Gandhi
Se houver uma outra vida após a morte ou se,
como acreditam os hindus, Gandhi estiver reencarnado
em alguém ou algo, seu espírito deve estar
enrubescido ao notar que a sua Satyagraha está
sendo usada para dar nome à ação
da PF que prendeu doleiros e falsários de baixa
estirpe. Eu vejo com muito bons olhos que uma ação
da PF esteja atingindo pessoas ricas e outrora poderosas,
mas desaprovo os seus métodos. Não me
parece, como leigo no assunto, haver necessidade de
prisão preventiva ou temporária. O recolhimento
de passaportes e outras medidas antifuga já me
parecem suficientes para garantir a presença
dos réus no decorrer do processo. Nosso problema
principal, e a solução a eles, não
está nas táticas empregadas pela Polícia
Federal, mas sim na legislação penal,
que garante todo tipo de privilégios e protelações
aos réus, mesmo dos crimes mais descarados. Enquanto
isso não for alterado, continuaremos com o festival
de prende-solta-prende que temos visto. Das últimas
ações espetaculares da PF, quantos réus
estão presos? Quantos foram condenados em última
instância?
E a dificuldade maior é que grande parte do
nosso Congresso é composta por criminosos, de
forma que o endurecimento penal não está,
digamos, na agenda do dia, especialmente para crimes
de colarinho branco.
Olmert
caindo
Reuters
Ao que tudo indica, o primeiro-ministro de Israel,
Ehud Olmert, deve ser forçado a deixar
o cargo nos próximos dias. Ele anda enrolado
com as mais mesquinhas acusações de corrupção
e recebimento de suborno. Não para favorecer
fulano ou beltrano em negociatas multimilionárias,
mas para custear as férias de seus familiares.
O último capítulo da trama é que,
além de receber dinheiro vivo de um empresário
americano, descobriu-se que Olmert, quando era prefeito
de Jerusalém, pedia a várias organizações
que custeassem as mesmas viagens. Várias aceitavam,
ele recebia o dinheiro e mostrava o mesmo recibo para
todas elas. O dinheiro que sobrava ia para uma caixinha
para financiar as viagens de seus parentes.
Acho que para a saúde do mundo a queda de Olmert
é positiva. Um primeiro-ministro fraco, em um
país beligerante como Israel, é sempre
um perigo. Há o risco de o sujeito precisar iniciar
uma guerra para se fortalecer perante a opinião
pública. Com o Irã botando suas manguinhas
de fora e o presidente Bush disposto a deixar o Oriente
Médio em ordem antes de abandonar o cargo, no
fim do ano, as forças conspiram para um ataque
contra Teerã, cujas conseqüências
seriam imprevisíveis. Um Olmert enfraquecido
no poder sempre terá maior tentação
de apertar o gatilho. Que caia logo, portanto, antes
de causar danos maiores.