BUSCA

Revistas
Notícias
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado








COLUNISTAS
dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação
E-mail: gustavo.ioschpe@gmail.com
“de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

DICAS
Livro
Repensando a escola: um estudo sobre os desafios de aprender, ler e escrever.
Vera Ireland (coord.), Unesco/INEP.
Uma excepcional pesquisa com alunos da 4ª série do nosso ensino fundamental que joga luz sobre muitos dos problemas do ensino no país.
 
Site
Centre for the Economics of Education, London School of Economics.
Para quem me escreve perguntando que diabos é a economia da educação, o que economia tem a ver com a área etc., o trabalho desse centro é um bom exemplo. Em inglês.

ARQUIVO
18/8/2008: A neutralidade como dever
25/7/2008: Assim não, ministro!
05/7/2008: De pais e professores
06/6/2008: Emenda 29 e CSS: não e não
14/5/2008: Educação e capitalismo: aliados ou inimigos?
24/4/2008: Método de alfabetização: o experimento gaúcho
20/3/2008: E se plantássemos cérebros?
21/2/2008: Pesquisa livre e arejamento mental
19/2/2008: Educação é o legado mais duradouro de Cuba
14/2/2008: Errata e honestidade intelectual
13/2/2008: Pelo direito à ruindade
31/1/2008: Gustavo Ioschpe responde aos leitores
17/1/2008: Educação sem povo
15/1/2008: Educação de quem? Para quem?
2/1/2008: Os professores e a "frieza das estatísticas"
20/12/2007: Opinião dos leitores
10/12/2007: O professor desvalorizado
7/12/2007: Professor não é coitado
26/11/2007: Vestiburrar
9/11/2007: O caminho passa por consertar a escola pública
1/11/2007: Preocupe-se. Seu filho é mal educado
19/10/2007: Os leitores e a gratuidade do ensino universitário público
16/10/2007: Opinião dos leitores
05/10/2007: Contra a gratuidade nas universidades públicas
20/09/2007: Educação e a incomunicabilidade dos Brasis
29/08/2007: Quem sou, de onde vim e por que estou aqui

NOTAS
18/8/2008 - 20/8/2008
12/8/2008 - 13/8/2008
4/8/2008
15/7/2008 - 21/7/2008
14/7/2008
11/7/2008
2/7/2008
30/6/2008
25/6/2008
23/6/2008
18/6/2008
16/6/2008
02/6/2008
26/5/2008
19/5/2008
14/5/2008
07/5/2008
05/5/2008
02/5/2008
17/4/2008
11/4/2008
9/4/2008
7/4/2008
31/3/2008
25/2/2008 - 18/3/2008
22/2/2008
07/2/2008
24/1/2008
23/1/2008
 
 Quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
 

Educação sem povo

Enquanto a discussão pública de nossa educação não envolver toda sociedade vai continuar falhando

No artigo da revista VEJA, abordo uma questão que me parece crucial para a falência do nosso sistema de ensino: o seu abandono pela sociedade e a cooptação pelas corporações (sindicatos, mormente) dos profissionais do ensino. Chegamos ao ponto em que, a se julgar pela discussão pública da educação, esta pertence aos professores, e não à sociedade, e deve satisfazer os anseios dos profissionais que nela trabalham, ao invés das vontades dos alunos e suas famílias. A idéia - errônea - de que aquilo que é bom para os professores é bom para os alunos foi incorporada de tal maneira que parece herético dizer o óbvio: por mais bem-intencionado que seja qualquer professor e funcionário, há coisas que são boas para eles e ruins (ou insignificantes) para os alunos, e vice-versa. Fazer dever de casa, por exemplo: a literatura empírica é praticamente unânime ao apontar o efeito benéfico de o aluno trabalhar em casa, mas prescrever e corrigir dever de casa é algo que sobrecarrega o professor, que já se sente acuado pela falta de tempo. Esse tipo de situação conflitiva é absolutamente normal. O anormal é a barreira que foi criada para escondê-la: há uma associação tão forte no imaginário popular entre as necessidades dos professores e aquelas do sistema de ensino que apontar os professores e alunos como entes separados, com interesses freqüentemente diversos e ocasionalmente antagônicos, virou ofensa contra professores e funcionários.

"Por mais bem-intencionado que seja qualquer professor e funcionário, há coisas que são boas para eles e ruins (ou insignificantes) para os alunos, e vice-versa"

A corporação se encastelou de tal maneira como "dona" da educação que acabou se arvorando como árbitra das políticas do setor, ao invés de executora. Especialmente na educação pública - ainda que toda a educação brasileira seja no mínimo semipública, por conta dos descontos de imposto de renda, mas isso é tema para outro artigo - isso é preocupante. Se você dissesse que um fiscal da Anvisa pode decidir quais medicamentos podem ser aprovados para consumo e quais aqueles que ele acha que devem ser reprovados, soaria absurdo. Se você sugerisse que um diretor de Detran pode decidir com que idade uma pessoa pode começar a dirigir, ou que pudesse decidir quem deve receber a habilitação para dirigir baseado no que ele acha das habilidades da pessoa, soaria ridículo. Mas se você dissesse que, assim como estes profissionais, os professores de escolas públicos são funcionários públicos, empregados com dinheiro público para cumprir as funções prescritas por seus líderes democraticamente eleitos, também soaria absurdo.

"Como pode comparar um professor a um funcionário da vigilância sanitária ou a um burocrata da área de trânsito?!", já começo a ouvir o rufar da indignação. A comparação não diz respeito à importância social de cada um ou suas qualificações acadêmicas: falamos apenas acerca da necessária subordinação de um funcionário público aos desígnios dos poderes constituídos. Na área educacional, parece ser aceitável que um professor decida quem vai e quem não vai aprender e que devote esforços proporcionais a essa crença, que decida quem vai ou não repetir de ano usando critérios subjetivos como esforço etc., que falte ao serviço com freqüência enorme e se sinta eximido dessas ausências por conta do estresse da profissão.

"A responsável pela orientação pedagógica da secretaria municipal de Educação estava furiosa. O governo do Rio Grande do Sul havia 'inventado' um programa para testar a eficácia de três métodos de alfabetização."

Ano passado encontrei um exemplo bastante emblemático de toda essa confusão. Fui dar uma palestra em um congresso de professores em cidade da grande Porto Alegre, cujo nome mantenho em sigilo por motivos que serão óbvios. Ao chegar no local do evento, conversei com a responsável pela orientação pedagógica da secretaria municipal de Educação que, descrevendo a situação da cidade, estava furiosa. É que o governo estadual do Rio Grande do Sul havia "inventado" um programa para testar a eficácia de três métodos de alfabetização. Algumas cidades do estado foram escolhidas para participar do estudo, com a obrigação de adotar um dos três métodos, que lhe seria indicado de forma randômica, aleatória: algumas cidades implementariam um método de alfabetização de viés construtivista, coordenado pelo Geempa (Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação) da Profª Esther Grossi; outras, pelo método fônico, do Instituo Alfa e Beto, capitaneado por João Batista Oliveira, e o terceiro grupo receberia a metodologia do Instituto Ayrton Senna, dirigido por Viviane Senna. No começo e no final do ano, os alunos seriam testados por provas desenhadas pela Fundação Cesgranrio, e saber-se-ia qual dos métodos era o mais eficaz e qual teria a melhor relação custo-benefício.

É uma iniciativa que me parece absolutamente exemplar. Foca naquele que é a nossa carência mais grave, até por ser a mais basilar, que é a alfabetização. Tem a coragem de implementar um estudo randômico, como manda o figurino da pesquisa, algo que políticos têm natural resistência em implementar. Chamou para participar três instituições de renome e competência reconhecidos, comandadas por lideranças respeitadas e idôneas. Trouxe para fazer o monitoramento aquela que é provavelmente a melhor instituição da área de avaliação educacional. E, de quebra, além de auxiliar não só o estado do Rio Grande do Sul, tinha a chance de fornecer informações que devem servir de valia para todo o país, mergulhado no mesmo problema (com as tinturas regionais de sempre).

Longe de estar orgulhosa de participar desse projeto pioneiro, porém, a responsável pedagógica do município estava extremamente descontente por estar recebendo "goela abaixo" um método de alfabetização "totalmente ultrapassado": o fônico. Perguntei-a por que este método seria ultrapassado, e ela me disse que era coisa da década de 60, que o conhecimento sobre a área já havia avançado muito desde então. Perguntei então se o método também estava ultrapassado em termos de resultados; se havia teorias que comprovadamente apresentavam melhores resultados em sala de aula. A senhora me olhou como se eu falasse grego, não sei se apenas espantada ou talvez lamentando a total ignorância e ingenuidade de um economista. "Em termos teóricos, é claro!". É claro. Pouco importa o que funciona ou não para o aluno: o importante é que aquilo que está sendo implementado em sala de aula esteja coerente com o que de mais avançado há no pensamento pedagógico. Ninguém faz isso por maldade ou desprezo com os alunos: a própria teoria pedagógica mais recente se encarregou de inculcar em seus leitores a idéia de que a medição de resultados é uma perversidade ideológica, um reducionismo, parte do programa daqueles que querem destruir a construção de uma educação crítica e cidadã etc. Nada mais natural do que a rejeição, por parte dos seus leitores, das ferramentas que poderiam invalidar (ou pelo menos questionar) o seu edifício teórico.

Esse episódio seria apenas um "causo", não fossem as suas implicações práticas. Perguntei à minha interlocutora o que os professores achavam daquele programa governamental em geral e do método de alfabetização que lhes havia tocado. Tinham a mesma percepção negativa. E esses professores conseguem implementar em sala de aula esse método, no qual não acreditam? Acho que a pedagoga respondeu algo como "fazem o melhor possível", mas é certo que levavam para a sala de aula as mesmas restrições que expressavam abertamente fora dela.

"A educação de um país é tarefa importante demais para ficar a cargo apenas de educadores."

Os testes de alfabetização foram aplicados no final de dezembro, e seus resultados só estarão disponíveis em fevereiro, de forma que os achados são incertos. O certo é que, naquela cidade, como em tantas outras, as preferências pessoais de professores e pedagogos empregados pelo sistema público faziam com que milhares de crianças não tivessem pleno acesso a um método de ensino que talvez fizesse uma diferença crucial em suas vidas.

Tenho certeza de que se essas crianças e seus pais fossem ouvidos, gostariam que seus filhos tivessem acesso a todos os métodos possíveis, ministrado por professores comprometidos ou, no mínimo, neutros. Infelizmente, esses pais e professores não são ouvidos, e enquanto a nossa educação não for verdadeiramente democrática - do povo e para o povo - vai continuar falhando. A educação de um país é tarefa importante demais para ficar a cargo apenas de educadores.


P.S.: A maioria da pesquisa internacional que eu conheço sobre a temática da alfabetização sugere que, levando-se em consideração as características do professor, a metodologia utilizada (se fônica ou construtivista) não tem impacto significativo sobre o aprendizado dos alunos. Imagino que o experimento gaúcho apresente os mesmos resultados. Vejamos o que dirão os dados.

 

 
OPINIÃO
Comente este artigo
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |