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dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

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Quarta-feira, 14 de maio de 2008
 

Israel: a luta continua

No calendário gregoriano, hoje comemora-se o 60º aniversário da declaração de independência de Israel. É difícil, para uma audiência contemporânea, entender o quase milagre que a criação desse Estado representa. Estamos acostumados a ver Israel como o opressor, o ocupador, um exército com um país, a fonte de más notícias. E, no entanto, há apenas 60 anos, o futuro país tinha 800 mil habitantes, grande parte de sobreviventes do Holocausto, que se viram mais uma vez ameaçados de extinção quando os exércitos de todos os seus vizinhos - Egito, Síria, Jordânia e Líbano - e mais tropas do Iraque, Arábia Saudita e Iêmen atacaram o Estado nascente. Há uma passagem muito bonita na soberba autobiografia do escritor israelense Amos Oz ("De Amor e Trevas", Companhia das Letras, 624 páginas, R$ 65,00), em que seu pai, normalmente um homem frio e contido, vai ao quarto do pequeno Amos na noite em que a ONU aprova a partilha da Palestina, que daria origem a Israel. Sentado na cama, ao lado do menino, o pai conta as várias humilhações e perseguições que sofrera na infância na Polônia, e como vira seu próprio pai, o avô de Amos, sendo atacado por jovens anti-semitas quando fora a sua escola reclamar das agressões que o filho vinha sofrendo. Com lágrimas nos olhos, o pai diz então ao jovem Amos: "Pode ser que você seja amolado na escola ou na rua algum dia. Mas de agora em diante, do momento em que temos o nosso próprio Estado, você nunca vai ser molestado por ser judeu. Isso não. Nunca mais. A partir de hoje, isso está acabado. Pra sempre."


Potência militar e econômica

Ben-Gurion lê a declaração da independência de Israel

A criação de Israel significava o fim de um exílio de 2 mil anos, em que o povo judeu vagou pelo mundo, sendo expulso e perseguido em país após país, até quase desaparecer nas câmaras de gás nazistas. Em 1948, o israelense era um oprimido e um sobrevivente, e sua preocupação era continuar vivo. Analistas militares e historiadores indicam que a vitória israelense contra essa massa de adversários não teve tanto do heroísmo e do milagre apregoado pelas lideranças sionistas, sendo o resultado da superioridade organizacional do exército israelense, que vinha sendo preparado há vários anos sob a batuta do estadista David Ben Gurion, futuro primeiro-ministro do novo país. A análise não deixa de ser verdadeira, mas omite o principal: a razão fundamental do êxito israelense é que não havia outra opção. A derrota significaria mais um extermínio.

Israel fez muito mais do que sobreviver, desde então. Tornou-se uma potência militar e econômica. A renda per capita, ajustada para diferença de poder de compra, foi de US$ 26.500 no ano passado, bastante próximo da média dos países da OCDE, os mais ricos do mundo. O país é um líder mundial em tecnologia de ponta, gastando 4,4% de seu orçamento em pesquisa e desenvolvimento civil, bastante acima da média da OCDE. Tem um sistema de saúde avançado. A escolaridade média da população é de 12,5 anos - o dobro da brasileira. Já saíram de lá 8 prêmios Nobel - 3 da paz, 2 de Química, 2 de Economia e 1 de Literatura. A cena cultural é efervescente - a produção de filmes longa-metragem, por exemplo, triplicou de 9 para 27 entre 2000 e 2004. Amos Gitai é um cineasta reconhecido e premiado internacionalmente, mesma distinção recebida na literatura por Amos Oz e David Grossman e na música pela Orquestra Filarmônica, de Tel Aviv (que teve seu concerto original regido por Toscanini em 1936), e instrumentistas como Yitzhak Perlman e Pinchas Zukerman.

Creio não haver caso na história moderna em que tão poucos conseguiram tanto em tão pouco tempo. Apesar de todas essas vitórias, porém, o sexagésimo aniversário de independência israelense é comemorado com grandes doses de reserva misturada à satisfação, porque hoje parece claro, tanto para a maioria da população israelense quanto para os observadores estrangeiros, que depois de tantas vitórias militares, a luta continua. A independência conquistada há tanto tempo ainda repousa sobre bases frágeis. A estabilidade ainda está por vir - e percebe-se agora que muito provavelmente não virá nessa geração.


O conflito árabe-israelense

AFP
Tanques israelenses entra na Faixa de Gaza

Parte dessa dificuldade se deve à maneira como Israel nasceu em 1948 e o processo que levou até essa data. Do primeiro congresso do movimento sionista, em 1897, até a fundação do Estado, o lema dos construtores da pátria judia foi um mito: levar um povo sem terra a uma terra sem povo. Na mitologia sionista, a então Palestina era uma terra desocupada, que só teria a se beneficiar do influxo de uma população instruída e motivada.

Em realidade, aquele território era, sim, povoado. De maneira relativamente escassa - 525 mil árabes lá residiam em 1880 - o que é compreensível para um povo que se ocupava majoritariamente da criação agrícola em pequena escala. Não havia nacionalismo palestino quando surgiu o nacionalismo judeu, mas sim uma dispersão de diversos clãs familiares em uma área unida pela mesma língua (o árabe) e uma religião em comum (o islã). A narrativa sionista borrou a diferença entre povo e pessoas, entre coletividade e nacionalidade, e viu naquela terra a oportunidade de emigração que eles precisavam ver. A epopéia sionista é a história dos sobreviventes e dos refugiados - não é o terreno fértil para a sensibilidade com as necessidades de terceiros. O desenvolvimento de Israel se assentou sobre a ignorância proposital da existência da população árabe local. E é por isso que a mesma data que os judeus israelenses celebram como de júbilo por sua independência, os árabes - parte dos 1,4 milhão de cidadãos de Israel (20% da população total do país), mais os 4,1 milhões de palestinos nos territórios da Faixa de Gaza e Cisjordânia - chamam de "naqba": a catástrofe.

Essa desconsideração com a população árabe se transformou em opressão aberta a partir de 1967, com a conquista dos territórios supracitados na Guerra dos Seis Dias - especialmente após 1977, com a chegada ao poder do Likud, partido linha-dura. Durante o período pós-1967, o movimento pacifista acreditou que o conflito árabe-israelense era uma questão territorial, que seria solucionado com a devolução, por parte de Israel, das terras conquistadas em 1967.

O passado recente tem se encarregado de enterrar esses sonhos. Apesar da desocupação unilateral do Sul do Líbano, o Hizbollah bombardeia Israel e clama por sua destruição. O mesmo vem ocorrendo depois da desocupação de Gaza, pelo Hamas. O presidente do Irã - país jamais atacado por Israel e com o qual não faz fronteira - despeja constantemente sua retórica eliminacionista às massas árabes, retomando o discurso nazista ou árabe de 1948: borrar Israel do mapa, jogar os judeus ao mar.

Há a sensação de que mesmo que os territórios ocupados virem um Estado palestino, o ódio recíproco não se extinguirá, nem tampouco as manifestações violentas que dele se originam. As feridas de 1948 são muito profundas, a desconfiança entre as partes é total, e os dois povos são divididos por um enorme golfo: não apenas religioso e cultural, mas também econômico, material. O sucesso desse pequeno país em meio ao absoluto fracasso e atraso da maioria dos países árabes circundantes é uma chaga aberta na auto-imagem árabe. Testemunhar diariamente a vitimização e impotência dos palestinos, membros da família árabe, pelo "intruso" judeu, é uma humilhação que impele à revolta, à raiva e, em última instância, aos atentados terroristas.


Sem solução à vista

Sessenta anos depois de nascer, Israel ainda não sabe o que vai ser quando crescer. O mundo tampouco. Algumas das cabeças mais brilhantes da humanidade se debruçaram sobre a questão árabe-israelense, e não há solução à vista. O ciclo de violência parece não ter fim. E quanto mais ela dura, mais ambos os lados se animalizam. Quanto mais anos dura a ocupação sobre os palestinos, mais Israel se distancia dos ideais preconizados em sua Declaração de Independência, que dizia que o país "será baseado na liberdade, justiça e paz como imaginado pelos profetas de Israel; garantirá liberdade de religião, consciência, língua, educação e cultura; respeitará os lugares sagrados de todas as religiões; e será fiel aos princípios da Ata das Nações Unidas". Em 1974, o então primeiro-ministro Yitzhak Rabin teve de renunciar ao cargo pela descoberta de que sua mulher mantinha uma conta bancária nos EUA. O atual primeiro-ministro, Ehud Olmert, é alvo de uma investigação criminal sobre o recebimento de suborno, e o último presidente, Moshe Katzav, teve de abandonar o cargo sob acusações de estupro a funcionárias de seu gabinete. Do lado palestino, a involução também é visível: na Intifada de 1987, havia meninos jogando pedras em soldados. Na última Intifada, iniciada em 2000, a imagem-símbolo foi outra: a do jovem exibindo suas mãos banhadas de sangue judeu para a massa vibrante, depois do bárbaro linchamento de dois israelenses dentro de uma delegacia de polícia de Ramallah.

É certo que a guerra é a mais insensata das criações humanas, e que todos os conflitos tendem a ser solucionados, no pior dos casos pela simples exaustão dos litigantes ou sua aniquilação. Pode ser que amanhã Israel se mostre arrependido pelo dano e sofrimento causado aos palestinos e estenda-lhes a mão em sinal de humildade e paz. Pode ser que os palestinos e árabes aceitem a legitimidade do Estado judeu, renunciem à violência e se preocupem em construir mais escolas e menos bombas. Como se chegar lá é que ninguém mais parece saber, e o endurecimento de ambos os lados faz com que qualquer previsão de quando isso vá acontecer soe como mais uma profecia amalucada daquela terra em que o imponderável vira rotina e o óbvio insiste em não dar as caras.

 

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VEJA na História - Israel: nasce o país dos judeus
Em profundidade: A questão Palestina


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