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Israel: a luta continua
No calendário gregoriano,
hoje comemora-se o 60º aniversário da declaração
de independência de Israel. É difícil,
para uma audiência contemporânea, entender
o quase milagre que a criação desse Estado
representa. Estamos acostumados a ver Israel como o
opressor, o ocupador, um exército com um país,
a fonte de más notícias. E, no entanto,
há apenas 60 anos, o futuro país tinha
800 mil habitantes, grande parte de sobreviventes do
Holocausto, que se viram mais uma vez ameaçados
de extinção quando os exércitos
de todos os seus vizinhos - Egito, Síria, Jordânia
e Líbano - e mais tropas do Iraque, Arábia
Saudita e Iêmen atacaram o Estado nascente. Há
uma passagem muito bonita na soberba autobiografia do
escritor israelense Amos Oz ("De Amor e Trevas",
Companhia das Letras, 624 páginas, R$ 65,00),
em que seu pai, normalmente um homem frio e contido,
vai ao quarto do pequeno Amos na noite em que a ONU
aprova a partilha da Palestina, que daria origem a Israel.
Sentado na cama, ao lado do menino, o pai conta as várias
humilhações e perseguições
que sofrera na infância na Polônia, e como
vira seu próprio pai, o avô de Amos, sendo
atacado por jovens anti-semitas quando fora a sua escola
reclamar das agressões que o filho vinha sofrendo.
Com lágrimas nos olhos, o pai diz então
ao jovem Amos: "Pode ser que você seja amolado
na escola ou na rua algum dia. Mas de agora em diante,
do momento em que temos o nosso próprio Estado,
você nunca vai ser molestado por ser judeu. Isso
não. Nunca mais. A partir de hoje, isso está
acabado. Pra sempre."
Potência militar e econômica
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| Ben-Gurion lê a declaração
da independência de Israel |
A criação de Israel significava o fim
de um exílio de 2 mil anos, em que o povo judeu
vagou pelo mundo, sendo expulso e perseguido em país
após país, até quase desaparecer
nas câmaras de gás nazistas. Em 1948, o
israelense era um oprimido e um sobrevivente, e sua
preocupação era continuar vivo. Analistas
militares e historiadores indicam que a vitória
israelense contra essa massa de adversários não
teve tanto do heroísmo e do milagre apregoado
pelas lideranças sionistas, sendo o resultado
da superioridade organizacional do exército israelense,
que vinha sendo preparado há vários anos
sob a batuta do estadista David Ben Gurion, futuro primeiro-ministro
do novo país. A análise não deixa
de ser verdadeira, mas omite o principal: a razão
fundamental do êxito israelense é que não
havia outra opção. A derrota significaria
mais um extermínio.
Israel fez muito mais do que sobreviver, desde então.
Tornou-se uma potência militar e econômica.
A renda per capita, ajustada para diferença de
poder de compra, foi de US$ 26.500 no ano passado, bastante
próximo da média dos países da
OCDE, os mais ricos do mundo. O país é
um líder mundial em tecnologia de ponta, gastando
4,4% de seu orçamento em pesquisa e desenvolvimento
civil, bastante acima da média da OCDE. Tem um
sistema de saúde avançado. A escolaridade
média da população é de
12,5 anos - o dobro da brasileira. Já saíram
de lá 8
prêmios Nobel - 3 da paz, 2 de Química,
2 de Economia e 1 de Literatura. A cena cultural é
efervescente - a produção de filmes longa-metragem,
por exemplo, triplicou de 9 para 27 entre 2000 e 2004.
Amos Gitai é um cineasta reconhecido e premiado
internacionalmente, mesma distinção recebida
na literatura por Amos Oz e David Grossman e na música
pela Orquestra
Filarmônica, de Tel Aviv (que teve
seu concerto original regido por Toscanini em 1936),
e instrumentistas como Yitzhak Perlman e Pinchas Zukerman.
Creio não haver caso na história moderna
em que tão poucos conseguiram tanto em tão
pouco tempo. Apesar de todas essas vitórias,
porém, o sexagésimo aniversário
de independência israelense é comemorado
com grandes doses de reserva misturada à satisfação,
porque hoje parece claro, tanto para a maioria da população
israelense quanto para os observadores estrangeiros,
que depois de tantas vitórias militares, a luta
continua. A independência conquistada há
tanto tempo ainda repousa sobre bases frágeis.
A estabilidade ainda está por vir - e percebe-se
agora que muito provavelmente não virá
nessa geração.
O conflito árabe-israelense
AFP
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| Tanques israelenses
entra na Faixa de Gaza |
Parte dessa dificuldade se deve à maneira como
Israel nasceu em 1948 e o processo que levou até
essa data. Do primeiro congresso do movimento sionista,
em 1897, até a fundação do Estado,
o lema dos construtores da pátria judia foi um
mito: levar um povo sem terra a uma terra sem povo.
Na mitologia sionista, a então Palestina era
uma terra desocupada, que só teria a se beneficiar
do influxo de uma população instruída
e motivada.
Em realidade, aquele território era, sim, povoado.
De maneira relativamente escassa - 525 mil árabes
lá residiam em 1880 - o que é compreensível
para um povo que se ocupava majoritariamente da criação
agrícola em pequena escala. Não havia
nacionalismo palestino quando surgiu o nacionalismo
judeu, mas sim uma dispersão de diversos clãs
familiares em uma área unida pela mesma língua
(o árabe) e uma religião em comum (o islã).
A narrativa sionista borrou a diferença entre
povo e pessoas, entre coletividade e nacionalidade,
e viu naquela terra a oportunidade de emigração
que eles precisavam ver. A epopéia sionista é
a história dos sobreviventes e dos refugiados
- não é o terreno fértil para a
sensibilidade com as necessidades de terceiros. O desenvolvimento
de Israel se assentou sobre a ignorância proposital
da existência da população árabe
local. E é por isso que a mesma data que os judeus
israelenses celebram como de júbilo por sua independência,
os árabes - parte dos 1,4 milhão de cidadãos
de Israel (20% da população total do país),
mais os 4,1 milhões de palestinos nos territórios
da Faixa
de Gaza e Cisjordânia
- chamam de "naqba": a catástrofe.
Essa desconsideração com a população
árabe se transformou em opressão aberta
a partir de 1967, com a conquista dos territórios
supracitados na Guerra dos Seis Dias - especialmente
após 1977, com a chegada ao poder do Likud, partido
linha-dura. Durante o período pós-1967,
o movimento pacifista acreditou que o conflito árabe-israelense
era uma questão territorial, que seria solucionado
com a devolução, por parte de Israel,
das terras conquistadas em 1967.
O passado recente tem se encarregado de enterrar esses
sonhos. Apesar da desocupação unilateral
do Sul do Líbano, o Hizbollah bombardeia Israel
e clama por sua destruição. O mesmo vem
ocorrendo depois da desocupação de Gaza,
pelo Hamas. O presidente do Irã - país
jamais atacado por Israel e com o qual não faz
fronteira - despeja constantemente sua retórica
eliminacionista às massas árabes, retomando
o discurso nazista ou árabe de 1948: borrar Israel
do mapa, jogar os judeus ao mar.
Há a sensação de que mesmo que
os territórios ocupados virem um Estado palestino,
o ódio recíproco não se extinguirá,
nem tampouco as manifestações violentas
que dele se originam. As feridas de 1948 são
muito profundas, a desconfiança entre as partes
é total, e os dois povos são divididos
por um enorme golfo: não apenas religioso e cultural,
mas também econômico, material. O sucesso
desse pequeno país em meio ao absoluto fracasso
e atraso da maioria dos países árabes
circundantes é uma chaga aberta na auto-imagem
árabe. Testemunhar diariamente a vitimização
e impotência dos palestinos, membros da família
árabe, pelo "intruso" judeu, é
uma humilhação que impele à revolta,
à raiva e, em última instância,
aos atentados terroristas.
Sem solução à vista
Sessenta anos depois de nascer, Israel ainda não
sabe o que vai ser quando crescer. O mundo tampouco.
Algumas das cabeças mais brilhantes da humanidade
se debruçaram sobre a questão árabe-israelense,
e não há solução à
vista. O ciclo de violência parece não
ter fim. E quanto mais ela dura, mais ambos os lados
se animalizam. Quanto mais anos dura a ocupação
sobre os palestinos, mais Israel se distancia dos ideais
preconizados em sua Declaração de Independência,
que dizia que o país "será baseado
na liberdade, justiça e paz como imaginado pelos
profetas de Israel; garantirá liberdade de religião,
consciência, língua, educação
e cultura; respeitará os lugares sagrados de
todas as religiões; e será fiel aos princípios
da Ata das Nações Unidas". Em 1974,
o então primeiro-ministro Yitzhak Rabin teve
de renunciar ao cargo pela descoberta de que sua mulher
mantinha uma conta bancária nos EUA. O atual
primeiro-ministro, Ehud Olmert, é alvo de uma
investigação criminal sobre o recebimento
de suborno, e o último presidente, Moshe Katzav,
teve de abandonar o cargo sob acusações
de estupro a funcionárias de seu gabinete. Do
lado palestino, a involução também
é visível: na Intifada de 1987, havia
meninos jogando pedras em soldados. Na última
Intifada, iniciada em 2000, a imagem-símbolo
foi outra: a do jovem exibindo suas mãos banhadas
de sangue judeu para a massa vibrante, depois do bárbaro
linchamento de dois israelenses dentro de uma delegacia
de polícia de Ramallah.
É certo que a guerra é a mais insensata
das criações humanas, e que todos os conflitos
tendem a ser solucionados, no pior dos casos pela simples
exaustão dos litigantes ou sua aniquilação.
Pode ser que amanhã Israel se mostre arrependido
pelo dano e sofrimento causado aos palestinos e estenda-lhes
a mão em sinal de humildade e paz. Pode ser que
os palestinos e árabes aceitem a legitimidade
do Estado judeu, renunciem à violência
e se preocupem em construir mais escolas e menos bombas.
Como se chegar lá é que ninguém
mais parece saber, e o endurecimento de ambos os lados
faz com que qualquer previsão de quando isso
vá acontecer soe como mais uma profecia amalucada
daquela terra em que o imponderável vira rotina
e o óbvio insiste em não dar as caras.
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