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Notas
A
nossa vã filosofia
Getty Images
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Já deveria ter me
acostumado, mas fiquei surpreso com a reação
dos leitores ao artigo desse espaço sobre as
aulas de filosofia e sociologia. Em realidade, o que
mais me surpreendeu não foi o teor dos comentários,
sua virulência ou a impressão de que eu
não havia escrito um texto, mas sim pintado uma
daquelas figuras de Rorschach, que cada um interpreta
como quer, independente do que está no papel.
O que decepcionou mais foi que, dois dias depois da
publicação desse texto sobre algo realmente
secundário, beirando o insignificante, trouxe
à coluna um caso gravíssimo, de um aluno
que fraturou pulsos e pé em aula. Ainda por cima,
não foi atendido pelos professores e, pior, foi
ridicularizado pelos mesmos ao pedir socorro e se dizer
incapacitado de preencher uma prova. A discussão
sobre filosofia e estatística deve ter motivado
uns 300 comentários, entre posts e e-mails. O
caso do menino Felipe deve ter gerado cinco comentários,
se tanto. O pedido de ajuda de um advogado para tentar
reparar o dano a essa criança, lido por milhares
de internautas, não gerou uma mísera oferta
de auxílio.
Esse é o retrato
da nossa falência educacional. Muita preocupação
com a teoria, pouca com a realidade; muita atenção
aos professores, desprezo pelos alunos; muito palavrório
e declarações de garra e amor, nenhuma
ação. Colhemos o que plantamos.
Filhos
de Gandhi
Se houver uma outra vida após a morte ou se,
como acreditam os hindus, Gandhi estiver reencarnado
em alguém ou algo, seu espírito deve estar
enrubescido ao notar que a sua Satyagraha está
sendo usada para dar nome à ação
da PF que prendeu doleiros e falsários de baixa
estirpe. Eu vejo com muito bons olhos que uma ação
da PF esteja atingindo pessoas ricas e outrora poderosas,
mas desaprovo os seus métodos. Não me
parece, como leigo no assunto, haver necessidade de
prisão preventiva ou temporária. O recolhimento
de passaportes e outras medidas antifuga já me
parecem suficientes para garantir a presença
dos réus no decorrer do processo. Nosso problema
principal, e a solução a eles, não
está nas táticas empregadas pela Polícia
Federal, mas sim na legislação penal,
que garante todo tipo de privilégios e protelações
aos réus, mesmo dos crimes mais descarados. Enquanto
isso não for alterado, continuaremos com o festival
de prende-solta-prende que temos visto. Das últimas
ações espetaculares da PF, quantos réus
estão presos? Quantos foram condenados em última
instância?
E a dificuldade maior é que grande parte do
nosso Congresso é composta por criminosos, de
forma que o endurecimento penal não está,
digamos, na agenda do dia, especialmente para crimes
de colarinho branco.
Olmert
caindo
Reuters
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Ao que tudo indica, o primeiro-ministro de Israel,
Ehud Olmert, deve ser forçado a deixar
o cargo nos próximos dias. Ele anda enrolado
com as mais mesquinhas acusações de corrupção
e recebimento de suborno. Não para favorecer
fulano ou beltrano em negociatas multimilionárias,
mas para custear as férias de seus familiares.
O último capítulo da trama é que,
além de receber dinheiro vivo de um empresário
americano, descobriu-se que Olmert, quando era prefeito
de Jerusalém, pedia a várias organizações
que custeassem as mesmas viagens. Várias aceitavam,
ele recebia o dinheiro e mostrava o mesmo recibo para
todas elas. O dinheiro que sobrava ia para uma caixinha
para financiar as viagens de seus parentes.
Acho que para a saúde do mundo a queda de Olmert
é positiva. Um primeiro-ministro fraco, em um
país beligerante como Israel, é sempre
um perigo. Há o risco de o sujeito precisar iniciar
uma guerra para se fortalecer perante a opinião
pública. Com o Irã botando suas manguinhas
de fora e o presidente Bush disposto a deixar o Oriente
Médio em ordem antes de abandonar o cargo, no
fim do ano, as forças conspiram para um ataque
contra Teerã, cujas conseqüências
seriam imprevisíveis. Um Olmert enfraquecido
no poder sempre terá maior tentação
de apertar o gatilho. Que caia logo, portanto, antes
de causar danos maiores.
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