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COLUNISTAS
dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

DICAS
Site
MEC em Números
Esse site traz um panorama geral dos dados quantitativos da educação brasileira. Do “mapa do ensino superior” vieram informações usadas para esse texto e artigo da revista.
Livro
A Escola Vista por Dentro, de Simon Schwartzman e João Batista Oliveira
(Ed. Alfa Educativa)
De dois dos pensadores mais respeitados e experientes da educação brasileira, uma pesquisa fundamental para entender o que pensam pais e professores do nosso ensino.
ARQUIVO
18/02/2009: Falência educacional: complô ou lógica?
03/12/2008: Violência escolar: quem é a vítima?
01/10/2008: Dinheiro não compra educação de qualidade
8/9/2008: Dever do próximo presidente: vetar a expansão curricular
29/8/2008: Preparados para perder
27/8/2008: Cegueira e Comunismo
18/8/2008: A neutralidade como dever
25/7/2008: Assim não, ministro!
05/7/2008: De pais e professores
06/6/2008: Emenda 29 e CSS: não e não
14/5/2008: Educação e capitalismo: aliados ou inimigos?
24/4/2008: Método de alfabetização: o experimento gaúcho
20/3/2008: E se plantássemos cérebros?
21/2/2008: Pesquisa livre e arejamento mental
19/2/2008: Educação é o legado mais duradouro de Cuba
14/2/2008: Errata e honestidade intelectual
13/2/2008: Pelo direito à ruindade
31/1/2008: Gustavo Ioschpe responde aos leitores
17/1/2008: Educação sem povo
15/1/2008: Educação de quem? Para quem?
2/1/2008: Os professores e a "frieza das estatísticas"
20/12/2007: Opinião dos leitores
10/12/2007: O professor desvalorizado
7/12/2007: Professor não é coitado
26/11/2007: Vestiburrar
9/11/2007: O caminho passa por consertar a escola pública
1/11/2007: Preocupe-se. Seu filho é mal educado
19/10/2007: Os leitores e a gratuidade do ensino universitário público
16/10/2007: Opinião dos leitores
05/10/2007: Contra a gratuidade nas universidades públicas
20/09/2007: Educação e a incomunicabilidade dos Brasis
29/08/2007: Quem sou, de onde vim e por que estou aqui

NOTAS
26/9/2008
23/9/2008
17/9/2008
16/9/2008
18/8/2008 - 20/8/2008
12/8/2008 - 13/8/2008
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15/7/2008 - 21/7/2008
14/7/2008
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24/1/2008
23/1/2008
 
Sexta-feira, 5 de outubro de 2007
 

Confira a resposta
 

Contra a gratuidade nas universidades públicas

A idéia de acabar com a gratuidade de universidades públicas no Brasil costuma "despertar os instintos mais primitivos" de alguns leitores, de forma que a pausa para a reflexão é sempre necessária (pelo menos como prelúdio ao destampatório).

Proponho aos opositores da idéia um exercício mental: suponha que você está criando o sistema universitário de um país hipotético com as mesmas características do Brasil. Nele, os ricos cursariam as universidades públicas sem pagar por isso? Por quê? Ainda não ouvi resposta convincente a essa indagação.

Deixando de lado a imaginação e falando sobre o Brasil real, a oposição ao fim da gratuidade vêm, normalmente, de duas fontes: a, digamos, legalística e a utilitarista.

A lei deveria ser assim?

A legalística diz: ora, o ensino deve ser gratuito para todos pois está na Constituição e é, portanto, direito assegurado a todos os brasileiros, incluindo os ricos. Essas pessoas parecem falar da nossa Constituição como se fosse édito divino - pleno de sabedoria e imutável. Eu, particularmente, acho que a nossa Constituição de 1988 é como aquelas teses de doutorado que viram alvo de piada: tem coisas boas e originais, só que o que é bom não é original, e o que é original não é bom. Nesta última categoria, eu enquadraria os artigos que versam sobre a gratuidade do ensino público em todos os níveis e a indissociabilidade de ensino e pesquisa. Fora do campo das opiniões e julgamentos de valor, porém, há a constatação factual: a Constituição é uma criação da sociedade, expressa por seus representantes eleitos, não tendo, portanto, nada de imutável ou infalível. Dizer que algo tem de ser feito porque está na lei só remete a pergunta a um nível superior: a lei deveria ser assim? Minha resposta é negativa. Acredito que a lei deva ser mudada, mesmo que, nesse caso, estejamos falando de algo complicado, que requereria uma emenda constitucional. O óbice legal, portanto, inexiste.

"Acredito que a lei deva ser mudada, mesmo que com uma emenda constitucional"

Temos então o argumento utilitarista, que diz algo como "eu pago todos os impostos, que são absolutamente exagerados no Brasil, e não recebo nada em troca em termos de serviços públicos. O mínimo que tem de ser feito, portanto, é manter a gratuidade das universidades públicas, que é o único mecanismo que o Estado tem de ressarcir sua dívida para com os cidadãos que pagam impostos". Vamos por partes.

Em primeiro lugar, a carga tributária brasileira é, sim, abusiva, e deveria ser diminuída. O fato de que há impostos demais, porém, não significa que também não haja isenções indevidas. A gratuidade das universidades para alunos ricos é uma dessas isenções indevidas. Deve ser combatida, ao mesmo tempo em que se combate também o peso da carga tributária.

Em segundo lugar, não é verdade que o Estado brasileiro não oferece nenhum serviço público, mesmo às camadas mais ricas da população. Defesa nacional, segurança pública, pavimentação e sinalização de ruas e avenidas, sistema judiciário - essas são áreas, dentre muitas outras, em que o Estado provê serviços públicos mesmo aos mais ricos. São deficientes? Sim. Deveriam ser melhores? Sim. Mas por pior que seja a nossa polícia e o nosso judiciário, por exemplo, a vida seria infinitamente pior, pra não dizer impossível, sem eles. Novamente, precisamos batalhar pela melhoria desses serviços, mas ao mesmo tempo reconhecendo que há, sim, muito que já é feito atualmente.

Em terceiro lugar, a relação financeira entre cidadão e Estado, especialmente em um regime democrático, não é um balcão de negócios onde dá-se de um lado e retira-se do outro. Acredito haver na sociedade brasileira uma maioria favorável à redistribuição de renda, e a principal ferramenta para se atingir esse objetivo é através da taxação progressiva: quanto mais rico, mais imposto o sujeito paga, e esse imposto é distribuído de forma prioritária às parcelas mais pobres da sociedade. É absolutamente normal, portanto, que uma pessoa de posses pague mais em imposto de renda do que recebe em serviços diretos do governo. É claro que aí há uma questão política, e não técnica, que é em que ponto da escala a transferência se dará: se 95% dos impostos irão para os pobres, 80%, 70% etc. Mas que a maioria deveria chegar aos mais pobres e que, portanto, os ricos pagarão mais do que recebem diretamente, é consenso praticamente universal.

A via do crédito educativo

"A cada ano adicional de ensino superior, o salário é, em média, 20% maior"

Mesmo que os ricos sintam-se injustiçados com o quinhão que os cabe, acredito que o ensino universitário é um dos últimos lugares que essa compensação deveria ser buscada, pois diferentemente de grande parte dos gastos públicos, o dispêndio em educação universitária é um investimento, que dará ao seu recipiente vultosos retornos. Estudo de alguns anos atrás (paper de Blom et al 2001) demonstra que os portadores de diplomas universitários no Brasil têm salários 814% maiores do que aqueles sem instrução nenhuma, 2,5 vezes mais do que aqueles com diploma de ensino secundário e o retorno a um ano de ensino superior está em torno de 20% - ou seja, a cada ano adicional de ensino superior, o salário do sujeito é, em média, 20% maior do que a pessoa que não cursou aquele ano. De forma que qualquer pessoa, mesmo aquela com poucas posses, deveria poder contrair dívidas, via crédito educativo, para custear os seus estudos, na ciência de que os retornos salariais daquele investimento seriam mais do que suficientes para cobrir qualquer empréstimo razoável. Imagine então quando falamos de pessoas de classe alta, cujo empréstimo vem de seus pais... Melhor seria, então, exigir que a contrapartida do poder público viesse através de melhorias nos serviços em que o Estado detém o monopólio e que não auferem aos cidadãos ricos vantagens ainda maiores para perpetuar seu privilégio ad eternum.

 
OPINIÃO
Você concorda com a proposta de fim da gratuidade
das universidades públicas?

ARTIGO (VEJA 5/10/2007)
Hora de cobrar
Costuma-se ouvir que as universidades públicas estão sendo "sucateadas". Os gastos com as universidades públicas passou de 7 bilhões de reais em 1997 para os 9,9 bi de reais em 2006 — em valores corrigidos pela inflação. Houve, portanto, um significativo aumento. Onde está o sucateamento?

MEMÓRIA
Antes de me interessar intelectualmente por questões relacionadas à educação, desenvolvimento e justiça, passei meus anos formativos absorvendo essas preocupações por osmose. Meu pai sempre martelou em mim a importância da escola, bem como de viver uma vida justa e de respeito ao próximo. Essa semana perdi a sua presença física, mas acredito que o seu legado perdura, visível, em artigos como esse. Onde quer que estejas, pai, esse é pra ti.
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