|
Contra a gratuidade nas universidades
públicas 
A
idéia de acabar com a gratuidade de universidades públicas no Brasil
costuma "despertar os instintos mais primitivos" de alguns leitores,
de forma que a pausa para a reflexão é sempre necessária
(pelo menos como prelúdio ao destampatório). Proponho aos
opositores da idéia um exercício mental: suponha que você
está criando o sistema universitário de um país hipotético
com as mesmas características do Brasil. Nele, os ricos cursariam as universidades
públicas sem pagar por isso? Por quê? Ainda não ouvi resposta
convincente a essa indagação. Deixando de lado a imaginação
e falando sobre o Brasil real, a oposição ao fim da gratuidade vêm,
normalmente, de duas fontes: a, digamos, legalística e a utilitarista.
A lei deveria ser assim? A legalística diz: ora, o
ensino deve ser gratuito para todos pois está na Constituição
e é, portanto, direito assegurado a todos os brasileiros, incluindo os
ricos. Essas pessoas parecem falar da nossa Constituição como se
fosse édito divino - pleno de sabedoria e imutável. Eu, particularmente,
acho que a nossa Constituição de 1988 é como aquelas teses
de doutorado que viram alvo de piada: tem coisas boas e originais, só que
o que é bom não é original, e o que é original não
é bom. Nesta última categoria, eu enquadraria os artigos que versam
sobre a gratuidade do ensino público em todos os níveis e a indissociabilidade
de ensino e pesquisa. Fora do campo das opiniões e julgamentos de valor,
porém, há a constatação factual: a Constituição
é uma criação da sociedade, expressa por seus representantes
eleitos, não tendo, portanto, nada de imutável ou infalível.
Dizer que algo tem de ser feito porque está na lei só remete a pergunta
a um nível superior: a lei deveria ser assim? Minha resposta é negativa.
Acredito que a lei deva ser mudada, mesmo que, nesse caso, estejamos falando de
algo complicado, que requereria uma emenda constitucional. O óbice legal,
portanto, inexiste.
 |
| "Acredito que a
lei deva ser mudada, mesmo que com uma emenda constitucional" |
 |
Temos então o argumento utilitarista, que diz algo como "eu
pago todos os impostos, que são absolutamente exagerados no Brasil, e não
recebo nada em troca em termos de serviços públicos. O mínimo
que tem de ser feito, portanto, é manter a gratuidade das universidades
públicas, que é o único mecanismo que o Estado tem de ressarcir
sua dívida para com os cidadãos que pagam impostos". Vamos
por partes. Em primeiro lugar,
a carga tributária brasileira é, sim, abusiva, e deveria ser diminuída.
O fato de que há impostos demais, porém, não significa que
também não haja isenções indevidas. A gratuidade das
universidades para alunos ricos é uma dessas isenções indevidas.
Deve ser combatida, ao mesmo tempo em que se combate também o peso da carga
tributária. Em segundo lugar,
não é verdade que o Estado brasileiro não oferece nenhum
serviço público, mesmo às camadas mais ricas da população.
Defesa nacional, segurança pública, pavimentação e
sinalização de ruas e avenidas, sistema judiciário - essas
são áreas, dentre muitas outras, em que o Estado provê serviços
públicos mesmo aos mais ricos. São deficientes? Sim. Deveriam ser
melhores? Sim. Mas por pior que seja a nossa polícia e o nosso judiciário,
por exemplo, a vida seria infinitamente pior, pra não dizer impossível,
sem eles. Novamente, precisamos batalhar pela melhoria desses serviços,
mas ao mesmo tempo reconhecendo que há, sim, muito que já é
feito atualmente. Em terceiro lugar,
a relação financeira entre cidadão e Estado, especialmente
em um regime democrático, não é um balcão de negócios
onde dá-se de um lado e retira-se do outro. Acredito haver na sociedade
brasileira uma maioria favorável à redistribuição
de renda, e a principal ferramenta para se atingir esse objetivo é através
da taxação progressiva: quanto mais rico, mais imposto o sujeito
paga, e esse imposto é distribuído de forma prioritária às
parcelas mais pobres da sociedade. É absolutamente normal, portanto, que
uma pessoa de posses pague mais em imposto de renda do que recebe em serviços
diretos do governo. É claro que aí há uma questão
política, e não técnica, que é em que ponto da escala
a transferência se dará: se 95% dos impostos irão para os
pobres, 80%, 70% etc. Mas que a maioria deveria chegar aos mais pobres e que,
portanto, os ricos pagarão mais do que recebem diretamente, é consenso
praticamente universal. A via do crédito educativo
 |
| "A cada ano adicional
de ensino superior, o salário é, em média, 20% maior" |
 |
Mesmo que os ricos sintam-se injustiçados com o quinhão
que os cabe, acredito que o ensino universitário é um dos últimos
lugares que essa compensação deveria ser buscada, pois diferentemente
de grande parte dos gastos públicos, o dispêndio em educação
universitária é um investimento, que dará ao seu recipiente
vultosos retornos. Estudo de alguns anos atrás (paper
de Blom et al 2001) demonstra que os portadores de diplomas universitários
no Brasil têm salários 814% maiores do que aqueles sem instrução
nenhuma, 2,5 vezes mais do que aqueles com diploma de ensino secundário
e o retorno a um ano de ensino superior está em torno de 20% - ou seja,
a cada ano adicional de ensino superior, o salário do sujeito é,
em média, 20% maior do que a pessoa que não cursou aquele ano. De
forma que qualquer pessoa, mesmo aquela com poucas posses, deveria poder contrair
dívidas, via crédito educativo, para custear os seus estudos, na
ciência de que os retornos salariais daquele investimento seriam mais do
que suficientes para cobrir qualquer empréstimo razoável. Imagine
então quando falamos de pessoas de classe alta, cujo empréstimo
vem de seus pais... Melhor seria, então, exigir que a contrapartida do
poder público viesse através de melhorias nos serviços em
que o Estado detém o monopólio e que não auferem aos cidadãos
ricos vantagens ainda maiores para perpetuar seu privilégio ad eternum. |