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| Terça-feira, 18 de março
de 2008 |
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Sólido como o Maguila
Vi ontem as declarações do ministro Mantega
sobre a solidez do Brasil em relação à
crise internacional. Me lembrou um pouco a luta do Maguila
contra o Holyfield, em 1989. O Maguila tinha um belo
cartel, um soco forte, estava em boa forma, era a luta
da vida dele e a imprensa dizia que o Holyfield estava
na gandaia em Las Vegas e não estava nem aí
para o nosso Maguila. Não sabia o que o esperava
etc. Fiquei acordado até tarde da noite esperando
que o Maguila patrolasse o Holyfield e se qualificasse
pra pegar o Tyson. Era pra ser uma luta surrada, com
vantagem nossa. Aí no segundo round o Holyfield
meteu um gancho e um direto no queixo do nosso Maguila
que o deixou quase inconsciente, estatelado no chão
com a perna no ar.
O Brasil realmente está mais preparado do que
nunca para agüentar uma crise financeira internacional.
Mas isso não significa que esteja blindado. A
força da economia global leva países como
o Brasil de arrasto para cima e para baixo. Muito
do crescimento que estamos vivendo nos últimos
anos se deve a maré positiva da economia internacional.
A baixa dos juros americanos no começo da década,
que financiou grande parte da corrida imobiliária
que agora está cobrando o seu custo, foi também
a causadora do excesso de liquidez do sistema financeiro
global que trouxe tanto dinheiro para o Brasil. Tivemos
o bônus, teremos o ônus. Adoraria acreditar
que a crise dos mercados financeiros não impactará
o crescimento econômico brasileiro, mas não
deve ser verdade. Mesmo que a crise fique circunscrita
aos mercados financeiros, deve haver diminuição
de crédito para economias mais arriscadas, como
a brasileira, o que afeta nossa capacidade de investimento.
E se a crise contaminar a economia real, como vai parecendo
cada vez mais provável, é difícil
imaginar que não respingue nas nossas exportações.
Maquiavel descreve, nO Príncipe,
os papéis da virtu e fortuna.
Precisaria de muito espaço aqui pra descrever
esses conceitos com um mínimo de correção,
mas a analogia usada pelo próprio autor, se me
lembro bem, é a do curso de um rio. A virtu é
a construção de proteções
nas suas margens; a fortuna são as águas
do rio. O governante prudente se prepara contra as enchentes
reforçando suas margens, mas apenas até
um limite. Quando a força das águas é
realmente forte e sai do controle, não há
margem que a segure.
O Bolsa Família
para adolescentes
O governo amplia agora o Bolsa Família para
adolescentes de 16 e 17 anos. Dentro da lógica
do programa, a extensão faz todo o sentido. Dentro
da lógica econômica, também
se esses jovens estão abandonando a escola para
adentrar o mercado de trabalho, é provável
que um incentivo financeiro à continuação
na escola tenha efeito positivo. Acusam a medida de
eleitoreira, mas é uma redundância: tudo
que se faz em política é para dar voto.
O problema é quando as medidas enganam o eleitor
uma ponte que cai depois da votação,
o hospital que é inaugurado na véspera
do escrutínio e depois fecha etc. Não
parece ser o caso com essa medida. Digo parece
porque, em primeiro lugar, é preciso que a condicionalidade
(a presença do aluno na escola) seja efetivamente
verificada, que as famílias só recebam
o dinheiro se o filho estiver efetivamente indo à
escola. E, em segundo lugar, porque é preciso
testar empiricamente se diminuiu a evasão dos
recebedores do auxílio coisa que só
será possível asseverar depois da iniciativa
ser implementada. A lógica, a priori, existe.
O problema de medidas como essa é que não
tocam no cerne do problema, que é a qualidade
da educação brasileira. Nossos jovens
não estão fora da escola por conta da
falta de vagas ou de transporte escolar, mas sim porque
a educação brasileira é muito ruim.
O problema não é financeiro. A educação
brasileira proporciona uma das mais altas taxas de retorno
do planeta. Segundo estudo recente de Fernando Barbosa
e Samuel Pessoa, a vantagem salarial de quem cursa o
ensino médio no Brasil é de 16% sobre
aqueles que só terminaram o fundamental. Multiplique
isso pelo salário de uma pessoa, mesmo um salário
mínimo, e pelo número de anos que ela
ficará no mercado de trabalho, e nota-se que
esse é um incentivo várias ordens de grandeza
superior aos R$ 30 que o Bolsa Família concederá
por mês. Apesar desse incentivo do mercado de
trabalho, nossos jovens abandonam as escolas. Porque
não aprendem nada, ou muito pouco. Quando a escola
consome tempo e não ensina, a relação
custo-benefício se inverte, e estudar deixa de
ser investimento para virar fardo. O impacto do Bolsa
Família deverá ser, portanto, marginal.
Nossos esforços deveriam estar focados na melhoria
da qualidade do ensino o que implica melhorar
a formação dos nossos professores e a
gestão das nossas escolas. Missões bem
mais difíceis e espinhosas do que o envio de
alguns reais para a família no fim do mês.
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| Segunda-feira, 17 de março
de 2008 |
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O derretimento dos mercados globais
Há quatro categorias epistemológicas: aquilo que você sabe que sabe, aquilo que você não sabe que sabe, aquilo que sabe que não sabe e aquilo que não sabe que não sabe. A atual crise financeira global é perigosa e tem sido devastadora porque se situa entre essas duas últimas categorias. A virtual falência da Bear Stearns, uma das mais antigas e aparentemente sólidas companhias de Wall Street, mostra que o tamanho do buraco é muito maior do que o imaginado. A essa altura, todos sabem que há uma grave crise gerada por hipotecas podres criadas no período do boom imobiliário americano. Todos também sabem que a verdadeira extensão dessa crise é desconhecida, por duas razões. Primeiro, porque se criou uma ciranda de "criatividade" nos mercados financeiros, em que essas hipotecas de alto risco foram "empacotadas" em outros produtos financeiros, ou usadas como garantias de outros empréstimos, tornando a sua verdadeira extensão difícil de detectar.
E, segundo, porque a crise se retroalimenta: a partir de um certo ponto, uma crise financeira se torna uma crise da economia real. Hoje você tem a inadimplência daquelas pessoas com hipotecas de baixa qualidade, o que era esperado. Com o pessimismo se alastrando, porém, vem o clássico "overshooting", o movimento de manada. Se houver uma desvalorização muito grande no mercado imobiliário como um todo e as pessoas virem o valor de suas residências evaporar, o impacto sobre o consumo é inevitável. Se mais bancos estiverem falidos ou em situação pré-falimentar, haverá falta de crédito no mercado, o que afeta a capacidade de investimento da economia. O governo americano continuará intervindo, no sentido de garantir liquidez, mas a atuação do Fed, até agora, tem servido mais para aumentar os medos do que para aplacá-los. A gestão Bernanke decidiu usar, desde esse início da crise, medidas heterodoxas – como essa garantia de 30 bilhões de dólares para a compra do Bear Stearns pelo JP Morgan. O problema é que essas medidas têm-se mostrado ineficazes, e seu insucesso transmite intranqüilidade aos mercados: se a artilharia pesada falhou, então para onde vamos?
Será interessante ver o que acontece com o Brasil. Uma queda acentuada na bolsa de valores é esperada. Há sinais de sobrevalorização nas performances da Bovespa dos últimos anos e, mesmo se não houvesse, é provável que uma fatia grande dos recursos estrangeiros que entraram na bolsa nos últimos tempos fuja nos momentos de crise, em busca de ativos menos arriscados. Em crises normais, teríamos também uma forte subida do dólar, causada por esse movimento de saída de capitais do país, o que tenderia a gerar inflação e aumento da taxa de juros. Nessa crise, que se origina nos EUA, há um movimento simultâneo de desvalorização do dólar. Não conheço suficientemente a dinâmica do mercado cambial para saber qual efeito prevalecerá, nem se haverá efeitos sobre a inflação brasileira. Mas uma coisa parece certa: o céu de brigadeiro no qual o atual governo desde sempre navegou acaba de ser tomado de nuvens carregadas até o horizonte. Turbulências virão.
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| Quinta-feira, 12 de março
de 2008 |
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Estupidez diplomática
Sinto muito pelos estudantes
brasileiros que têm sido barrados na Espanha.
É um erro crasso da política de imigração
espanhola. Como alguém que estudou e trabalhou
fora do país durante oito anos, conheço
bem as frustrações e humilhações
às quais os portadores do passaporte verde e
amarelo estão sujeitos pelos aeroportos do mundo.
A solução da diplomacia brasileira para
o problema, porém - de expulsar turistas espanhóis
do país, em represália - é apenas
a contraposição de um erro ao erro original.
E só na matemática é que dois negativos
dão um positivo.
Pode haver preconceito, ignorância e má-fé
de policiais de Barajas e de seus superiores, mas o
fato é que há uma diferença objetiva
entre os turistas espanhóis e os brasileiros:
muitos dos nossos compatriotas se utilizam da livre
entrada para turistas para residir ilegalmente em países
europeus, vários deles (certamente não
a maioria) praticando atividades ilegais, como a prostituição.
A entrada desregulada de turistas brasileiros na Espanha
pode, portanto, ser danosa ao país. O nosso caso
é o contrário: a probabilidade de imigração
ilegal de espanhóis é mínima e,
mesmo que acontecesse, tenderia a ser positiva para
o país. O espanhol médio tem maior renda
e maior instrução que o brasileiro, de
forma que o país se beneficiaria com a sua chegada.
(O que não quer dizer, antes que me escrevam
os profetas do óbvio, que aqueles de baixa instrução,
sem dinheiro ou que vêm fazer atividades ilegais
aqui não devam ser devidamente expulsos.) Caso
o turista venha aqui para fazer turismo, e não
emigrar o que é bem mais provável
só temos a ganhar com a entrada de moeda
forte e a geração de empregos no setor
do turismo. Em suma, o Brasil só perde controlando
a entrada de espanhóis, a Espanha tem uma boa
chance de ganhar ao limitar a entrada de brasileiros,
então a vigilância deles faz sentido, enquanto
que a nossa é uma patacoada.
Não sou partidário das manifestações
de nacionalismo que têm como único resultado
prejudicar o bem-estar dos próprios cidadãos
brasileiros. Não tenho o menor problema de reconhecer
que hoje a Espanha é um país superior
ao Brasil em indicadores econômicos e sociais.
Nem de notar que a solução para o fim
dos inconvenientes dos brasileiros honestos no exterior
é justamente a melhoria dos indicadores do próprio
país. Minha maior tristeza não é
de que não nos aceitem nos países desenvolvidos,
mas sim que estejamos numa situação tal
que faz mais sentido ser um expatriado, ilegal e prostituído
do que viver e construir o futuro no próprio
país.
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| Quinta-feira, 7 de março
de 2008 |
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João Victor e as faculdades
“caça-níqueis”
Ganhou
grande notoriedade, como era de se esperar, o caso do
menino de oito anos que foi aprovado em um vestibular
de direito da Unip de Goiânia. Sou forçado
a remar contra a maré e acreditar que não
há nenhum problema nisso.
Em primeiro lugar, porque é preciso concluir
o ensino médio para cursar o ensino superior.
Milhares de treineiros fazem o vestibular
todo ano, com o intuito de se preparar para o exame
verdadeiro. Foi isso que o menino fez. Faz sentido fazer
o teste com oito anos? Isso é para o menino e
seus pais decidirem. Eu não gostaria que o meu
filho dessa idade passasse por esse stress, mas temos
que diferenciar opiniões pessoais de questões
de Estado.
Mesmo que a faculdade fosse canalha o suficiente para
ignorar esse requisito e deixasse o menino cursar a
faculdade, ele ainda teria de ser aprovado pelo exame
da OAB para poder exercer a advocacia.
Nem se ele cursasse a faculdade, portanto, causaria
dano a alguém. Pelo contrário. Mesmo que
fosse reprovado pelo exame da Ordem e acabasse sendo
padeiro, toda a evidência empírica sugere
que seria um padeiro melhor com o canudo do que sem
ele. É claro que aos doze ou treze anos ele não
poderia, legalmente, (e nem deveria) trabalhar
quer como advogado ou padeiro. Só estou querendo
dizer que a aprovação do menino no vestibular
não causa prejuízo social algum. Não
deveria, portanto, ser assunto do MEC mas o Ministério
já declarou que vai investigar o caso, chegando
ao requinte de pedir a prova e a redação
do menino. Se as crianças de oito anos não
conseguem, depois de dois anos no sistema escolar, ler
e escrever como ocorre com a maioria de nosso
alunado isso não causa consternação
nenhuma. Se um menino da mesma idade, inteligente o
suficiente para já estar na quinta série,
é aprovado num concurso para pessoas de 17, aí
sim precisa ser investigado e punido. Estamos, como
país, com a cabeça no lugar errado.
Em tempo: se alguém
quiser saber do desempenho do curso de Direito da Unip
de Goiânia (ou de qualquer outro curso do país),
basta perder dois minutos, ir à página
do Inep na Internet, clicar no site do Enade,
e colocar lá os dados do curso a ser pesquisado.
O da Unip de Goiânia está lá. Existe
relatório do ano de 2006. Nele transparece que
a universidade não é exatamente uma Harvard,
mas não está, em suas deficiências,
longe da média nacional: o escore dos seus concluintes
é de 42 pontos (de 100 possíveis), contra
44,7 da média nacional. O importante a notar
é que a instituição ensina: os
ingressantes têm nota 29,5, os concluintes 42
uma melhoria de 42%, portanto. Superior à
média nacional, de 27%. Superior, também,
à média do mesmo curso de Direito, do
mesmo ano, da Universidade Federal de Goiás,
de 28%. Ficaria mais contente se o MEC devotasse suas
energias a melhorar esse desempenho até
porque os níqueis que a UFGO consome vêm
dos nossos bolsos.
P.S.
A tropa do cinismo voltou a atacar. Em resposta aos
e-mails presentes e, espero, evitando os futuros: não,
eu não estudei na Unip. Não sou acionista,
empregado, consultor. Não tenho nenhum vínculo
com a universidade, nunca tive, nem pretendo ter.
As pessoas que leram o post acima como uma manifestação
de que a Unip é uma excelente universidade, ou
melhor do que a UFGO, leram errado. O que quero dizer
é que a UNIP não é uma fábrica
de iludir incautos: seus alunos aprendem. E aprendem
bastante proporcionalmente, mais do que os alunos
da própria UFGO. De forma que o governo federal
não deveria fazer mais, a respeito da Unip, do
que já faz: monitorar sua qualidade e tornar
os resultados desse monitoramento públicos e
de fácil acesso. O resto fica por conta de cada
aluno e suas decisões. O MEC deveria gastar seu
tempo melhorando as suas próprias universidades,
na minha modesta opinião.
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| Quinta-feira, 5 de março de 2008 |
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Educação na pauta da CNI
Na introdução
do meu livro A Ignorância Custa um Mundo,
publicado em 2004, escrevi o seguinte: (...) a
educação (...) não é apenas
um direito do cidadão, mas um patrimônio
estratégico do país, uma ferramenta indispensável
ao seu desenvolvimento. Percebida a educação
não como um fim em si mesma, mas como uma alavanca
para o progresso do país, e entendidos os mecanismos
que regem e influenciam essa alavanca, nota-se que a
simples concessão de vagas em instituições
de ensino é não o final da relação
entre Estado e escola, mas apenas o seu começo.
Daí se abrem as inúmeras portas da percepção
que nos permitem vislumbrar o que, como e onde deve
ser feito para que a educação cumpra a
sua função e ajude o Brasil a cumprir
o seu destino.
A cada dia que passa, vejo que os dias de pregação
solitária no deserto vão se encerrando.
Agora é a Confederação Nacional
da Indústria, órgão máximo
do setor, que cria um Conselho Temático Permanente
de Educação, a ser presidido por Eduardo
Gouvêa Vieira, presidente da FIRJAN. Diz o texto
anunciando o seu nascimento: A criação
desse Conselho é resultado de um desdobramento
do Mapa Estratégico da Indústria 2007-2015,
que identifica na educação um dos pilares
essenciais para uma estratégia industrial voltada
para a competitividade e a inovação. A
CNI deseja somar a sua força institucional e
política às instituições
da sociedade civil engajadas com a melhoria da educação
do país.
Fiz um estudo para o MEC há alguns anos sobre
países de grande êxito educacional, e um
dos temas comuns a todos eles foi a proximidade entre
a estratégia educacional e as necessidades de
desenvolvimento do país. Quando os países
percebem que a educação é um elemento
fundamental nas suas possibilidades de crescimento,
a área costuma mudar de importância e os
bons resultados tendem a acontecer, porque há
cobrança social, que se transforma em mudanças
políticas.
Ainda estamos longe desse momento, até porque
o Brasil não tem um projeto de nação
de longo prazo. Mas estamos cada vez mais perto. Depois
de muito tempo de estagnação, cada passo
é um progresso. Já antevejo a reação
negativa dos sindicatos de professores blasfemando contra
a ingerência do capital sobre a nobre tarefa educacional.
Não percebem que o setor produtivo pode ser o
maior aliado na luta por uma educação
de qualidade. Não perdem uma oportunidade de
perder uma oportunidade.
Gaza pega fogo
O que se pode dizer a respeito do que vem acontecendo
em Gaza nos últimos dias? É trágico.
Nada justifica ou desculpa a morte de um civil inocente,
ainda mais de crianças. E sabemos que essas mortes
continuarão enquanto o Hamas continuar lançando
foguetes contra a população civil de Israel.
Quando eram foguetes caseiros caindo sem rumo sobre
a minúscula cidade de Sderot, perto da fronteira,
o dano era aceitável. Mas quando se trata de
foguetes iranianos caindo em Ashkelon, cidade de 108
.000 habitantes a 20 quilômetros de Gaza e apenas
46 de Tel Aviv, o revide é inevitável.
O que mais Israel poderia fazer? Gaza já foi
desocupada pelo exército israelense, não
há mais nenhum território em disputa lá,
os lançamentos de foguete são uma agressão
gratuita de um grupo terrorista contra um Estado soberano.
Quais são as opções? Uma reocupação?
Operações de assassinato seletivo? Nenhuma
delas é boa, todas envolverão mortes de
inocentes. O Hamas foi democraticamente eleito pela
população palestina. Qualquer tentativa
estrangeira de depô-lo é ilegítima,
por mais desejada que seja. Só o povo palestino
pode mudar o seu destino. Mas cada morto em Gaza apenas
reforça o Hamas. Estamos de volta ao ciclo infindável
da violência. Não há luz no fim
do túnel.
O experimento falhou
Prometi aos leitores, na nota de 22/2, que realizaria
um experimento para verificar se a devolução
de um livro esquecido em avião era obra do desinteresse
pela obra ou resultado da honestidade e eficiência
operacional da companhia aérea. Antes de embarcar
no último vôo, me dirigi à livraria
do aeroporto de Congonhas e perguntei qual era o best-seller
mais barato. Era O Monge e o Executivo,
de James Hunter. Bateu uma resistência a contribuir
para que obras do gênero continuem se tornando
best-sellers, mas desembolsei os R$ 19,90 que a obra
pedia pelo amor à ciência. Entrei no avião
e deixei o livro no bolso da poltrona, como da outra
vez. Não é que no desembarque, a enxerida
sentada no corredor ao meu lado não deu uma olhada
dentro do bolso e me veio com um esse livro não
é seu?. Cruel momento: ou reconhecia em
público a posso do dito cujo ou malograva o meu
experimento. Tudo pela ciência. Tentei de novo
no vôo de volta, mas era da Gol. Tive de despachar
a maleta que continha o livro. Ainda não descobri
qual o peso autorizado por essa companhia aérea
em seus aviões suspeito que uma caixa
de chicletes seja permitida, não sei.
O livro está aqui
comigo. Não me arrisco a lê-lo; meu seguro
saúde não cobre esse tipo de risco. Na
próxima viagem ele vai, prometo.
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| Quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008 |
| | | Nota Ainda
aviação Reportagem do jornal Folha de São Paulo
deste sábado informa que o dono da Jet Blue uma das mais exitosas
companhias aéreas low-cost americanas pretende se instalar
no Brasil. Diz a matéria: As negociações estão
adiantadas. Neeleman [fundador da Jet Blue] conta com a simpatia do governo, que
é favorável à criação de uma empresa capaz
de rivalizar com o duopólio de Gol e TAM na aviação civil.
Não é fantástico? O mesmo governo que criou o duopólio
agora procura um concorrente para enfrentá -lo. A mesma reportagem
indica que a Jet Blue pretende usar aviões da Embraer as nossas
empresas, nacionais, só usam aviões Boeing (americano), Airbus (europeu)
ou Fokker (aquela empresa holandesa que quebrou há uns dez anos e cujos
aviões estão caindo de maduro). Sabe o que é ainda mais fantástico?
O tal de Neeleman só poderá levar adiante o seu projeto de criar
uma companhia de baixo custo para brasileiros, usando aviões brasileiros
porque, por coincidência, nasceu em São Paulo, onde o pai americano
trabalhou como correspondente de agência de notícias. Porque a legislação
brasileira estipula que estrangeiros podem ter apenas 20% de participação
em companhia aérea brasileira. Ainda bem que está aí a nossa
magnífica legislação para nos salvaguardar dos perigos da
dominação externa e garantir que só seremos espoliados por
nossos próprios compatriotas. | | |
| Segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008 |
| | | Nota Salário
de professores Reportagem
da Folha de S. Paulo de segunda-feira trouxe dados sobre o aumento salarial
de professores. Estudo do Inep indica que os salários dos professores do
setor público aumentou 39% entre 2003 e 2006, contra 17% da inflação
do período. Um ganho real de 22% em três anos, portanto. Outro
trabalho de pesquisadora da FGV aponta que de 1995 a 2006 os ganhos salariais
de professores da rede pública foram maiores que os da rede privada e o
de outras categorias de trabalho. São mais informações
que só vêm ratificar aquilo que a literatura empírica já
aponta há bastante tempo: não há relação estatisticamente
significativa entre os salários de professores e o aprendizado dos alunos.
No período estudado, a qualidade da educação brasileira só
caiu. Todos nós adoraríamos dar mais dinheiro aos professores
especialmente aos bons professores. Mas, se estamos preocupados com a aprendizagem
dos alunos, fica patente que há melhores estratégias do que essa.
Insistimos na idéia de que melhores salários gerarão melhor
qualidade há mais de dez anos, desde pelo menos a criação
do Fundef. Quanto tempo e quanto dinheiro adicional será
gasto até que optemos por outros caminhos? Precisamos melhorar a
formação dos professores, o gerenciamento das escolas e as práticas
dos professores dentro de sala de aula. Enquanto ficarmos no quantitativo
mais salário, mais computadores, mais merenda, mais transporte etc.
continuaremos patinando. | | |
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