Sob pressão, a Fifa se defende e Aldo provoca a imprensa

Valcke listou despesas multimilionárias da entidade no país para mostrar que Copa não traz lucro só a ela. Ministro reclamou de cobertura crítica do evento

“Estamos fazendo muitas coisas boas. Pode não ser o suficiente, mas não tenho vergonha do que estamos fazendo aqui. Não sei por que é tão difícil as pessoas entenderem como a Fifa trabalha”, disse Valcke

Colocados numa situação espinhosa por causa das críticas aos gastos com o Mundial de 2014 durante as manifestações que se espalham pelo país, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, e o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, adotaram posturas distintas na hora de comentar o assunto, nesta segunda-feira, numa entrevista coletiva para avaliar a primeira semana da Copa das Confederações. Enquanto Valcke optou pela defesa, explicando como a Fifa reinveste o dinheiro obtido com o evento e assegurando que não existe hipótese de o Brasil deixar de ser o país-sede no ano que vem, Aldo partiu para o ataque – como já virou costume entre os subordinados da presidente Dilma Rousseff, culpando a imprensa pela contestação popular dos investimentos públicos no Mundial. O principal executivo do Comitê Organizador Local (COL), Ricardo Trade, também participou da entrevista e fez uma avaliação extremamente positiva do evento até agora – deixando de lado, aliás, a insatisfação manifestada por algumas seleções, principalmente em relação às dificuldades encontradas no Recife. “As equipes estão satisfeitas, correu tudo bem com hotéis e locais de treinamento”, insistiu o dirigente.

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Logo no início da entrevista, o diretor de comunicações da Fifa, Walter De Gregorio, lamentou ter de tratar de um assunto que foge ao controle da entidade. “Se não falarmos nada sobre os protestos, vão dizer que a Fifa só se importa com futebol. Se falarmos demais, vão reclamar que estamos nos intrometendo em assuntos exclusivos dos brasileiros”, disse o porta-voz. “Nossa posição é e sempre será a de aceitar as regras democráticas e as manifestações, desde que não elas sejam violentas. Mas não nos compete comentar sobre o mérito delas”, completou ele, destacando que “pelo lado esportivo, o torneio foi fantástico até agora”. Valcke também comemorou os “números fantásticos” da Copa das Confederações, como a ótima média de gols (mesmo nas partidas que não contaram com a presença do frágil Taiti) e a audiência televisiva “espetacular” dos jogos. Mas sua maior preocupação era tentar dissipar a impressão de que a Fifa pode sair como vilã deste ensaio geral para 2014. “Muitos dizem que a gente vem para cá, tomamos proveito do país e vamos embora, sem pagar impostos nem deixar nada de bom, mas isso não é verdade”, afirmou ele.

‘Não tenho vergonha’ – O cartola francês citou os milhares de empregos criados pelo evento em setores como alimentação e hospitalidade, além dos 32 milhões de reais gastos pela Fifa em diárias nos hotéis brasileiros (no ano que vem, serão 448 milhões de reais em despesas no setor). “Trazemos muito dinheiro ao país que recebe a Copa do Mundo”, explicou. “Somos uma empresa, ganhamos dinheiro também, mas nosso objetivo não é o lucro, é a promoção do futebol pelo mundo, através de uma série de projetos e iniciativas. Estamos fazendo muitas coisas boas. Pode não ser o suficiente, mas não tenho vergonha do que estamos fazendo aqui. Não sei por que é tão difícil as pessoas entenderem como a Fifa trabalha.” O secretário-geral ainda minimizou a preocupação com a segurança dos envolvidos no evento – disse que o esquema, mesmo depois dos protestos, é “exatamente igual” ao que foi adotado na África do Sul – e que “nada vai colocar em risco a organização da Copa no Brasil”. “Não há plano B. Além disso, não recebi nenhuma oferta de nenhum outro país para receber o Mundial. O que aprendemos neste mês certamente servirá para 2014, inclusive em relação à segurança.”

Acompanhado de seu braço-direito no Ministério, o secretário-executivo Luís Fernandes, Aldo Rebelo fez uma longa apresentação das cifras investidas no país por causa da Copa, destacando principalmente gastos em infraestrutura. “É evidente que esses eventos não são disputados por tantos países por acaso”, afirmou, dizendo não ter dúvidas de que um impacto positivo será sentido na vida das pessoas – ainda que muitos dos projetos incluídos na Matriz de Responsabilidades de obras ligadas à Copa ainda não tenha saído do papel. Fernandes disse que a Copa é “uma oportunidade histórica para promover o desenvolvimento do país” e que os gastos ligados ao evento não significam que faltará dinheiro para a saúde e educação públicas. “É muito importante que a mídia nos ajude a transmitir essas informações”, pediu o secretário, aparentando insatisfação com as reportagens que questionam o acerto dos investimentos com estádios e outras ações para 2014. Aldo também reclamou da imprensa: “Os meios de comunicação tiveram uma inclinação pelo olhar crítico, não pelos benefícios da Copa”. Diante do questionamento de um jornalista sobre o financiamento federal para obras em estádios, o ministro, normalmente de fala macia e tranquila, chegou a elevar o tom e provocar: disse que a imprensa também é financiada pelos governos, já que empresas e bancos estatais anunciam nos meios de comunicação.

Copa das Confederações

Copa das Confederações (VEJA)