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Sangue, suor e lágrimas

Será que a Copa vale mais para quem vive longe da Europa?

O pedido de demissão do técnico Cesare Prandelli e do presidente da Federação Italiana, Giancarlo Abete, imediatamente após a derrota para o Uruguai por 1 a 0 – que eliminou a Azzurra -, foi um fato em si tão chocante que passou quase despercebida uma tentativa de explicação do treinador para o que aconteceu com a Itália – e, por tabela, o que ocorreu com outras duas seleções europeias nesta primeira fase do Mundial no Brasil.

Prandelli sugeriu que os jogadores italianos não tiveram o mesmo ímpeto que os latino-americanos quando partem para o ataque. Aquele arranque, aquela vontade de vencer a qualquer preço. E isso talvez explicasse o fato de a Itália ter se saído tão bem na estreia, contra a Inglaterra, e depois naufragado diante da Costa Rica e do Uruguai. Prandelli estava desapontado, transtornado até, e não creio que essa pensata seja algo muito elaborado por ele, fruto de uma reflexão mais profunda. Mas ele fez questão de dizê-la.

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A entrevista coletiva virou uma sessão de terapia com os jornalistas italianos, para tentar entender as causas do fracasso. Prandelli inseriu desabafos em suas respostas. O treinador falou de como a expulsão de Marchisio tinha sido decisiva para o resultado do jogo, mas também desandou a dizer que o futebol italiano precisa de uma profunda reformulação, que há muitos jogadores estrangeiros travando o desenvolvimento de craques locais etc.

De fato, houve duas Itálias neste Mundial. Na partida contra a Inglaterra, a Azzurra se impôs de maneira categórica. Foi um jogão, os ingleses tiveram seus momentos, mas via-se claramente que a Itália tinha mais time. Ao fim do jogo, ficou a sensação de que havíamos visto ali na Arena da Amazônia uma seleção candidata ao título. Depois, vieram dois desempenhos num padrão bem abaixo e o consequente fiasco.

Certo é que estamos vendo nesta Copa uma performance positiva dos latino-americanos e uma decepção em relação a grandes europeus – asiáticos e africanos no papel de coadjuvantes não são surpresa nenhuma. Há o clima predominantemente quente na maioria das sedes, que atrapalha os jogadores de países mais frios. Há a torcida, que veio em peso ao “vizinho” Brasil mesmo para dormir no carro – para os europeus, fica muito mais longe e mais caro. Isso colabora, mas não me parece decisivo.

Vamos pegar as três campeãs mundiais europeias eliminadas precocemente – e dispensemos o quase eliminado Portugal porque é apenas um time ruim com um craque fantástico. O Chile engoliu a Espanha, o Uruguai venceu a Inglaterra e a Itália. A Costa Rica subjugou os italianos e, já classificada, empatou com os ingleses. Quem viu esses jogos notou posturas diferentes em campo. Os latinos mostraram mais garra. E estamos vendo esse sangue nos olhos também em mexicanos, argentinos, brasileiros, colombianos.

Será que a Copa vale mais para quem vive longe da Europa? Vimos choro em classificados e em eliminados. Emoção à flor da pele. Mas onde estão as lágrimas de Rooney, de Pirlo, de Sergio Ramos? Villa chorou, sim, mas porque aquele jogo para cumprir tabela era seu último pela seleção. Só vi essa turma com aquela tristeza “profissional”, digamos assim.

O.k., mas, dos grandes, sobram França, Holanda e Alemanha, que seguem convincentes. Não está faltando vontade para essas três seleções. Elas derrubam um pouco a tese de Prandelli. A França e a Holanda têm forte aspecto multicultural – mais que a Alemanha, embora esta não seja tão germânica quanto antes – vide Boateng. Isso ajudaria contra esse ar supostamente blasé do trio Itália-Espanha-Inglaterra?

Generalizações são sempre lamacentas, falar de Europa como algo único é o mesmo que fazer isso com qualquer outro continente. Particularmente, acho que todo jogador, de qualquer país, daria a vida para ganhar uma Copa do Mundo. Vamos seguir observando este Mundial, que anda tão interessante. A tese de Prandelli gera uma deliciosa discussão para nossas mesas de bar – mesmo que, depois da saideira, a gente a considere totalmente furada.

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