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‘Questionado, porém feliz’, Júlio César rebate seus críticos

O goleiro titular da seleção agradeceu a Felipão pela confiança mesmo após a mudança para a liga dos EUA: 'Falaram até que estava jogando com o Mickey'

“Ser titular por duas Copas seguidas é um privilégio e espero me juntar ao grupo de Gilmar, Tafffarel e dos outros campeões”

Os três goleiros da seleção brasileira, Júlio César, Jefferson e Victor, foram os primeiros atletas a encarar o frio no gramado da Granja Comary, na manhã desta terça-feira – e também os microfones da sala de imprensa, em Teresópolis, à tarde. Homem de confiança do técnico Luiz Felipe Scolari, Júlio César foi o mais assediado e demonstrou certo incômodo ao responder sobre seu atual momento. Jogando pelo modesto Toronto FC, do Canadá, desde o início do ano, Júlio admitiu chegar ao Mundial sob desconfiança, mas garantiu estar preparado para disputar sua segunda Copa como titular. “Estou muito melhor do que quatro anos atrás. Chego questionado, mas muito feliz.”

Júlio César admitiu sofrer com as críticas ao seu trabalho, sobretudo por sua escolha de jogar na liga americana, para pegar ritmo de jogo. “É complicado trabalhar psicologicamente com isso, não vou mentir. Falaram até que eu estava jogando com o Mickey e o Pato Donald. Mas eu tento tirar o que serve pra mim.” Depois de falhar na eliminação do último Mundial, contra a Holanda, Júlio César sabe que terá de encarar grande pressão por defender a meta do Brasil em casa. Ao falar sobre o caso de Barbosa, goleiro apontado como o vilão da perda do título de 1950, no Maracanã, Júlio desconversou. “Jogamos em uma posição ingrata. Aconteceu com ele como poderia ter acontecido com qualquer um.”

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Pressão: “Não me sinto pressionado. Chego realmente bastante questionado, por coisas que venho acompanhando, até quando não quero acompanhar, pois as notícias chegam para mim. Mas tenho que acreditar no meu trabalho, sei quanto posso somar, e acho que a Copa das confederações trouxe uma confiança muito grande, foi muito bom tudo aquilo que aconteceu comigo. Pressão é algo normal, mas vou realizar um grande sonho, pode ser minha última Copa e espero ganhar, mas não para pagar divida com torcedor e sim para realizar um sonho meu e da minha família.”

Lições de 2010: “Sou um profissional melhor, mais focado. Porque quando as coisas acontecem positivamente, você acaba relaxando um pouco. E eu cheguei muito confiante para a Copa de 2010, depois de tudo que conquistei com a Inter de Milão. E, às vezes, a autoconfiança atrapalha. Hoje estou me sentindo 100% pra jogar essa Copa, porque minha preparação no Toronto foi maravilhosa. Não perdi nada, só melhorei. O Thiago Silva me lembrou de uma coisa muito legal, que aconteceu após a eliminação para a Holanda. Ele me lembrou que eu liguei pra minha mãe no jantar e disse que ganharia a Copa seguinte, em casa. Fiquei muito abalado com aquela derrota, mas nunca desisti.”

Críticas: “Quando elas vêm, você tem que fazer igual laranja: espremer e separar o que é bom e o que é ruim. É isso que eu faço quando escuto críticas a mim e ao Felipão por ter me convocado. E é complicado trabalhar psicologicamente com isso, não vou mentir. Mas eu tento tirar o que serve pra mim. Falaram até que eu estava jogando com o Mickey e o Pato Donald. Mas a média de público da liga americana já até superou a média dos campeonatos brasileiros. E acho que os jornalistas tem que pesquisar antes de falar alguma coisa, porque a liga americana tem uma organização enorme, é uma liga que merece respeito.”

Toronto FC: “A preparação foi excelente, porque encontrei um clube estruturado. E, na parte técnica, minha posição não muda muito: eu estou ali pra agarrar. Eu joguei sete partidas e tomei nove gols, o que inclusive me deixou muito chateado, porque queria ter deixado meu time nos playoffs. Mas para goleiro não faz diferença, o escanteio é igual, o pênalti é igual. Meu treinador de goleiro era excelente, um dos melhores que eu já tive, inclusive. Treinei bem, estou focado e me sinto muito preparado para esta Copa.”

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A fase atual: “Chego muito melhor do que quatro anos atrás, apesar de ter chegado à Copa de 2010 com status de melhor goleiro do mundo. O que aconteceu na África do Sul não tem nada a ver, na hora da adversidade a gente tem que tirar coisas de positivo. Depois da Copa, eu não enfrentei só a derrota pra Holanda, tive problemas na Inter, no Queens Park Rangers. Chego bastante questionado, mas feliz, principalmente pelo fato de jogar uma Copa do Mundo no Brasil.”

O dono da posição: “Sendo bem sincero, eu não me sinto titular, apesar da confiança do Felipão e do Parreira. Estou ao lado de dois grandíssimos goleiros que têm condições de ser titulares. Claro que eu largo na frente pelo fato de ter sido campeão da Copa das Confederações, ter pegado pênalti, ter sido melhor goleiro da competição, mas um ano já se passou, isso faz parte do passado. Ser titular por duas Copas seguidas é um privilégio e espero me juntar ao grupo de Gilmar, Tafffarel e dos outros campeões.”

Barbosa e 1950: “Eu já conversei com o Jefferson sobre essa situação. Não tem uma entrevista que a gente faça que não perguntem sobre isso. Aconteceu algo muito forte em relação a isso, mas nós jogamos em uma posição ingrata, e eu falo por experiência própria. Nunca falamos em homenagem ao Barbosa, mas não teria porque não fazer, caso tenhamos oportunidade. O Barbosa foi um goleiro que jogou uma Copa no Brasil e, só por isso, dá pra saber que se trata de um goleiro formidável. Aconteceu um erro com ele, como pode acontecer com qualquer um.”

Adversário das oitavas: “O Chile joga no continente e tem grandes chances, porque é uma seleção que vem fazendo um grande trabalho. Mas Holanda e Espanha fizeram a final em 2010. Na verdade, nós temos que fazer nosso trabalho e encarar qualquer um, porque temos uma seleção apontada como uma das favoritas.”

Apoio da comissão: “O dia-a-dia com eles, o otimismo que o Felipão e o Parreira passam, isso conta muito. A gente entra em campo com uma força muito grande, até pela experiência enorme que eles obtiveram em várias Copas, o apoio deles é a coisa mais importante pra nós. Para a Copa de 2010, nós jogamos as Eliminatórias e tivemos mais tempo para criar um grupo. Por isso que muitas pessoas falam da união daquele grupo, mas esse time atual conseguiu a mesma coisa em bem menos tempo. A chegada de Felipão e do Parreira fez com que esse grupo entendesse o mais cedo possível a questão de respeito ao companheiro. São 23 feras querendo jogar, ser protagonistas. Mas a comissão técnica soube administrar isso em um curto período de tempo.”

Alegria do grupo: “Marcelo e Fred são incríveis, estão sempre alegrando o ambiente, botando o clima para cima, o que tira um pouco da pressão e acho que esses dois têm um papel fundamental nesse aspecto.”

Brazuca: “Não fui só eu que reclamei da Jabulani em 2010. Vários goleiros, jogadores de linha e até o Maradona reclamaram da bola. Mas a Brazuca é boa. Jogando na liga americana, eu já vinha treinando e jogando com ela, o que me ajuda bastante. Hoje já tivemos contato com ela, e acho que os jogadores de linha também vão gostar.”

Ataque: “A gente agradece aos elogios do Pelé à nossa defesa, mas se eu puder discordar dele, acho que o ponto forte desse time é o equilíbrio. Vejo um ataque muito forte, com jogadores brilhantes, no banco também. E hoje a gente tem o Neymar, que, para mim, é um dos três melhores do mundo. É um moleque formidável, que vai se divertir e fazer uma ótima Copa.”

Liderança: “A coisa dos quatro capitães foi uma escolha do Felipão: ele gosta de trabalhar com os mais jovens, mas temos líderes também. A situação dos capitães é mais para resolver questões internas, quando o treinador chama os quatro. Mas todos têm um respeito internacional muito grande, todos falam e todos escutam, independentemente da idade.”