Pelé questiona Messi e desconfia da seleção de Felipão

Para ele, excesso de pressão sobre Neymar pode prejudicar o caminho da equipe na Copa

Em dez fotografias, o mesmo número de sua lendária camisa, o maior jogador da história do futebol empreende para VEJA um passeio pela memória dos melhores anos da seleção brasileira, quando, em quatro Copas, de 1958 a 1970, a equipe de camisa amarela conquistou três títulos mundiais e se inscreveu na galeria dos grandes mitos esportivos de todos os tempos. Pelé, o único jogador presente em todas aquelas batalhas e o maior símbolo de um Brasil vencedor, revela otimismo moderado sobre as chances de sucesso da equipe de Luiz Felipe Scolari.

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Pelé chega à sala de seu apartamento em São Paulo andando com a mesma dificuldade que exibiu ao receber da Fifa a Bola de Ouro honorária, em janeiro. Tem sido assim desde que se submeteu a uma cirurgia para a implantação de uma prótese no quadril, em novembro de 2012, a fim de vencer a dor que sentia na cabeça do fêmur direito. As sessões de acupuntura e musculação são constantes, mas a perna direita não responde como deveria. Subir escadas é uma luta. “Quando eu jogava, em dois meses estava recuperado”, ele costuma brincar com os médicos, como se ainda tivesse 20 anos. Tem 73.

A cena do rei do futebol claudicante como um leão ferido lembra duas de suas fotos mais famosas, as das contusões de 1962 e 1966, parte da galeria de dez imagens que ele revisita para VEJA, fazendo uma viagem emocional por sua trajetória na seleção entre 1958 e 1970 – os anos que tornaram a camisa verde e amarela sinônimo do melhor futebol do planeta, mistura de arte, força, habilidade, invenção e competitividade. Um tempo que o mundo relembra como mítico e que talvez só os torcedores mais insensatos imaginem poder reviver na Copa de 2014, nos pés da geração do talentoso Neymar. Em poucas palavras: a era Pelé.

GUIA DA COPA - PELE 02

GUIA DA COPA – PELE 02 (VEJA)

​O Brasil que chega manco à Copa não é o do futebol: é o da esfera político-administrativa, que Pelé criticou em entrevista ao jornal alemão Bild, a três semanas da estreia, qualificando o atraso nos preparativos como “vergonha”. Mas ele modera o otimismo ao falar das chances do hexacampeonato em casa. “É a primeira vez que a seleção está muito bem na defesa, mas com dificuldade no ataque”, diz. “Sempre tivemos excesso de bons atacantes. Em 1970, diziam que não ia dar certo porque quase todo mundo do meio para a frente era camisa 10 em seus clubes. Depois vieram Zico, Sócrates, Romário….” As contusões sofridas por Neymar neste ano o preocupam, mas não mais do que o fato de o craque revelado no Santos ser uma estrela solitária: “É uma temeridade botar no Neymar a responsabilidade de ganhar o título em sua primeira Copa”.

Campeão em seu primeiro Mundial, quando tinha 17 anos, Pelé garante que não se sentiu cobrado: “Foi tudo muito rápido, um sonho”. O peso de ser a estrela da companhia veio depois, à medida que as atuações de gala no Santos e na seleção consolidavam seu nome como marca de alcance mundial. Uma marca tão poderosa que o próprio homem que a encarnava, o mineiro Edson, passou a se referir ao supercraque na terceira pessoa. “O Pelé tinha uma impulsão danada”, afirma, olhos brilhando, diante da foto de seu gol de cabeça contra a Itália na final de 1970, o primeiro da vitória de 4 a 1 que deu ao Brasil o tricampeonato. “O pessoal esquece porque na época não havia televisão.”

Trata-se de uma meia verdade. A transformação de Pelé num fenômeno provavelmente insuperável – o homem que, em vez de quinze minutos, terá “quinze séculos de fama”, segundo Andy Warhol – deve-se tanto ao seu gênio quanto à difusão cada vez maior do futebol via TV e às lutas pelos direitos civis dos negros que a sociedade americana exportava para o mundo, processos amadurecidos junto com sua carreira. “Mas naquela época apagavam os videoteipes, gravavam por cima”, lamenta. O que não havia mesmo nos anos 1960 era a cobertura exaustiva dos últimos tempos, à qual ele atribui as contestações à sua majestade.

É evidente que as comparações que o perseguem há décadas – em especial com Maradona, mas hoje também com Messi – machucam o Rei. Sobretudo quando partem de seus compatriotas, numa rejeição que parece ter menos a ver com futebol do que com o espírito naturalmente conciliador e o conservadorismo que marcam suas atuações fora de campo. Sem que o interlocutor toque no assunto, o único jogador a ganhar três Copas do Mundo e a marcar 1 283 gols se defende: “Sou brasileiro! Maradona e Messi só chutam de esquerda”.

É desnecessário recorrer ao patriotismo. Antes de morrer, em 2006, o húngaro Ferenc Puskas, líder da lendária seleção húngara de 1954, teve tempo de votar no melhor jogador da história. Escolheu o argentino Di Stéfano e explicou: “Recuso-me a classificar Pelé como jogador. Ele estava acima disso”. Símbolo maior de um Brasil que dá certo, o Rei ainda é o antídoto mais eficaz contra o constrangimento nacional com as trapalhadas da organização da Copa.

SUÉCIA, 1958

GUIA DA COPA - PELE 03

GUIA DA COPA – PELE 03 (VEJA)

Quando marquei o último gol da final contra a Suécia, fiquei zonzo do choque de cabeça com o beque. Como o juiz apitou o fim do jogo, pensei: ‘Vou ficar um pouco por aqui’. Aí veio o Garrincha me levantar, e eu não parei mais de chorar. Só pensava uma coisa: será que a minha família sabia que éramos campeões? Na época não tinha televisão, telefonar era difícil. Hoje o cara mete um gol e diz: ‘Beijo, mãe!’. Só no dia seguinte eu falei com meus pais pelo rádio. Sempre me perguntam como, aos 17 anos, eu aguentei a pressão, a responsabilidade de ganhar a Copa. Mas a responsabilidade era do Didi, do Vavá, do Gilmar… Aquilo para mim foi um sonho. Agradecia a Deus por estar lá.

CHILE, 1962

GUIA DA COPA - PELE 05

GUIA DA COPA – PELE 05 (VEJA)

É engraçado. Claro que 1962 foi um momento pessoal triste: eu tinha feito um gol no primeiro jogo contra o México, mas senti uma distensão na coxa na partida seguinte, contra a Checoslováquia. Não esperava ficar fora até a final da Copa, mas fiquei. Nessa foto estou na arquibancada torcendo porque, como não estava inscrito, não podia ficar no banco. Mesmo com o carinho dos torcedores chilenos, eu tinha a certeza de que, se estivesse jogando, não sofreria tanto. Mas, graças a Deus, fomos campeões, então compensou tudo, né? A compensação foi melhor ainda porque a alegria foi para todos os jogadores e toda a nação. Triste mesmo foi quatro anos depois.

INGLATERRA, 1966

GUIA DA COPA - PELE 06

GUIA DA COPA – PELE 06 (VEJA)

Chegamos à Inglaterra em clima de ‘já ganhou’. A preparação foi uma loucura, montaram três times com reservas e tudo, toda hora a equipe mudava. Uma seleção bicampeã não precisava de tantos testes.

GUIA DA COPA - PELE 07

GUIA DA COPA – PELE 07 (VEJA)

Aqui eu apareço treinando no gol, como sempre gostei de fazer, e lembro que nos dias de preparação nós, os jogadores, conversávamos sobre a importância, em termos de moral, de ganhar a Copa no país onde o futebol nasceu. Infelizmente perdemos para Portugal, eu me contundi no meio do jogo e só continuei em campo porque não havia substituição. No avião comecei a orar e decidi me despedir da seleção. Eu tinha jogado três Copas e sido campeão em duas. Pensei: ‘Está bom, né?’. Aquela foi pesada para caramba. A contusão era séria, nos ligamentos do joelho direito, e fiquei seis meses sem jogar no Santos. Nunca tinha ficado tanto tempo fora. Mas aí fiquei bom, o time começou a ir bem em 1968, 69, e veio a cosquinha: e se eu jogasse só mais uma?

GUIA DA COPA - PELE 09

GUIA DA COPA – PELE 09 (VEJA)

MÉXICO, 1970

Eu fiz mais de 1 000 gols, e as pessoas adoram lembrar gols que eu não fiz. Não é justo! Esse do drible no Mazurkiewicz contra o Uruguai é um dos mais famosos, pena que não saiu o gol. O que impressiona todo mundo, eu acho, é a rapidez do raciocínio. Ele vinha para me fazer foul, me agarrar, então eu larguei a bola e saí dele. No momento dessa foto ele tenta voltar para o gol, e foi por isso que me precipitei um pouco: eu ainda tinha um segundinho ali para bater certo, mas achei que ele ia chegar e por isso toquei rápido, e errei. Quase bateu na trave.

GUIA DA COPA - PELE 08

GUIA DA COPA – PELE 08 (VEJA)

Esse gesto que ficou famoso, do soco no ar, aqui em nossa estreia na Copa, contra a Checoslováquia, que vencemos por 4 a 1, eu já vinha fazendo desde o tempo do Santos e surgiu de modo espontâneo, como um desabafo. Eu nunca tinha visto ninguém fazer aquilo. Depois disso, muitos outros jogadores passaram a dar socos no ar e alguns começaram a inventar, a mudar um pouco, dar de baixo para cima, para não dizerem que estavam me imitando. Acabou virando uma marca minha, principalmente por causa do sucesso dessa foto, mais ou menos como aconteceu com a bicicleta por causa de uma foto tirada no Maracanã. A diferença é que a bicicleta, todo mundo sabe, era coisa do Leônidas, e o soco é meu mesmo.

GUIA DA COPA - PELE 10

GUIA DA COPA – PELE 10 (VEJA)

MÉXICO, 1970

O Pelé tinha uma impulsão danada, rapaz. Subia para caramba. O beque esticava a mão e não alcançava, o goleiro também não. Esse gol na final de 1970 contra a Itália é um dos que mostram isso. Seu Dondinho, meu pai, era um expert no assunto: o recorde dele de cinco gols de cabeça num jogo o Pelé nunca bateu. Ele me ensinou a subir, a dar um segundo impulso quando o corpo está lá em cima, e também a não fechar os olhos. Em todas as comparações que fazem do Pelé com outros jogadores, Maradona, Messi, Zidane, Cruyff, sempre existe uma coisa ou outra que dá para diferenciar. A impulsão é uma delas.

GUIA DA COPA - PELE 11

GUIA DA COPA – PELE 11 (VEJA)

Aqui os mexicanos me deixam só de calção, depois que recebemos a taça e fomos dar a volta olímpica. Isso era comum. Não havia alambrados, e nas filmagens que existem do Santos em torneios na Espanha ou na Itália, por exemplo, acaba o jogo e todo mundo entra em campo. Aquele foi o grande presente de Deus, e agradeço até hoje ter decidido encerrar ali minha carreira na seleção. Tinha ensaiado em 1966, mas daquela maneira, ganhando a Copa e sendo considerado o melhor jogador, foi como o meu pai dizia: ‘Quando for parar, que seja no melhor momento, porque senão logo vão te pôr para fora’. Parar ali foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.