Os craques que carregaram o peso de um país nas costas

Antes de Neymar, outros astros chegaram para a Copa sob enorme pressão

A poucas semanas do início da Copa do Mundo, todos os olhares estão voltados para Neymar, que chegará ao torneio como a grande esperança da torcida brasileira. Nas edições anteriores da Copa, outros astros da bola estiveram na mesma situação. Em alguns casos (como Pelé no México-1970), eles deram a volta por cima apesar de algumas dúvidas sobre seu desempenho; em outros (como Ronaldinho Gaúcho na Alemanha-2006), a expectativa do público acabou não se confirmando. Um Mundial é um desafio monumental para todos os atletas convocados para disputar a competição. Para os astros da seleção brasileira, entretanto, a disputa de uma Copa transforma-se num teste de fogo – e disputar o torneio carregando o peso de um país todo sobre os ombros certamente não é para qualquer um.

Em abril de 1970, por incrível que pareça, havia dúvidas sobre o desempenho de Pelé no Mundial do México, que seria disputado meses depois. Uma reportagem de VEJA tratava da preocupação com a forma física do craque, que sempre teve um vigor invejável

Quando todo o estádio prendeu a respiração, antevendo um lance magistral, Pelé tropeçou na bola e acabou perdendo a jogada. Interpretando o desencanto da torcida, o locutor berra impetuosamente, agarrado ao microfone: “É, torcida, Pelé já não é mais o mesmo”. Será verdade? Pelé, sobre cujos olhos se lançou a dúvida da miopia, não tem jogado como nos seus melhores tempos. Mas para isso há explicações. A primeira: está com 76 quilos, dois acima do seu peso normal. “Não se afobem. A seleção tem um programa de preparação, segundo o qual só no México é que atingiremos o ponto ideal. Estamos apenas começando.”

Em VEJA de 1/4/1970: A verdade de Pelé

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Enquanto a torcida brasileira esperava pela Copa do Mundo de 1982, na Espanha, Zico, o camisa 10 da equipe de Telê Santana, tentava lidar com a pressão de ser o principal atleta da equipe. Em reportagem de VEJA em março daquele ano, o craque admitia sua responsabilidade no Mundial.

Que Zico é o maior jogador do Brasil ninguém mais duvida – nem mesmo Sócrates, do Corinthians, reconhecidamente o único que poderia fazer-lhe sombra de forma direta. “Isso não se discute: o melhor jogador do Brasil é Zico”, encerra Sócrates. E já ficaram definitivamente para trás alguns fantasmas e preconceitos que assombraram a carreira de Zico. Ele chega ao limiar da Copa do Mundo com uma unanimidade nacional semelhante à ostentada por Pelé. “Mas não há termo de comparação entre Zico e Pelé”, ressalva o camisa 10 do Flamengo. As estatísticas sugerem que mesmo o grande Zico não poderá reprisar a glória do genial Pelé. Zico precisou chegar aos 29 anos de idade para ter marcado 500 gols. Pelé, com a mesma idade, já havia colecionado 1.000. Mas os dois se parecem ao menos na infinita paciência com que ambos sabem conviver com a condição de ídolo.

Em VEJA de 17/3/1982: O nosso craque maior

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Na década seguinte, as esperanças do torcedor estavam nos pés de um baixinho marrento. Como já se previa antes mesmo do início do Mundial, o Brasil dependia dos gols de Romário para seguir adiante na competição e conquistar um título que não conseguia havia 24 anos.

A sorte do Brasil na Copa do Mundo está nos pés de Romário de Souza Faria, carioca de 28 anos. Baixinho, atarracado, tinhoso, ele tem a maior e mais rara das qualidades de um jogador de futebol: a facilidade de fazer gols. Suas credenciais levam a torcida a depositar nele todas as esperanças de bons resultados da seleção brasileira na Copa, que começa daqui a um mês. Mas são insuficientes para afastar a desconfiança em relação a Romário. Assim como faz gols, ele tem uma capacidade infinita para se meter em confusões. É indisciplinado, encrenqueiro, individualista e rebelde. Angelical dentro do campo, fora dele Romário é um endiabrado. Diz exatamente o que pensa, mesmo quando resvala para a prepotência, a arrogância e a grosseria. Não lhe peçam para dedicar gols para criancinhas pobres. Não esperem dele mensagens positivas, pelo bem do Brasil. Anjo e demônio, Romário não sairá desta Copa igual ao que era antes dela. O sucesso ou o fracasso da seleção será mais seu do que de qualquer outro integrante do time.

Em VEJA de 18/5/1994: O craque que assusta mas resolve

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Quatro anos depois, com Romário cortado por lesão, coube a Ronaldo a encrenca de conduzir a seleção à vitória numa Copa. Como se veria depois, o atacante sentiria o peso quase insuportável da pressão por uma nova conquista. Ronaldo fez uma grande Copa, mas na final… Bem, melhor esquecer.

A responsabilidade sobre ele aumentou, pois não terá Romário para dividi-la. Mas trata-se, aos 21 anos, de um dos maiores e mais eficientes atacantes da história do futebol brasileiro. Não por acaso, foi eleito em dois anos consecutivos o melhor jogador do mundo. Seu companheiro de ataque, seja Bebeto, Edmundo ou Denilson, irá beneficiar-se da marcação prioritária que os adversários exercerão sobre ele.

Em VEJA de 10/6/1998: Um problema e uma esperança

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Na última ocasião em que o Brasil chegou para uma Copa com um jogador concentrando quase todas as atenções, o resultado não foi nada bom, tanto do time como do craque. Ronaldinho era o melhor do mundo, ninguém discutia. Mas o Mundial da Alemanha foi uma duríssima decepção.

Ronaldinho Gaúcho pode coroar um ano perfeito com seu time, o Barcelona, da Espanha. O craque brasileiro disputa a decisão da Liga dos Campeões, o torneio de clubes mais cobiçado da Europa. O Barcelona já havia conquistado o campeonato espanhol, pelo segundo ano consecutivo, graças às atuações brilhantes de Ronaldinho. Paradoxalmente, elas são ao mesmo tempo motivo de esperança e preocupação para os responsáveis pela seleção brasileira, a apenas um mês do início da Copa do Mundo. Como a preparação física no clube espanhol foi voltada para que sua estrela chegasse ao auge da forma neste momento, teme-se que ele desembarque na Alemanha cansado e propenso a lesões. Nas últimas semanas, ele se queixou de dores musculares. “Nos clubes sempre se faz uma projeção para atingir o melhor momento no final da competição. Cabe a nós tentar prolongar essa condição”, diz o preparador físico da seleção brasileira, Moraci Sant’Anna. Ronaldinho Gaúcho chegará à Alemanha com pelo menos 51 partidas nas costas.

Em VEJA de 10/5/2006: O reinado tem de durar