Opinião: Richarlyson, um homem exemplar numa sociedade doente

Homofobia prejudicou o jogador e, principalmente, os clubes que deixaram de contratá-lo. Melhor para o Guarani, que ganhou um reforço esportivo e moral

Um jogador talentoso, campeão nacional, da Libertadores, do Mundial de Clubes e com passagem pela seleção brasileira é apresentado sob bombas de protesto. O outro, acusado de um crime bárbaro e ainda com problemas a resolver com a Justiça, é recebido com selfies e abraços de mulheres e crianças. Pode ser exagero comparar o caso de Richarlyson ao do goleiro Bruno, pois a maioria da torcida e da opinião pública apoiou a chegada do primeiro ao Guarani e condenou o Boa Esporte pelo apoio ao arqueiro. No entanto, a perseguição que sempre acompanhou a carreira do polivalente jogador com passagens por São Paulo e Atlético-MG evidencia o quão intolerante e irracional é a sociedade em que vivemos. E o problema parece se agravar no futebol, um dos meios mais machistas e, principalmente, cínicos que existe. Neste cenário, Richarlyson, ainda que sem querer, se tornou um símbolo de resistência extremamente importante.  

A moda (?) de chamar goleiros de “bicha” a cada tiro de meta, por exemplo, invadiu o futebol brasileiro nos últimos anos, vinda do México. Nem mesmo o combate da Fifa, que já puniu a seleção brasileira com multas, foi capaz de erradicar a boçalidade nos estádios. Os agressores defendem o argumento de que provocações fazem parte do esporte e que as arquibancadas possuem certas leis não escritas, nas quais preconceitos estão liberados sem que os responsáveis sejam considerados preconceituosos. “Geração nutella, frescura, mimimi”, são alguns dos “argumentos” usados. O ponto é: orientação sexual é ofensa? Não seria mais inteligente, por exemplo, gritar um quase pueril “frangueiro”? Isso, sim, é um insulto para um goleiro.

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Richarlyson, de 34 anos, conviveu com bobagens deste tipo desde o início de sua carreira, o que sempre rendeu mais assunto do que seu bom futebol. A imprensa e as redes sociais também contribuíram para o atraso. “A homofobia veste verde”, estampou uma organizada do Palmeiras numa semana em que sua chegada era especulada. Anos antes, torcedores do São Paulo gritavam o nome de todos os seus jogadores, menos o de Richarlyson, apesar de todos os serviços prestados pelo jogador no Morumbi. Certamente, vários clubes do país também se acovardaram e se negaram a procurar o atleta, com medo das reações dos fanáticos. Pior para eles, já que Richarlyson conseguiu vencer todas as dificuldades. Ganhou muitos títulos e dinheiro e nunca se rendeu aos gritos dos ignorantes.

O Guarani, único clube do interior a conquistar um Campeonato Brasileiro, em 1978, também foi exemplar. Fez jus a sua grandeza e apostou em Richarlyson, que estava afastado desde uma passagem pelo Goa FC, da Índia, no ano passado. Sua chegada foi um pedido especial do treinador Oswaldo Alvarez, o Vadão, que recentemente se destacou dirigindo a seleção feminina – mais um sinal de que é um homem despido de preconceitos. Imbecis montados em motocicletas jogaram bombas no estádio Brinco de Ouro da Princesa no dia da chegada de Richarlyson e um vereador ponte-pretano achou que seria engraçado dizer nas redes sociais que o volante era “o reforço certo no clube certo”. Felizmente, os dirigentes e a imensa maioria dos torcedores do Guarani demonstraram apoio ao atleta e orgulho em contar com um reforço de peso mesmo em tempos difíceis – o time disputa a Série B do Brasileirão.

Pouco importa a orientação sexual de um jogador. Aos intolerantes, nunca é tarde para refletir: seja inteligente, não homofóbico.

Comentários

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  1. Marquinhos Sousa

    Cara…Que coisa feia estão fazendo com o Richarlyson no Guarani ! o.O
    O cara foi, PRA JOGAR BOLA, nem chegou direito e estão julgando por outra coisa que não tem nada a ver com o futebol afff
    Brincadeiras a parte, tudo mundo zoa ( inclusive eu ), quando a relação é um clube adversário e tals…Mas isso não deveria acontecer, né? Acima de tudo, isso é degradação de um Ser Humano, independente da escolha que ele fez ou não.
    O cara tem família, é responsável, é bom jogador, e não deve nada pra ninguém…Mesmo porque, ele não foi contratado pra ficar com alguém do clube…E se acontecer, é pq no clube já tem outros né? kkkkk
    Na boa, o cara joga bem pra caramba, é responsável, tem raça no campo… Coisas que não estou vendo em nenhum ” macho ” do SPFC e em outros Clubes grandes por aí.
    E digo mais…Se o SPFC quisesse recontrata-lo, eu seria a favor.

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  2. Seria bem recebido no Santos, tenho certeza. Parabéns ao Guarani.

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  3. JOSÉ ALVES GUIMARÃES

    A maioria desses canalhas são bichas enrustidas que vivem no fundo do baú com mêdo de mostrar a face. Além de cínicos, são covardes.

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  4. Osmerivaldo de Sa Alves

    Como que um povo que tem atitudes deploráveis como essa pode construir uma nação que preste? Parabéns ao Guarani e boa sorte ao garoto Richarlyson.

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  5. Os estádios de futebol são o circo romano dos tempos modernos.
    Pessoas “desvestem” das suas aparentes civilidades e mostram quem realmente são e o que pensam.
    Não muito diferente dos tempos que vivíamos nas árvores.

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  6. Jose Silva voce e o pastor Silas sao exemplos de “homens” tao mediocres que ate o ar que voces respiram eh um desperdicio. Tem certeza que “na epoca dos militares” nao existia homossexuais ou sera que estavam enrustidos porque tinham medo de morrer? Santa ignorancia…da ate pra sentir pena.

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  7. Sempre gostei de futebol, mas de tempos lá cá comecei a desgostar por conta da violência , racismo e homofobia presentes no meio e infelizmente os bons torcedores não são capazes de erradicar essa pobreza de espírito. Então me retiro eu.

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  8. Michelle Trarom

    Em pleno 2017 temos que nos deparar com esse tipo de atitude condenável daqueles que se dizem torcedores. São pessoas fracassadas que tentam denegrir a imagem dos outros, por pura inveja! E não existe isso só no futebol! É praticamente em todos os segmentos da sociedade. Infelizmente parece que estamos retrocedendo em vez de evoluirmos…

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