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Odebrecht quer vender sua parte na concessão do Maracanã

Cansada de perder dinheiro e enrolada na Lava Jato, a construtora quer se livrar do estádio, que nos últimos três anos acumulou prejuízos de 150 milhões de reais

É quase uma tradição que as cidades-sede de Olimpíadas ergam um estádio monumental, o local para onde se voltam bilhões de olhos nas cerimônias de abertura e encerramento. Nesse quesito, o Rio de Janeiro, onde serão realizados os Jogos de 2016, tem sorte. Afinal, quem precisa encarar uma obra dessas quando tem um Maracanã para chamar de seu? E ainda por cima um Maracanã reformado – no pacote fechado para a Copa do Mundo, o governo do estado investiu 1,2 bilhão de reais na remodelação de alto a baixo do estádio mais famoso do planeta. Quando foi reinaugurado, em 2013, o Mário Filho, seu nome oficial, pela primeira vez na história teve sua administração entregue, na forma de concessão, a um consórcio privado, constituído pela construtora Odebrecht (95%) e pela americana AEG (5%). Aí começa o enrosco. O que era para ser uma arena altamente rentável transformou-se nestes quase três anos em um ralo por onde escorreram 150 milhões de reais em prejuízo. Os motivos vão do derretimento de prometidas fontes de receita ao fraco público do futebol carioca, passando pelo enredamento da Odebrecht na Operação Lava-Jato. Resultado: combalida financeiramente e cansada de perder dinheiro, a empreiteira está empenhada em repassar sua parte no estádio. Oficialmente, ela nega. Mas a reportagem de VEJA apurou que já estão abertas as negociações para a Odebrecht se livrar do mico do Maracanã.

Alguns obstáculos foram decisivos para um espaço com tamanha tradição e charme deixar de dar lucro. A Odebrecht reclama do descumprimento de uma cláusula do contrato de concessão que previa a construção de um shopping center e um estacionamento onde estão localizados o centro de atletismo Célio de Barros e o parque aquático Julio Delamare, colados ao estádio, e, um pouco mais adiante, o Museu do Índio. Ocorre que o governo fluminense acabou cedendo a pressões conservacionistas, nenhum dos prédios foi posto abaixo e a concessionária deixou de arrecadar milhões. Além disso, ela está impedida por contrato de permitir que alguma empresa adicione seu nome ao Mário Filho pelo acordo de naming rights, uma tábua de salvação de estádios hoje em dia. Paralelamente, o péssimo desempenho em campo neste ano de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo, aliado à crise econômica, levou pouco público ao Maracanã e fez encalhar a venda de camarotes, outro manancial de receitas que não se concretizou. Como alternativa, o consórcio fecha patrocínios pontuais, aluga o espaço para shows (no ano que vem estão confirmados Rolling Stones e Coldplay), aniversários e casamentos e festeja a lei que aprovou recentemente a venda de cerveja nos estádios.

No momento, o maior interessado na fatia da Odebrecht no consórcio é, segundo a apuração de VEJA, o poderoso grupo francês Lagardère, detentor de um considerável portfólio em gestão de arenas. Seu braço esportivo, Lagardère Unlimited, cuida de sete estádios franceses que serão usados na Eurocopa 2016, além de ter sido responsável pela implementação e pelo planejamento de nove das doze arenas adotadas na Copa da Alemanha, em 2006. No Brasil, administra o Independência, casa do Atlético Mineiro em Belo Horizonte, e o Castelão, em Fortaleza. Outra solução que o governo do Rio de Janeiro vê com bons olhos é a AEG, parceira da Odebrecht, assumir sozinha a concessão. O grupo americano é referência mundial na arte de transformar complexos multiúso em negócios lucrativos. Tem o controle de ginásios de equipes da liga de basquete americana, de estádios na Europa e já fincou pé no Brasil, no Allianz Parque, em São Paulo, e na Arena Pernambuco. Caso a transferência aconteça, será a segunda vez em menos de um ano que a concessionária perde um sócio: em janeiro, a IMX, de Eike Batista, já então em processo de desmoronamento, cedeu seus 5% de participação à agora vendedora Odebrecht.

Ao governo do Rio interessa qualquer solução que não passe pela obrigação de retomar o estádio – e o prejuízo. “A única premissa inegociável é que não voltaremos a administrar o Maracanã. Governo tem de cuidar de segurança, educação e saúde, não de estádio de futebol”, afirma o chefe da Casa Civil, Leonardo Espíndola. A perspectiva causa calafrios no Palácio Guanabara, tão premido pela precariedade fiscal que, na semana passada, anunciou que vai parcelar o pagamento do salário dos servidores. Sair da administração do Maracanã será um desgosto pessoal para o presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho sob acusação de pagar propina para obter contratos na Petrobras. O executivo sempre gostou de alardear o “valor intangível” de ter nas mãos um dos estádios mais emblemáticos do mundo. Os primeiros prejuízos – 48,3 milhões de reais em 2013 e 77,2 milhões em 2014 – foram absorvidos, mas neste ano, engolida pelo redemoinho da Lava-Jato, a empreiteira está jogando a toalha.

Empenhado em manter a parceria, o governador Luiz Fernando Pezão contratou um estudo da Fundação Getulio Vargas e, em maio, propôs drástica redução do investimento obrigatório da concessionária no entorno do Maracanã durante os 35 anos do contrato, de 594 milhões de reais para 120 milhões. Decidida a sair de cena, a Odebrecht até agora não respondeu. Em outubro, alegando que o Maracanã ficará à disposição dos Jogos Olímpicos mesmo antes de o espetáculo começar, ela demitiu cerca de 40% dos empregados da administração. Não resta dúvida de que, no dia 5 de agosto, o mundo todo assistirá ao show de abertura da Olimpíada 2016 no Maracanã. Mas depois ninguém arrisca um palpite para o futuro do Maraca.

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