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Johnny Cabianca: o criador das pranchas de Gabriel Medina

Parte do sucesso do único brasileiro campeão mundial de surfe deve ser compartilhado com paulistano radicado em Maresias, um dos shapers mais respeitados do mundo

Única, milimetricamente calculada e decisiva para o desempenho nas ondas, a prancha é o principal instrumento de trabalho do surfistas. Enquanto a maior parte dos esportes se beneficiou com o avanço da tecnologia das matérias-primas, a composição das pranchas é praticamente a mesma há cinquenta anos. A grande diferença está na forma como a tábua de espuma, envelopada com fibra de vidro, é moldada pelo shaper o responsável pelo desenho e pela execução do processo de confecção das pranchas. Um dos profissionais mais respeitados dessa arte é o paulistano Johnny Cabianca, de 50 anos, criador dos modelos usados pelo atual campeão mundial Gabriel Medina e pela única brasileira na elite do circuito profissional, Silvana Lima.

Nascido em São Paulo, Johnny nasceu João. “Na adolescência, tínhamos mania de chamar todo mundo com nomes ‘gringos’. Virei Johnny.” Filho de um dentista, com cinco irmãos, Johnny tinha uma vida confortável e estudou nos melhores colégios da cidade. Foi nos finais de semana e nas férias no Guarujá, no litorla sul do Estado, que entrou em contato com o universo das ondas. “O surfe já era mais elitizado, custava caro praticar. Mas para a minha família não era um esporte, era coisa de marginal. Para ter a minha prancha tive de aprender a fazê-la.” Sua primeira experiência com o ramo que hoje é seu ganha-pão foi como removedor de parafina das pranchas dos amigos. “Ficar horas na garagem alisando pranchas com acetona era o meu passatempo preferido na adolescência.” Logo a função evoluiu para pequenos consertos, remendos com resina, e Johnny passou a dominar a arte da laminação – processo de encapar a prancha com o poliéster e a fibra de vidro.

Ao mesmo tempo em que cursava Desenho Industrial na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Johnny cuidava da Summer Boards, sua fábrica de laminação com um sócio. No final dos anos 80, tinha produção anual de 500 pranchas. Em 1991, fora da Summer Boards, começou a se aventurar em fábricas de amigos e aprendeu a desenhar e a moldar artesanalmente os blocos de poliuretano. Foi quando Luciano Leão, um médico apaixonado por surfe, fez a proposta que mudou sua vida. “Ele me disse que tinha três planos: construir uma fábrica de pranchas na praia da Baleia (litoral norte do Estado), aumentar sua produção e criar a primeira máquina automatizada para prancha. E queria que eu cuidasse da fábrica para ele focar na máquina.”

Ghost shaper – Em 1995, a máquina saiu do papel e Leão começou a vender o projeto para o resto do mundo, colocando o Brasil no cenário da fabricação de pranchas. “Quando se falava em desenho computadorizado, todos se assustavam, porque a maioria nem tinha e-mail. Alguém precisava explicar, com muita calma, até como ligar o computador.” Em 2001, essa tarefa passou a ser de Johnny, quando Leão o convocou para ensinar os funcionários de uma fábrica de pranchas na Espanha e em Portugal. Assim foi parar na fábrica da Pukas, a mais importante da Europa, fincada no País Basco (Espanha).

A parceria de Cabianca com a Pukas durou 11 anos, de 2003 até o ano passado. No início, ele era um “ghost shaper”: executava todo o projeto de confecção da prancha, que depois era assinada pelo designer oficial. “Até 2008, a fábrica da Pukas produzia anualmente quase 6.000 pranchas. Como ghost shaper, eu fazia cerca de 2.200. Ou seja, era responsável por mais de um terço da produção. É claro que me tratavam muito bem, até o momento em que passei a ganhar destaque.”

Menino de ouro – Johnny sempre teve bom relacionamento com o público e mantém contato com os surfistas locais. Logo surgiram pedidos de atletas profissionais de pranchas assinadas por ele. Mas foi com um garoto recém-chegado aos torneios internacionais que atingiu o estrelato: Gabriel Medina usou suas pranchas na edição do torneio sub-16 King of the Groms, na França. “A prancha ficou mágica. Eu, o Gabriel e o Charles (padrasto e técnico de Medina) sabíamos disso, então eles continuaram a usar os meus modelos.” Além de ser campeão do evento, Medina fez quatro notas 10 – duas na final, conquistando todos os 20 pontos possíveis da bateria. Foi quando Medina, então com 15 anos, estourou no mundo do surfe e João passou a assinar Johnny Cabianca nas pranchas que criava para a Pukas.

A partir daí a relação com a empregadora espanhola se desgastou – havia uma certa resistência a brasileiros que alcançavam sucesso dentro da Pukas – até que ficou insustentável. No final de 2014, Cabianca anunciou que voltaria ao Brasil. Medina o acompanhou. “Optei por seguir meu caminho com o Johnny em 2015. Tenho total confiança em seu trabalho e ele me conhece desde minha primeira prancha.” Depois de quase 15 anos morando na Europa, Johnny está vivendo com a mulher, a suíça Kathrin Kellenberger, e o filho, Matteo, em Maresias, no litoral paulista, a poucas ruas de onde mora a família Medina.

Paz – Johnny gosta de tranquilidade. Vai a pé para a sua fábrica, em uma estreita rua de terra. De camiseta e bermuda, tira os chinelos para entrar na sala de shape, um cômodo todo pintado de azul e com luzes laterais na altura do cavalete em que a prancha é apoiada truques para que consiga enxergar a mínima imperfeição na superfície do modelo. “Tem gente que acha Maresias muito parada, mas sou mais parado ainda, então adoro.” Ele busca essa calma porque seu ritmo de produção já é frenético o suficiente.

Em outra sala da fábrica, dezenas de blocos de poliuretano de todos os tamanhos esperam para ser shapeados e laminados. Além dos pedidos de surfistas amadores – uma prancha custa a partir de 2.200 reais -, de pranchas de stand up paddle e de longboards, Johnny é o responsável por todo o quiver (o coletivo de pranchas carregado pelo surfista) de Medina e Silvana Lima. Para a etapa do Rio, Silvana levou sete delas. Medina dá ainda mais trabalho para o designer: carrega de 12 a 18 por etapa. E, neste ano, Cabianca está preparando novos quivers para cada uma das onze etapas do Mundial. “Difícil mesmo é fazer caber e achar uma boa posição para todos os logos de patrocinadores que ele carrega.” Ossos do ofício do shaper do campeão mundial.