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Guga 20 anos: na semifinal, o ‘azarão’ tornou-se o favorito

Melhor ranqueado que o belga Filip Dewulf, Gustavo Kuerten teve que superar o nervosismo, causado pela obrigação de vencer, para chegar à grande decisão

No duelo dos franco atiradores, deu o brasileiro. A semifinal contra o belga Filip Dewulf naquele 6 de junho de 1997, uma sexta-feira, foi a partida mais tensa de toda a campanha de Gustavo Kuerten no Aberto da França daquele ano, apesar do placar ‘tranquilo’: vitória por 3 sets a 1, em 2 horas e 13 minutos de jogo. Parecia que o catarinense já sofria mentalmente com o assédio provocado por sua brilhante atuação no saibro parisiense. Para se ter uma ideia do frenesi, a extinta Rede Manchete, dona dos direitos de transmissão à época, transmitiu o jogo ao vivo para todo o país. Mais do que um duro adversário, Guga teve que lidar com a pressão causada pela obrigação de vencer. Afinal, seu ranqueamento era muito superior ao do adversário – mas o próprio brasileiro era prova viva de que, naquele Roland Garros, qualquer favoritismo era relativo.

Depois de encarar Muster, Medvedev e Kafelnikov, como um duelo contra o tenista número 122 do mundo, vindo do qualifying (aquele mini-torneio preliminar à chave principal), poderia ser tão complicado? No livro de crônicas e fotografias Gustavo Kuerten e Roland Garros – Uma História de Amor, o ex-técnico brasileiro Paulo Cleto, testemunha ocular daquele torneio de 1997, explicou o fenômeno Dewulf com precisão: “Ele é o que, na linguagem do tênis, chamamos de ‘fantasma’: tenista de enorme talento e bons golpes, jogou a qualificação do torneio em função dos péssimos resultados que obteve nos últimos doze meses.” Apesar de atrás do ranking, o belga era mais experiente que Guga (25 anos, contra apenas 20 do brasileiro) e somava um título de torneio ATP na carreira, frente a nenhuma grande conquista do brasileiro.

Havia também um pequeno componente psicológico na disputa. Na segunda rodada daquele Roland Garros, Dewulf derrotou o brasileiro Fernando Meligeni, amigo e companheiro de Guga no torneio de duplas em 1997.

O jogo – O primeiro set do tenista brasileiro foi praticamente irretocável. A inconstância de Dewulf, que viria a entregar diversos pontos nos chamados erros não-forçados (quando o tenista joga uma bola fácil na rede ou para fora da quadra), e a precisão de Kuerten foram definitivas para o placar de 6/1 em favor do ‘favorito’.

Ouça abaixo os detalhes do jogo, na voz do técnico Larri Passos:

 

O segundo até que começou bem para Guga, com uma quebra de serviço a favor logo no quarto game. Foi a partir daí que o belga ativou o modo kamikaze. Passou a jogar mais despreocupado com o placar e, consequentemente, a acertar mais bolas. Tantas que ganhou cinco games na sequência e fechou o set em 6/3, empatando a partida.

A gangorra emocional voltou a pender a favor de Guga no início do terceiro set, com uma quebra fundamental no saque de Dewulf. Depois da partida, o brasileiro explicou sua ‘volta’ para a disputa naquele instante: “Reencontrei meu ritmo e as bolas começaram a entrar novamente junto à linha ou a apenas alguns poucos centímetros dela. Nesta hora, senti que ele não estava conseguindo fazer o seu jogo, porque eu não estava deixando. É assim que gosto de jogar: ditando o ritmo”, disse Guga sobre a vitória novamente por 6/1 no terceiro.

Gustavo Kuerten em Roland Garros (1997)

Na partida contra Dewulf, o saque de Guga não entrava como nos jogos anteriores (Gary M Prior/Allsport/Getty Images)

Seguia tudo tranquilo no quarto set. Com o placar em 5/4 e com o saque, o brasileiro teve a chance nas mãos de fechar a partida. Foi aí que deu-se um novo apagão psicológico. “Bateu o nervosismo de novo. Sou humano, não tenho nervos de aço. Estava tão perto, mas tão perto de realizar este grande sonho, que é chegar à final de Roland Garros, que acabei deixando escapar essa oportunidade”, admitiu Guga depois do jogo. Teria a presença da mãe do tenista, Alice, e de sua avó, dona Olga, provocado algum tipo de bloqueio no brasileiro?

Os pontos seguintes provariam o contrário. Depois de 2 games nervosíssimos, a decisão do quarto set foi para o tie-break. O desempate começou favorável ao belga, que abriu uma mini-quebra em 3 a 1. Mas novamente os erros bobos de Dewulf (somado a uma ajuda milagrosa da fita), colocaram Guga com a bola do jogo em 6 a 4. Desta vez, o brasileiro não daria chances ao adversário. Vitória por 7/6 e fim de jogo. Pela primeira vez na história, um tenista brasileiro chegava à final do torneio de simples de um Grand Slam.

Com a palavra, o campeão:

“Eu tinha feito o milagre do milagre do milagre. Mas, mesmo com a mãe e a oma na plateia, essa foi a comemoração mais contida de todas. É difícil explicar a razão. Antes minha impressão era que cada partida em Roland Garros começava e terminava em si mesma, uma conquista de cada vez, como sempre tinha sido na minha carreira. Mas a vitória sobre Dewulf, embora fosse a mesma coisa, soava diferente. A sensação era de ser parte de um processo, o pedágio para chegar ao verdadeiro jogo da vida, para o qual eu precisava me preparar desde já. Ainda mais porque aquela pane no último set, quando eu estava ganhando por 5-4 e deixei Dewulf passar na frente, mostrava que eu precisava ser mais incisivo, menos humano e mais máquina na final.

Ninguém precisou falar sobre minhas virtudes ou deficiências. Eu sabia, Larri também. Logo depois da partida, nos abraçamos, comemoramos, vibramos, mas a cabeça dos dois já estava em outro lugar. Juntos, fomos ao vestiário assistir à outra semifinal, entre o australiano Patrick Rafter e o espanhol Sergi Bruguera. Os jornalistas tinham me perguntado uma dúzia de vezes com quem eu preferia jogar caso passasse para a próxima fase. Respondia que o importante era a oportunidade de disputar uma das finais mais nobres do circuito, que o adversário não fazia diferença. Era lorota. Eu preferia mil vezes encarar Bruguera

Rafter tinha um estilo que me incomodava. De saque e voleio eu queria distância, ainda mais naquele lugar e naquela hora. Eu preferia o jogo franco do espanhol, mesmo que ele fosse bicampeão em Roland Garros e já tivesse sido chamado de rei do saibro.

Trecho extraído da autobiografia Guga – Um Brasileiro (Sextante)
Philip Dewulf

Filip Dewulf, em ação no torneio de Roland Garros de 1997 (SYGMA /THIERRY ORBAN/Dedoc)

Que fim levou? – A campanha igualmente improvável de Filip Dewulf deu ao belga a melhor posição no ranking mundial de sua carreira: a 39ª. Ao contrário de Guga, seu sucesso e protagonismo no circuito profissional durou pouco. Ele até venceu um torneio logo após Roland Garros (Kitzbuhel, na Áustria), mas não conquistou mais nada até pendurar as raquetes em 2001. Mas Dewulf não abandonou o esporte, hoje ele é jornalista especializado em tênis e correspondente do Het Laatste Nieuws, maior jornal da Bélgica. Inclusive, o semifinalista de 1997 está acompanhando o torneio de Roland Garros deste ano in loco – quem quiser acompanhá-lo, basta seguí-lo no Twitter (sua conta é @GraveyardFilip).