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Guga 20 anos: Contra o ‘monstro’ Kafelnikov, decisão antecipada

Em sua melhor apresentação na campanha, Gustavo Kuerten elimina o principal candidato ao título e deixa de ser um mero azarão em Roland Garros

A expressão “decisão antecipada” é um desses clichês que infestam o esporte e raramente fazem sentido, mas em alguns casos especiais ela é precisa. Pois foi exatamente disso que se tratou o jogo entre Gustavo Kuerten e Yevgeny Kafelnikov pelas quartas de final de Roland Garros em 1997. O catarinense enfrentou o campeão do torneio no ano anterior, e número três do ranking mundial, como se fosse um veterano e obteve uma vitória dramática, em cinco sets – a terceira consecutiva, aliás.

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Depois do triunfo sobre o russo, que tornou-se posteriormente um de seus maiores rivais, Guga viu sua confiança ir às alturas e encarou as duas rodadas finais da competição com muito mais tranquilidade. Naquele 3 de junho de 1997, pouquíssima gente acreditava que, após surpreender o mundo com vitórias sobre Thomas Muster e Andrei Medvedev, o garoto cabeludo fosse capaz de derrubar mais um gigante. Pois ele derrubou.

O jogo – Guga viveu uma jornada de altos e baixos naquela tarde de terça-feira. Seu primeiro set foi brilhante, aproveitando que o russo demorou para engrenar na partida. Patrocinado pela mesma marca italiana de roupas do brasileiro, Kafelnikov começou o jogo com o uniforme igual ao de Guga – aquele icônico azul e amarelo –, mas a superstição falou mais alto, ao que parece.

“Foi só o Kafelnikov perder o primeiro set para trocar de roupa e voltar para a camisa branca que havia usado até ali no torneio”, recorda Rafael Kuerten, irmão de Guga.

Nos dois sets seguintes, já livre da camisa “azarada”, Kafelnikov elevou muito seu nível e atropelou o brasileiro. A superioridade do europeu foi tamanha que, no intervalo do terceiro set para o quarto, Guga tinha certeza de que sua mágica campanha em Roland Garros estava condenada. Mas aí aconteceu outra reviravolta.

Ouça abaixo os detalhes do jogo, na voz do técnico Larri Passos:

 

No início da quarta parcial, o russo deu alguns sinais de cansaço e, mais importante ainda, seu adversário, certo de que a derrota era inevitável, soltou o braço como se não houvesse amanhã. Resultado: 6 a 0 para Guga, para espanto do público que lotou a Philippe Chatrier e dos milhões de fãs de tênis que viram o jogo pela TV. No set decisivo, Kafelnikov se recuperou do massacre inesperado e voltou a jogar bem, mas o brasileiro conseguiu uma quebra de saque logo no início e, apesar da enorme tensão, manteve a vantagem até o fim.

“Foi a melhor partida do Guga naquele torneio. Os dois jogaram muito bem, aliás, foi um grande jogo”, comenta Rafael. “No fim, foi ótimo a partida contra o Medvedev ter sido disputada em dois dias porque, assim, o jogo contra o Kafelnikov foi logo no dia seguinte. O Guga não teve muito tempo para ficar pensando no tamanho do desafio e isso o ajudou.”

Com a palavra, o campeão:

A sensação da vitória era tão profunda que retomei o desempenho do primeiro set, um cara mirando no alvo e disparando em linha reta até acertar na mosca. Quando finalizei o game, ganhando a partida e concretizando o inimaginável, urrei como se tivesse conquistado o título. Ainda com adrenalina saindo pelos olhos, Rafa exultava, berrava, vibrava. Em lágrimas, Letícia, a namorada ele, quase esmagava meu irmão no abraço de comemoração. Larri estava eufórico e emocionado. A plateia foi ao delírio e aplaudia, sorrindo com o ar de satisfação de quem presencia um fenômeno raro, o cometa flamejante que só cruza o céu a cada duzentos anos.

Caramba, o que tinha sido aquilo? Depois de estar perdendo por 2 sets a 1, como é que eu havia mudado o roteiro da história? Como tinha sido possível ganhar do Kafelnikov, o número 3 do mundo?! Como aquele absurdo tinha acontecido?

Apesar de ter sido o protagonista da história, naquela hora eu não tinha resposta para nenhuma das perguntas. Ainda mal acreditava que tinha vencido, que aquele carnaval na torcida era todo pra mim. No entanto, era real. Eu tinha superado o monstro e a escalada da montanha continuava. Eu estava na semifinal de Roland Garros.

Trecho extraído da autobiografia Guga – Um Brasileiro (Sextante)

 

Yevgeny Kafelnikov (1997)

Kafelnikov em Roland Garros-97 (Frank Peters/Bongarts/Getty Images)

Quem fim levou? – Yevgeny Kafelnikov teve uma grande carreira no tênis e fez vários duelos marcantes com Gustavo Kuerten depois daquele de 1997. O russo, que havia sido campeão em Paris em 1996, conquistou o Aberto da Austrália em 1999, ano em que chegou à liderança do ranking mundial. Na temporada seguinte, ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Sydney (tendo derrotado Guga nas quartas de final).

O russo, que está com 43 anos, aposentou-se em 2004 e, depois disso, dedicou-se ao pôquer e ao golfe. Atualmente ele é comentarista de tênis e vice-presidente da Federação Russa da modalidade.