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Felipão aposta tudo nos 23: ‘Eu vou até o inferno com eles’

Técnico falou sobre a confiança que tem no grupo anunciado nesta quarta – e revelou que a decisão de convocar Henrique foi tomada algumas horas antes

“Esses atletas jogam na seleção por prazer. É mais difícil fazer isso com jogadores mais experientes, que já ganharam muito, que não têm tanta ambição. Com os jovens é mais fácil”

Na entrevista coletiva concedida depois da leitura dos nomes da convocação da seleção brasileira, na manhã desta quarta-feira, numa casa de shows do Rio de Janeiro, Luiz Felipe Scolari nem parecia a mesma pessoa que, doze anos atrás, se desdobrava para explicar a ausência de Romário em sua lista e rebater as incertezas em torno da equipe que brigaria pelo pentacampeonato na Copa da Coreia do Sul e Japão. Com moral entre os torcedores depois de levar o Brasil ao título da Copa das Confederações do ano passado, Felipão repetiu em diversas ocasiões que espera contar com forte apoio popular na disputa do Mundial em casa. O treinador gaúcho disse que a oportunidade de comandar o Brasil nesta Copa é maior alegria de sua carreira e negou já estar decidido a deixar o cargo depois do torneio. “O que existe de oficial é meu compromisso de formar o time para ganhar a Copa”, avisou.

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Felipão revelou também que a convocação do zagueiro Henrique foi a decisão mais difícil de todas – e só foi tomada horas antes do anúncio, em uma reunião com toda a sua comissão técnica. O técnico, que fez de tudo para manifestar sua total confiança nos 23 escolhidos, garantiu que a má fase de alguns atletas, como Paulinho, Marcelo e Oscar, não preocupa. Nessa nova edição da “Família Scolari”, a união dos atletas e da comissão técnica deve voltar a ser uma marca da seleção. “Eu vou com eles até o inferno”, anunciou, antes de comemorar o ambiente “espetacular” entre os jogadores. A importância de Neymar, a ansiedade pela estreia e a condição física dos integrantes da equipe também foram comentados por Felipão em pouco menos de uma hora de entrevista. A seguir, os principais trechos:

Apoio popular

“A escolha dos 23 é uma decisão do técnico, mas peço aos torcedores que, mesmo que discordem de A, B ou C – o que é absolutamente democrático -, que todos sejam bem recebidos pelo povo. Antes da Copa das Confederações, a gente vinha de vários amistosos contra grandes equipes, sem grandes resultados. E a partir dos amistosos e da Copa das Confederações, conseguimos fazer com que o público acreditasse na gente. Na Copa, os adversários serão mais fortes, e vamos fazer com que os jogadores entendam isso, até porque muitos deles nem sequer jogaram um campeonato mundial. Mas hoje temos um pouco mais de confiança. O público jogou junto conosco.”

Romário e a lista de 2002

“Naquela noite, na véspera da convocação de doze anos atrás, eu tive de improvisar, porque sabia que não seria bem recebido aqui no Rio. Foi preciso me esconder um pouco. Ontem, não. Inclusive fiz minha caminhada normal, de tardezinha… A situação era bem mais tranquila (risos). Claro que a convocação nunca vai agradar a todos, mas não teve aquele clamor popular por algum jogador. Como estamos trabalhando há mais tempo na montagem desta equipe, foi relativamente mais fácil.”

Henrique

“É um jogador em que eu confio, gosto do futebol dele. Esta foi a decisão mais difícil. Ontem analisamos uma série de detalhes sobre a última vaga da zaga, tivemos nossas discussões, analisamos os motivos disso ou daquilo e decidimos pela convocação do Henrique.”

‘Até o inferno’

“Alguns já sabiam que estavam convocados, porque eu fiz questão de avisá-los com antecedência. Eles estavam com certas dificuldades em seus clubes, mas eu disse que eles não deveriam se preocupar. Eu vou com eles até o inferno. Eles formam esse ambiente que, para mim, é espetacular.”

Honra de comandar a seleção

“Qualquer técnico, de qualquer pais do mundo, segue seu caminho sonhando em comandar a seleção de seu país. Foi o que aconteceu comigo. Chegar à seleção pela segunda vez e jogando uma Copa no seu país é algo com que poucos serão agraciados. É a maior honra, alegria e satisfação da minha vida. É aquilo de mais bonito que poderia acontecer na minha vida no futebol.”

Permanência após a Copa

“Eu não anunciei nada. Não tenho comentado nada sobre ganhar, perder, ficar, sair. Comentei alguma coisa com o Marin e com o Marco Polo, mas foi mais pela nossa amizade, não há nada de oficial. O que existe de oficial é meu compromisso de formar o time para ganhar a Copa do Mundo. Só quero pensar no Mundial e em ganhar o Mundial, junto com todo mundo. Certo, presidente? (virando-se para Marin) Depois a gente acerta…(risos)

Os atletas em má fase

“O que mais me preocupa não é a questão técnica, mas a parte física. Isso é o que nós vamos focar para deixar todos equilibrados. Não me preocupa a situação do Paulinho, do Oscar… O Oscar é um dos melhores jogadores do mundo. Ele pode até ter alguma dificuldade física, mas será avaliado para que, do dia 26 em diante, ele trabalhe corretamente. A parte técnica também será trabalhada, mas só depois que a parte física estiver resolvida.”

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Lista dos sete reservas

“A Fifa nos obriga a entregar mais sete nomes em 13 de maio, é uma norma. Mas eu não acho que chamar mais jogadores pra depois cortá-los seja o mais adequado, eu não concordo com essa ideia. De qualquer forma, se eu tiver algum problema e precisar chamar mais alguém, não precisa ser dessa lista de sete, posso chamar qualquer um dos milhares de brasileiros que jogam futebol. Já fiz a lista dos reservas e priorizei todos os setores igualmente.”

Estreia

“A grande seleção a ser derrotada é a Croácia. Temos que dar os passos iniciais. O importante é vencer a Croácia, e depois, passo a passo, tentar chegar à final. É importante que o público e os jogadores saibam disso. Se vocês perguntarem a jogadores que já jogaram uma Copa, provavelmente vão ouvir de todos que o primeiro jogo é diferente, sempre dá aquele frio na barriga, de saber se vai dar certo. A expectativa do torcedor também costuma ser maior do que o que a gente produz em campo. Tem uma série de fatores que fazem ser psicologicamente mais difícil que os outros e acho que isso vai acontecer com a gente também, precisamos estar bem preparados. Se dá certo desde o início, depois a coisa flui normalmente. Se não, a gente começa a ter receios.”

Juventude do grupo

“Esses atletas jogam na seleção por prazer. Eles são profissionais, claro, mas nossa função é desenvolver neles cada vez mais esse gosto por jogar futebol. Taticamente equilibrados, mas também desfrutando de jogar por sua seleção. É mais difícil fazer isso com jogadores mais experientes, que já ganharam muito, que não têm tanta ambição. Com os jovens é mais fácil.”

“Nem tenho ido tanto à igreja, fui só no domingo, depois de quatro meses (risos). É normal que qualquer um de nós precise de algo mais que só confiança, que precise de um pouco de fé para estar equilibrado nas decisões. Se me deixarem frequentar a igreja, eu vou, porque ir com fotógrafo tirando foto também é um saco.”

Atletas estreantes em Copas

“Nesse grupo, há apenas seis jogadores com essa experiência em Copa, mas nós, da comissão, que já vivemos várias experiências dessas, vamos ter que passar nossa experiência. Além disso, vamos convidar outros ex-campeões mundiais e pessoas com muita bagagem para que nos ajudem, dando palestras aos jogadores. Em 2002, tínhamos atletas com muito mais história em Copas, mas a experiência que esses jogadores de agora estão tendo nas principais competições europeias me faz acreditar que eles não sentirão tanta diferença.”

O corte de Emerson em 2002

“A experiência que eu tive naquele dia foi horrível. Os primeiros cinco minutos foram de um atordoamento total. Naquela oportunidade, o Emerson saiu e o Ricardinho entrou muito bem no grupo, mas o Emerson era o meu capitão, teve mais isso ainda. Tomara que nós não tenhamos isso, pois posso garantir que é uma situação bem ruim para quem comanda.”

Neymar blindado

“Não sou eu que faço essa blindagem. Preserva-se esse jogador, pois ele espera que tu ajas com ele como o pai dele faz. Quando a gente pode ajudar, é isso que temos feito, com a nossa experiência.”

Visitas e treinos abertos

“Não quero que digam que o treino foi fechado por mim, pois esta é uma regra da Fifa. Quando pudermos, vamos abrir os treinamentos. Mas não somos só nós que pretendemos ficar mais resguardados. Espero que as pessoas entendam esses detalhes. Vamos tentar organizar as visitas da melhor forma possível. Todo dia, visitar tio, cachorro, papagaio, isso não pode. Quem não gostar, que saia da seleção.”

Redes liberadas

“Daremos aos jogadores liberdade para que eles se comuniquem pelas redes sociais, desde que isso não interfira no nosso trabalho, que não cause conflito no nosso grupo. Eles sabem disso. Foi assim na Copa das Confederações e tem sido assim sempre.”