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Espanha já é como o Brasil: só a vitória lhe é permitida

Nemesio Rodríguez.

Madri, 2 ago (EFE).- O peso futebolístico da Espanha chegou a tal nível que a ‘Fúria’ já é vista dentro de suas fronteiras como a seleção brasileira: só lhe é permitida a vitória.

Qualquer resultado que não seja o título gera desgosto, mal-estar e irritação. Somos os melhores, e é preciso que isso seja demonstrado em todas as categorias e em todas as competições. Uma derrota se transforma em fracasso intolerável.

A seleção espanhola chegou a Londres 2012 com a mesma cobrança imposta ao Brasil de Neymar, Oscar e cia. Ninguém discutia na Espanha que a final seria contra os pentacampeões mundiais. E a decisão do ouro indicaria qual das duas é a melhor equipe do mundo.

Se no passado a exigência dos espanhóis era que a ‘Fúria’ superasse as quartas de final, agora só o título é considerado um bom resultado. A ‘Rojita’, como era chamada a seleção espanhola olímpica, chegou a Londres 2012 com o aval das conquistas de dois títulos da Eurocopa e um da Copa do Mundo por parte de sua irmã mais velha nos últimos anos.

O ouro olímpico teria fechado o ciclo mais esplêndido da história do futebol espanhol. Mas a medalha não veio, e a ‘Rojita’ fez as malas sem ganhar uma partida e sem marcar um gol sequer.

Os sucessos, adornados com um estilo de jogo admirado e invejado por todo o universo futebolístico, colocaram a Espanha no mesmo plano que o Brasil, onde os fracassos se pagam com demissões imediatas.

Mas a história brasileira está cheia de contradições, como agora a espanhola. Sim, o Brasil têm cinco títulos mundiais, porém muito menos títulos da Copa América que Argentina e Uruguai (8 contra 14 e 15, respectivamente) e nenhum título olímpico.

A certeza dos títulos incentiva a propagação de elogios exagerados, o que muitas vezes faz as equipes perderem o foco. Foi o que aconteceu com o Brasil na Copa de 2006. A única incógnita desse torneio era saber quem seria o adversário da seleção na final. Quem olhasse o elenco não tinha dúvidas de que estaria no Estádio Olímpico de Berlim na decisão: Dida, Cafu, Lúcio, Roberto Carlos, Kaká, Zé Roberto, Juninho Pernambucano, Adriano, Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo… Uma equipe avaliada em 410 milhões de euros.

O técnico Carlos Alberto Parreira tinha uma tarefa descomunal, já que ninguém duvidava que o hexacampeonato estava próximo. Até Pelé estava tão certo do título que afirmou que ‘o principal adversário do Brasil é o próprio Brasil’.

‘A vitória é uma imposição’, chegou a dizer Parreira.

O Brasil perdeu nas quartas de final para a França (1 a 0, gol de Thierry Henry), e o título foi conquistado pela Itália com uma seleção de nomes menos estelares, mas que tinha determinação e espírito de luta decisivos. Parreira recebeu uma chuva de críticas, uma delas de Tostão, que o acusou de impor um estilo ‘apático’.

Dirigida por Dunga, a seleção recuperou moral com a conquista da Copa América de 2007 e a Copa das Confederações de 2009, mas fracassou nos Jogos Olímpicos de Pequim – quando perdeu para a Argentina por 3 a 0 nas semifinais – e foi eliminada pela Holanda nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010. Em 2011, já com Mano Menezes no comando, o Brasil sequer chegou à final da Copa América.

A história mostra que os grandes times também são compostos por humanos, mesmo quando contam com um elenco excepcional, como é o caso da seleção principal da Espanha.

A ‘Rojita’ acaba de comprovar essa tese, como lembrou o jornal britânico ‘The Guardian’ após a eliminação olímpica: ‘A jovem equipe espanhola recebeu uma valiosa lembrança de que é feita de mortais’. EFE

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