Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Dinheiro do jogo de maior renda do Campeonato Brasileiro sumiu

Santos e Flamengo, maio de 2013 em Brasília: adeus de Neymar, maior torcida do país na arquibancada, abertura do estádio mais caro da Copa e arrecadação de R$ 6,9 mi. Um ano depois, não se sabe quem ficou com lucro de R$ 5,5 mi

A Federação Brasiliense diz que os recursos nunca foram dela, e sim do Santos. A entidade, entretanto, não explica o motivo e não esclarece o que aconteceu com o resto do dinheiro

A partida entre Santos e Flamengo, em maio de 2013, na primeira rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano, entrou para a história do futebol nacional. A começar pelo fato de ter marcado a inauguração do novo Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. O antigo estádio foi colocado abaixo e deu lugar a uma arena de alto padrão, bancada pelo governo do Distrito Federal. É a arena mais cara entre as doze que serão usadas na Copa – o Tribunal de Contas do DF calcula que ele tenha consumido 1,6 bilhão de reais. Realizado num estádio com capacidade para quase 70.000 pessoas e com ingressos bastante caros, o jogo teve todos os bilhetes vendidos e transformou-se na maior renda da história do Brasileirão até aquela data: nada menos de 6,9 milhões de reais.

Até aí, nada de anormal: além de marcar a inauguração de um estádio da Copa, o duelo incluía o time de maior torcida do país num de seus principais redutos. Para completar, a partida também acabou sendo a despedida de Neymar do futebol brasileiro: o principal craque do país na atualidade fazia seu último jogo pelo Santos antes de estrear pelo Barcelona. Os problemas começaram a aparecer na hora de repartir os recursos milionários arrecadados naquela tarde, encerrada com um empate sem gols. Desde então, o destino da maior parte do dinheiro obtido com a partida mais lucrativa já realizada num estádio brasileiro segue uma incógnita.

Os 63.501 bilhetes, que custavam entre 80 e 400 reais, foram emitidos pela Federação Brasiliense de Futebol (FBF). O nome e o CNPJ da entidade aparecem em cada ingresso, o que significa que os recursos referentes à comercialização das entradas deveriam ter passado pelo caixa da federação. O borderô com a contabilidade do jogo também ficou a cargo da entidade distrital. Na prestação de contas anual da FBF, contudo, os recursos não aparecem.

Na ocasião, o Santos, mandante da partida, informou à imprensa ter negociado os direitos de realização do jogo. A equipe paulista poderia ter marcado o duelo para a Vila Belmiro, onde o Santos arrecada menos de 500.000 reais por partida. O clube teria negociado a mudança do local do jogo para Brasília por 800.000 reais – em meio às críticas sobre o gasto excessivo com a construção do estádio e com a CBF e o governo distrital dispostos a mostrar que o estádio não seria um elefante branco (a média de público no futebol local é insuficiente para sustentá-lo), havia um interesse geral em transferir a partida para a capital federal. Outros 200.000 reais foram para a Federação Paulista de Futebol (FPF). Além disso, a federação local tem direito a 5% da renda total dos jogos realizados em Brasília, no caso, 345.000 reais.

Descontando esses repasses, sobram mais de 5,5 milhões de reais da renda bruta total – e é esse montante que tem um destino ainda obscuro. A FBF diz que os recursos nunca foram dela, e sim do Santos. A entidade, entretanto, não explica o motivo e não esclarece o que aconteceu com o resto do dinheiro. Conforme os números declarados oficialmente na contabilidade do jogo (na imagem ao lado), a renda líquida foi de 4,3 milhões de reais, já contando o repasse às duas federações, mas não os 800.000 que teriam sido acertados com o Santos. Quando o “cachê” ao clube paulista entra na conta, sobram nada menos de 3,5 milhões de reais de arrecadação limpa, já descontados todos os impostos e despesas com a realização do evento. No pé do documento da FBF, os campos destinados à divisão de renda líquida aparecem em branco.

‘Cortesia’ – Outras irregularidades chamam a atenção na análise da súmula confeccionada pela FBF depois da partida entre Santos e Flamengo. Os registros oficiais mostram que, na categoria de ingressos intitulada “Superior Cortesia”, por exemplo, foram entregues 3.129 bilhetes ao preço de 80 reais cada. Total arrecadado: 250.320 reais. Esse dinheiro, entretanto, não existe. Segundo a própria Federação Brasiliense de Futebol informou ao site de VEJA, o valor apresentado no documento não é real, já que não houve venda de cortesias. O bilhete cedido aos convidados, aliás, trazia um aviso proibindo esse comércio.

A Federação Brasiliense de Futebol é comandada por Jozafá Dantas, aliado de um ex-presidente da entidade, Fábio Simão. Simão, por sua vez, tem um histórico de ligação com o PMDB e com o ex-senador Luiz Estevão. Jozafá também é aliado de Luis Carlos Alcoforado, advogado do governador Agnelo Queiroz (PT) e dono do Brasília Futebol Clube. Procurada pelo site de VEJA, a diretoria do Santos não se pronunciou sobre os valores envolvidos na realização da partida na capital do país.

Ingresso para Santos x Flamengo: o bilhete dizia venda proibida, mas a contabilidade do jogo inclui a arrecadação obtida com essas entradas

Ingresso para Santos x Flamengo: o bilhete dizia venda proibida, mas a contabilidade do jogo inclui a arrecadação obtida com essas entradas (VEJA)