De olho no voto, governo tenta esvaziar protestos na Copa

Temendo influência negativa na campanha, Dilma escala Gilberto Carvalho para viajar às sedes e convencer movimentos sociais a não aderir às manifestações

O ministro Gilberto Carvalho: diálogo com movimentos sociais, de olho na Copa

O ministro Gilberto Carvalho: diálogo com movimentos sociais, de olho na Copa (VEJA)

Os auxiliares de Dilma acreditam também que a enorme maioria da população entrará no clima de euforia da Copa quando a bola começar a rolar. É por isso que a posição dos movimentos sociais é considerada tão importante pelo governo

Muitos dos protestos violentos ocorridos no país nos últimos meses foram liderados por grupos de militantes que contam com apoio oficial. No governo federal, a interlocução com esses movimentos sociais está a cargo de Gilberto Carvalho, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Sua pasta tem até uma subsecretaria dedicada ao diálogo com esses grupos. Em fevereiro, depois que o MST promoveu um quebra-quebra na Praça dos Três Poderes, em Brasília, o ministro saiu em defesa do grupo, de quem é um dos principais interlocutores. Disse que o movimento responsável pelo confronto que feriu mais de vinte policiais continuaria a receber o apoio financeiro de estatais (BNDES, Caixa e Petrobras estão entre seus patrocinadores) e, no dia seguinte, compareceu a um seminário do MST na capital. Nesta semana, no entanto, o ministro que apoia alguns dos grupos mais incendiários do país terá de atuar como bombeiro. Preocupado com as eleições de outubro, o governo quer evitar que a Copa do Mundo seja marcada por uma nova onda de protestos violentos. E a tarefa de esvaziar essas manifestações e reduzir a oposição dos movimentos sociais foi entregue justamente a Gilberto Carvalho.

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O governo já vinha dando sinais de preocupação com a imagem negativa do evento entre a população. O que mais alarma o Planalto é a possibilidade de a Copa servir de palco para novas cenas de convulsão social, repetindo a onda incontrolável de protestos de junho de 2013. Com a queda na avaliação da presidente Dilma Rousseff, aferida na semana passada pelo Ibope, a avaliação é de que o Mundial será determinante para a imagem do governo quando a campanha começar de vez. Dentro desse contexto, o melhor cenário possível é a realização de uma Copa tranquila, sem sobressaltos – e, de preferência, com vitória da seleção brasileira, estimulando um clima de euforia nacional. Como o desempenho da equipe de Luiz Felipe Scolari foge ao controle de Dilma, resta ao governo tentar abafar a mobilização popular em torno do evento, esvaziando os protestos previstos para junho e julho. Depois das campanhas desenvolvidas pelos marqueteiros do governo, a estratégia será reforçada a partir desta quarta-feira, quando Carvalho inicia um giro pelas cidades-sede, numa espécie de turnê promocional da Copa.

Promessas – Ao contrário de outros eventos similares promovidos por órgãos como a Embratur e o Ministério do Esporte, Carvalho não terá como interlocutores empresários e autoridades, mas sim movimentos sociais, sindicalistas e líderes comunitários – justamente os grupos que, na avaliação do governo, podem ser convencidos a desistir da adesão aos protestos que miram os gastos excessivos com a Copa. A primeira escala é Manaus, palco de quatro partidas do Mundial, onde boa parte da população mostra incômodo com o projeto local para o torneio. A cidade ganhou um novíssimo estádio, mas os avanços prometidos em setores como o de mobilidade urbana ficaram muito longe do que era prometido. O evento, que o Planalto chamou de “Diálogo Governo-Sociedade Civil: Copa-2014”, acontece no início da tarde. Antes do embarque rumo ao Amazonas, Carvalho afiou seus argumentos em defesa da Copa com a assistência dos ministros do Esporte, Aldo Rebelo, e Thomas Traumann, da Comunicação Social. As datas das próximas paradas não foram divulgadas, mas Carvalho viajará a todas as onze sedes, além de realizar uma reunião na própria capital federal.

O objetivo declarado dos encontros com os movimentos sociais é “esclarecer a população sobre as iniciativas e ações da Copa”, tentando convencê-los de que os investimentos feitos para o torneio foram acertados e que haverá benefícios diretos aos moradores das cidades-sede. Carvalho reuniu os números dos projetos de ampliação dos aeroportos, dos gastos em infraestrutura urbana e outras empreitadas similares. O Planalto também deverá argumentar que o Brasil criou novos empregos em função do evento e receberá grande fluxo de visitantes, aumentando as receitas do setor turístico. O governo acredita que os protestos nas ruas durante a Copa são inevitáveis, mas acha que é possível esvaziá-los se conseguir exibir os aspectos positivos da realização do torneio. Os auxiliares de Dilma acreditam também que a enorme maioria da população entrará no clima de euforia da Copa quando a bola começar a rolar. É por isso que a posição dos movimentos sociais é considerada tão importante pelo governo. Sem a adesão desses grupos às passeatas que contestam os gastos com o Mundial, o Planalto acha que as manifestações serão pequenas e isoladas – e, portanto, pouco prejudiciais às intenções de voto de Dilma.

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