Ausência de Neymar comprova: Tite mudou a CBF (para melhor)

Treinador teve coragem e autonomia para dar descanso ao maior craque brasileiro em um amistoso com grande potencial de marketing

A ausência de Neymar na lista de convocados da seleção brasileira desta sexta-feira foi, de certa forma, surpreendente. Não pelo aspecto esportivo, pois faz todo o sentido Tite dar descanso a seus principais jogadores e testar novidades em amistosos, mas sim pelo fator business. Em outros tempos, seria impossível imaginar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) concordando em deixar sua principal estrela de fora de um amistoso tão midiático como contra Argentina e, assim, desagradar patrocinadores e promotores do evento. No entanto, com a moral de quem venceu todas as nove partidas em que dirigiu a seleção, Tite, Edu Gaspar e sua equipe deixaram claro: são eles que mandam nas convocações. O presidente Marco Polo Del Nero nem teria como discordar do homem mais confiável do país no momento.

Na sede da CBF, no Rio, Tite falou abertamente sobre o possível conflito com patrocinadores por causa da ausência não só de Neymar, mas de estrelas como Marcelo e Daniel Alves. “Nos reunimos eu, Edu Gaspar (coordenador de seleções), Rogério Caboclo (diretor executivo) e o presidente Marco Polo, que disse que a gente fizesse o que fosse melhor para a seleção brasileira.” Contestado por ter aceitado o convite de Del Nero para assumir o cargo, meses depois de assinar uma carta exigindo sua renúncia, Tite disse na ocasião que exigiu “autonomia” em seu trabalho de selecionador. Del Nero não descumpriu o acordo – o que também seria uma estupidez, visto o quanto a competência do treinador ajudou a blindá-lo no momento mais turbulento de sua carreira política.

Até mesmo a escolha dos adversários dos amistosos (Argentina e Austrália) já demonstra a evolução na CBF pós-Dunga, Teixeira, Marin e companhia. Nos últimos ciclos de Copa, o Brasil abusou da realização de amistosos “caça-níquel”, contra seleções como Irã, Omã, Bósnia, Iraque, Zâmbia, África do Sul, Honduras, Panamá, etc, todos com a presença quase obrigatória de estrelas como Kaká, Ronaldinho ou Neymar e vitórias fáceis, irrelevantes e lucrativas da seleção. Como se sabe, o time de Tite precisa muito mais de testes do que a CBF de dinheiro – no ano passado, a entidade, mesmo com a perda de patrocinadores, bateu seu recorde de faturamento (647 milhões de reais). 

O preparador físico Fábio Mahseredjian também comentou a ausência de Neymar, lembrando que o jogador não tem férias completas há vários anos – o máximo que teve foram algumas semanas de folga, como quando curtiu Las Vegas com os amigos antes da Olimpíada do Rio, no ano passado.  Tite ainda citou que é benéfico para a seleção atuar algumas vezes sem seu craque. “Uma equipe tem de estar preparada para as diversas situações do jogo. (…) Então, trabalhar não tendo o Neymar também é preparação.” A decisão da comissão técnica é absolutamente acertada, ainda que não ter Neymar diante da Argentina seja uma decepção para todos que apreciam o futebol – o adversário ainda não anunciou sua lista e existe a expectativa de Lionel Messi também ser poupado. É bom que ele descanse para estar bem e motivado no Mundial da Rússia e 2018. Enquanto o Brasil mergulha em uma crise moral, ao menos a CBF parece estar em um caminho melhor.