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Atletas mulheres são mais associadas a seus atributos estéticos

Levantamento feito pela Universidade de Cambridge durante a Olimpíada do Rio revela diferenças na cobertura de esportistas do sexo feminino e masculinos

“Eu não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Eu sou a primeira Simone Biles.” Assim se posicionou a maior ginasta da atualidade — ganhadora de cinco medalhas nos Jogos  Rio 2016 — quando começou a ser comparada a outros monumentos dos esportes olímpicos em meio às competições realizadas no Brasil. Infelizmente, Simone não foi a única atleta mulher a ter seu desempenho considerado a partir da performance de esportistas masculinos. Quando a também americana Corey Cogdell-Unrein, da equipe de tiro, subiu ao pódio, o jornal Chicago Tribune divulgou a notícia pelo Twitter sem mencionar seu nome: “Mulher do atacante dos Bears ganhou medalha de bronze, hoje, na Olimpíada do Rio”.  O marido de Corey, Mitch Unrein, é atacante do time de futebol americano Chicago Bears. O Twitter do diário foi inundado, então, de comentários que apontavam a derrapada. “Mas o que o pai dela faz? Ou o irmão? Eu preciso saber mais sobre os parentes masculinos dessa atleta”, escreveu um leitor — e o Tribune acabou se desculpando pela falha.

Tweet do jornal Chicago Tribune, que omite o nome da atleta Corey Cogdell-Unrein

Tweet do jornal Chicago Tribune, que omite o nome da atleta Corey Cogdell-Unrein (Divulgação)

O site de Veja teve acesso em primeira mão a resultados de um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, feito durante a Rio 2016. O levantamento apontou que as provas masculinas estiveram no ar nas redes de TV por um período 20% maior do que as femininas. Também identificou que as mulheres tendem a ser mais associadas a seus atributos estéticos, enquanto os homens são relacionados a sua habilidade esportiva (veja galeria a seguir). A maneira como as vitórias são relatadas pela imprensa também evidenciou uma diferença notável. Enquanto os homens “afirmam” suas vitórias, as mulheres “conquistam” seus títulos.

Da natação vieram outros exemplos que corroboram a pesquisa inglesa. Depois que a húngara Katinka Hosszu arrematou o ouro e quebrou o recorde mundial na prova 400 metros individual medley, Dan Hicks, locutor esportivo da NBC, rede que detém os direitos de transmissão dos jogos nos Estados Unidos, chamou seu marido e treinador, Shane Tusup, como “o homem responsável” por aquela performance olímpica. Em um jornal do Texas, mesmo depois da famosa nadadora americana Katie Ledecky ter ganhado medalha de ouro e quebrado um recorde mundial nos 800 metros livres, foi Phelps o destaque na manchete, com a notícia de que havia recebido uma medalha de prata. À Katie restou uma menção abaixo dele ( foto).

Notícia de jornal no Texas, que preferiu destacar o segundo lugar de Michael Phelps e não o ouro e o recorde olímpico de Katie Ledecky

Notícia de jornal no Texas, que preferiu destacar o segundo lugar de Michael Phelps e não o ouro e o recorde olímpico de Katie Ledecky (Divulgação)

Os dados colhidos pela Universidade de Cambridge no Rio serão incorporados a um estudo maior da própria instituição, que investiga justamente a diferença na maneira como as pessoas falam sobre atletas olímpicos de ambos os sexos. Cambridge conta com uma base de dados que reúne 160 milhões de palavras em inglês usadas na mídia impressa e televisiva nas últimas três décadas. Disse a pesquisadora linguística Claire Dembry, ao divulgar o conteúdo da análise feita durante a Olimpíada no Brasil: “É reconfortante ver como os jogos olímpicos podem encorajar a igualdade nos esportes. Por outro lado, é desapontador constatar o quanto esses dados se assemelham a nossos levantamentos [realizados em Olimpíadas] anteriores” .