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Ali x Frazier: lições de uma trilogia

As três lutas contra Joe Frazier são o caminho mais curto para entender Ali dentro das quatro cordas

Em tempo de UFC, de banalização de superlativos, todos os combates são o combate do século. Nenhum deles se compara, em brutalidade, técnica e história, à magistral trilogia de lutas entre Muhammad Ali, o maior de todos (e neste caso qualquer superlativo é frágil), e Joe Frazier. Convém deixar de lado o segundo encontro, em janeiro de 1974, porque naquela ocasião nenhum dos dois tinha o cinturão de ouro e disputava-se apenas o título americano. Foi um combate morno, se é que o boxe permite falta de calor. O primeiro e o terceiro confronto, no entanto, são tão indissociáveis do início dos anos 70 do século passado quanto a Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate. Para o jornalista David Remnick, editor da revista The New Yorker, especialista em boxe, “apesar de toda dimensão psicológica e racial do desafio Ali-Frazier nos anos 70, hoje vejo as lutas de um modo puramente isolado, um embate de força interior, capacidade atlética e vontade.” Toda grande noite do UFC, mãos e pés em jogo, tendo o marketing como trilha sonora, parece um desajeitado encontro de namorados quando cotejado com Ali-Frazier I e Ali Frazier-III.

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O tempo de Muhammad Ali

Na primeira luta, em 8 de março de 1971, “a luta do século”, como a chamou a imprensa naquele tempo, o vitorioso foi Frazier, por pontos. Ele defendia o cetro mundial da categoria peso-pesado e o manteve. No décimo-quinto assalto, desferiu aquele que talvez seja o mais violento, animalesco e assustador golpe de boxe que se tem notícia, sobretudo porque levou à lona Muhammad Ali, desacostumado a cair. O gancho de esquerda de Frazier soou no Madison Square Garden de Nova York como o avanço de um Walker Bulldog M-41 a serviço dos vietnamitas. Ali se ergueu, atordoado e desenxabido, aos olhos de milhões pela televisão e de milhares no ginásio. Entre eles, os azuis de Frank Sinatra, que não conseguira ingresso e pediu à direção da revista LIFE para trabalhar como fotógrafo. As fotos (boas) de Sinatra estamparam a capa da publicação na semana seguinte.

A terceira luta foi disputada em 1° de outubro de 1975 em Manila, nas Filipinas. Muitos a consideram – ok, superlativamente, e não há como ser menos-, a maior de todos os tempos, essência da chamada “nobre arte”. No início, foi Ali quem encurralou Frazier. Na metade, foi Frazier quem encurralou Ali. Nos últimos três assaltos, Ali dominou completamente o adversário – para vencer por abandono ao final do 14° round e manter o título mundial que tirara de George Foreman no Zaire, em 1974. “Foi o mais perto que cheguei da morte”, disse Ali, que nos meses que antecederam a disputa tentou transformar Frazier, injustamente, em um “negro de alma branca”, no avesso do ativismo racial e radical de uma era pré-Obama. “Eu bati nele com força suficiente para derrubar os muros de uma cidade”, disse Frazier, que nunca engoliu as bravatas de Ali. “Meu Deus, meu Deus, ele é um grande campeão”, admitiria Frazier, com o sotaque carregado da comunidade negra da Filadélfia, onde manteve um ginásio escuro e mal tratado até 2005. O que Frazier nunca admitiu, ferido como um leão, foram as provocações de Ali. Frazier sentia-se ofendido porque durante muito tempo defendeu o retorno de Ali aos ringues, depois que as autoridades americanas cassaram-no, por ter se negado a combater no Vietnã. Muhammad Ali, enfim, nunca desceu pela garganta de Frazier. Certa vez, indagado sobre o Mal de Parkinson que abatia, calava e entristecia o bailarino dos ringues, Frazier foi mais sincero que aquele fenomenal gancho de 1971. “Tenho muito orgulho, porque o ajudei a chegar nesse estado.” Era a raiva depois de anos de humilhação. Ali chamava Frazier de gorila, tentando colar ao adversário a imagem (racista) de vilão que não lhe cabia – era a vingança, em forma retórica e não de punhos, àquela noite de 1971 em que Frazier teve o azar de vencer uma lenda boquirrota.