Força Expedicionária Brasileira embarca para a Itália -
Primeiro batalhão no 'front' conta com 5.000 homens - Cérebro
do corpo militar nacional é general Mascarenhas de Moraes, que também
já está na área do Mediterrâneo
No teatro de operações: soldados brasileiros
combatendo em trincheira, no 'front' italiano
s mais céticos diziam que o Brasil só iria à guerra
quando uma cobra fumasse. Pois tudo indica que, em algum lugar do país,
um simpático ofídio puxou ao menos um cigarrinho de palha. No início
de julho de 1944, após vários meses de expectativa, os primeiros
soldados brasileiros seguiram rumo à Itália para juntar-se ao time
Aliado que combatia as potências do Eixo. Nos próximos meses, deverão
ser enviados cerca de 25.000 homens da Força Expedicionária Brasileira,
a FEB, à Velha Bota.
O embarque do 1º Escalão verde-amarelo,
sob o comando do general Zenóbio da Costa, no navio norte-americano General
Mann encerra uma longa espera dos brasileiros para finalmente engajarem-se na
batalha contra Itália, Alemanha e Japão. Quando, em dezembro de
1942, Getúlio Vargas anunciou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento
de materiais estratégicos para os países aliados e à simples
expedição de contingentes simbólicos ao front, muitos duvidaram.
O
primeiro passo oficial para a concretização dos planos do presidente
aconteceu em 9 de agosto de 1943. Pela Portaria Ministerial 4.744, publicada em
boletim reservado de 13 do mesmo mês, foi estruturada a FEB, constituída
pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE)
e por órgãos não-divisionários.
A 1ª DIE,
comandada por um general-de-divisão, deveria compreender: um quartel-general
constituído de estado-maior geral, estado-maior especial e tropa especial;
uma infantaria divisionária comandada por um general-de-brigada e composta
de três regimentos de infantaria; uma artilharia divisionária comandada
por um general-de-brigada e composta de quatro grupos de artilharia (três
de calibre 105 e um de calibre 155); uma esquadrilha de aviação
destinada à ligação e à observação;
um batalhão de engenharia; um batalhão de saúde, um esquadrão
de reconhecimento, e uma companhia de transmissão - na verdade, de comunicações.
A tropa especial, além de um próprio comando, deveria incluir o
comando do quartel-general, um destacamento de saúde, uma companhia do
quartel-general, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência,
um pelotão de sepultamento, um pelotão de polícia e uma banda
de música.
Ainda em agosto, o general João Batista Mascarenhas
de Moraes, comandante da 2ª Região Militar, foi convidado pelo ministro
da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, para chefiar uma das divisões da FEB. Em
seguida, o ministro partiu para os Estados Unidos carregando uma carta de Vargas
ao presidente Franklin Roosevelt, em que Getúlio manisfestava o desejo
do Brasil de participar das batalhas ativamente.
...
Material precário
- Na fase de formação e estruturação da FEB, diversos
oficiais foram despachados à terra do Tio Sam para participar de estágios
nas bases militares estadunidenses. Desse modo, puderam se familiarizar com os
procedimentos de combate dos americanos, que substituiriam os métodos franceses,
historicamente ensinados nas escolas militares nacionais. Lá, a tropa brasileiro
se reeducaria para reduzir o emprego das marchas a pé e a utilização
de cavalos, trocando-os por deslocamentos motorizados, rápidos e audazes.
Além
de lidar com a dificuldade de adaptação dos soldados à nova
doutrina, o general Mascarenhas de Moraes teve de vencer diversos obstáculos
para tirar a FEB do papel. Um deles dizia respeito à seleção
do contingente da tropa, sem critérios físicos ou intelectuais.
O material disponível aos expedicionários também era precário.
E, como se não bastasse, figurões do governo, simpáticos
aos países do Eixo, trabalhavam contra a formação do agrupamento
verde-amarelo.
No final de 1943, porém, decidiu-se que o Brasil
mandaria um corpo militar para o teatro de operações do Mediterrâneo.
Chefiando a recém-criada Comissão Militar Brasileira, na qual oficiais
norte-americanos também tomaram parte, Mascarenhas de Moraes viajou à
Itália e à África para observar os combates na região;
antes de retornar, foi oficialmente nomeado chefe da 1ª Divisão de
Infantaria Expedicionária.
Estava quase tudo pronto. Em 15 de maio
de 1944, com a instalação do Estado-Maior Especial, que planejaria
e executaria o embarque da 1ª DIE, ficou claro que não haveria mais
volta. Na madrugada de 30 de junho para 1º de julho, finalmente, a promessa
de Getúlio Vargas se cumpriu. O general Mascarenhas de Moraes e alguns
oficiais de seu Estado-Maior embarcaram ao lado dos homens do 1º Escalão,
que totalizava 5.075 homens - divididos entre um regimento de infantaria, um grupo
de artilharia, uma companhia de engenharia e indivíduos ligados aos setores
de manutenção, reconhecimento, saúde, comunicações,
polícia, justiça, Banco do Brasil e correio. Todos os militares
ostentam no ombro o brasão da Força Expedicionária Brasileira,
cuja heráldica traz uma cobra, logo abaixo da inscrição "Brasil".
O ofídio em questão, é claro, está fumando.
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Trechos
de 'A Cobra Fumou', de Vinícuius Reis (BSB Cinema)