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  SÉRIE ESPECIAL



 
Índice
Entrevista
Winston Churchill
A derrota do nazismo
A morte dos ditadores
A festa da vitória
O Japão ainda resiste
Veja essa
Frases, números, ilustrações
Gente
Leni Riefenstahl
Ernie Pyle
Jack Dempsey
Albert Göring
Knut Hamsun
Ponto de vista
George Orwell
Ilustração
A morte de Hitler

 
Setembro de 1939
Alemanha invade a Polônia
Junho de 1940
A queda da França
Junho de 1941
O ataque à Rússia
Dezembro de 1941
Pearl Harbor
Fevereiro de 1943
Cerco de Stalingrado
Setembro de 1943
Rendição da Itália
Junho de 1944
O Dia D
Fevereiro de 1945
O Holocausto
Agosto de 1945
O fim da guerra

Edição especial
O Brasil na guerra
PONTO DE VISTA: George OrwellVEJA, Maio de 1945
O autor britânico George Orwell vive a guerra de perto desde o início - mas não está esperançoso com seu fim. Na opinião dele, a derrota da Alemanha, ainda que bem vinda, marca o início de uma fase de fortíssima tensão entre as potências vencedoras - que poderão travar um tipo diferente de confronto.
ma explosão não muito distante sacode a casa. Os vidros tremem nas janelas. No cômodo ao lado, as crianças acordam e dão um grito ou dois. Cada vez que isso acontece, eu me pego pensando: "É possível que os seres humanos possam continuar com essa insanidade por muito mais tempo?" Você sabe a resposta, é claro. Na verdade, o mais difícil hoje em dia é encontrar alguém que pense que não haverá outra guerra num futuro razoavelmente próximo.

"De forma muito
visível, o mundo
vem se dividindo
em superestados.
E não é possível
ver seus limites."
 
  
A Alemanha já está derrotada. Com a Alemanha fora do caminho, o Japão não conseguirá enfrentar as forças somadas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. E então haverá uma paz de exaustão, com apenas guerras menores e não-oficiais pipocando por todos os cantos. Talvez essa suposta paz se arraste décadas. Depois disso, porém, pela maneira como o mundo está se moldando, pode muito bem ser que a guerra torne-se permanente.

Já agora, de forma bastante visível, e mais ou menos com a aquiescência de todos nós, o mundo vem se dividindo em dois ou três enormes superestados. Não é possível mensurar seus limites por enquanto – mas é possível observar mais ou menos quais áreas eles deverão abranger. E se o mundo realmente se assentar nessa formação, é provável que esses vastos estados fiquem em permanente estado de guerra uns com os outros, ainda que não necessariamente num tipo muito intenso ou sanguinário de guerra. Seus problemas, tanto os econômicos como os psicológicos, serão muito mais simples se bombas continuarem voando de forma permanente de um lado a outro.
...
  "A educação foi
desvirtuada e a
História reescrita.
E a liberdade de
pensar livremente
foi suprimida."
  
Liberdade suprimida - Se esses dois ou três superestados se estabelecerem, eles não apenas serão grandes demais para serem conquistados como também não terão necessidade alguma de fazer comércio entre eles – e ocuparão uma posição que evitará qualquer contato entre seus cidadãos. Mesmo hoje, e durante os últimos anos, vastas áreas da Terra vêm sendo isoladas umas das outras, mesmo que tecnicamente estejam em paz.

Há alguns meses, em uma coluna, escrevi que as invenções científicas modernas tendem a bloquear, e não aumentar, a comunicação entre as nações. Isso me rendeu muitas cartas irritadas dos leitores, mas nenhuma delas foi capaz de provar que minha afirmação era falsa. Elas meramente retrucaram que, sob o socialismo, as aeronaves, o rádio e outros instrumentos não seriam desvirtuados e usados de maneira equivocada. Talvez seja verdade, mas o fato é que não temos o socialismo. Hoje, a aeronave é primariamente um objeto para despejar bombas, e o rádio, primariamente um objeto para incitar o nacionalismo.

Até mesmo antes da guerra havia muito menos contato entre os povos da Terra do que havia trinta anos antes. Agora a educação foi desvirtuada e a História reescrita. E a liberdade de pensar livremente foi suprimida numa extensão jamais imaginada nas eras anteriores. Não há indício algum de que essas tendências estejam sendo revertidas. Talvez eu seja um pessimista. Mas, de qualquer forma, estes são os pensamentos que passam pela minha mente (e, creio eu, de muitas outras pessoas também) cada vez que a explosão de uma bomba retumba pelo nevoeiro.
George Orwell ,41 anos, é escritor. Editor de Literatura do semanário britânico Tribune, que publicou originalmente este artigo, foi professor, soldado voluntário na Guerra Civil Espanhola e crítico literário do New English Weekly. Durante a guerra, integrou a guarda doméstica britânica e foi propagandista da BBC. Autor de sete romances, Orwell está lançando um novo livro, A Revolução dos Bichos.
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