O autor britânico George
Orwell vive a guerra de perto desde o início - mas não está
esperançoso com seu fim. Na opinião dele, a derrota da Alemanha,
ainda que bem vinda, marca o início de uma fase de fortíssima tensão
entre as potências vencedoras - que poderão travar um tipo diferente
de confronto.
ma explosão não muito distante sacode a casa. Os vidros
tremem nas janelas. No cômodo ao lado, as crianças acordam e dão
um grito ou dois. Cada vez que isso acontece, eu me pego pensando: "É
possível que os seres humanos possam continuar com essa insanidade por
muito mais tempo?" Você sabe a resposta, é claro. Na verdade,
o mais difícil hoje em dia é encontrar alguém que pense que
não haverá outra guerra num futuro razoavelmente próximo.
"De forma muito visível,
o mundo vem se dividindo em superestados. E não é possível
ver seus limites."
A Alemanha já está derrotada. Com a Alemanha fora do caminho,
o Japão não conseguirá enfrentar as forças somadas
da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. E então haverá uma
paz de exaustão, com apenas guerras menores e não-oficiais pipocando
por todos os cantos. Talvez essa suposta paz se arraste décadas. Depois
disso, porém, pela maneira como o mundo está se moldando, pode muito
bem ser que a guerra torne-se permanente.
Já agora, de forma bastante
visível, e mais ou menos com a aquiescência de todos nós,
o mundo vem se dividindo em dois ou três enormes superestados. Não
é possível mensurar seus limites por enquanto mas é
possível observar mais ou menos quais áreas eles deverão
abranger. E se o mundo realmente se assentar nessa formação, é
provável que esses vastos estados fiquem em permanente estado de guerra
uns com os outros, ainda que não necessariamente num tipo muito intenso
ou sanguinário de guerra. Seus problemas, tanto os econômicos como
os psicológicos, serão muito mais simples se bombas continuarem
voando de forma permanente de um lado a outro.
...
"A educação
foi desvirtuada e a História reescrita. E a liberdade de
pensar livremente foi suprimida."
Liberdade suprimida - Se esses dois ou três superestados
se estabelecerem, eles não apenas serão grandes demais para serem
conquistados como também não terão necessidade alguma de
fazer comércio entre eles e ocuparão uma posição
que evitará qualquer contato entre seus cidadãos. Mesmo hoje, e
durante os últimos anos, vastas áreas da Terra vêm sendo isoladas
umas das outras, mesmo que tecnicamente estejam em paz.
Há alguns
meses, em uma coluna, escrevi que as invenções científicas
modernas tendem a bloquear, e não aumentar, a comunicação
entre as nações. Isso me rendeu muitas cartas irritadas dos leitores,
mas nenhuma delas foi capaz de provar que minha afirmação era falsa.
Elas meramente retrucaram que, sob o socialismo, as aeronaves, o rádio
e outros instrumentos não seriam desvirtuados e usados de maneira equivocada.
Talvez seja verdade, mas o fato é que não temos o socialismo. Hoje,
a aeronave é primariamente um objeto para despejar bombas, e o rádio,
primariamente um objeto para incitar o nacionalismo.
Até mesmo
antes da guerra havia muito menos contato entre os povos da Terra do que havia
trinta anos antes. Agora a educação foi desvirtuada e a História
reescrita. E a liberdade de pensar livremente foi suprimida numa extensão
jamais imaginada nas eras anteriores. Não há indício algum
de que essas tendências estejam sendo revertidas. Talvez eu seja um pessimista.
Mas, de qualquer forma, estes são os pensamentos que passam pela minha
mente (e, creio eu, de muitas outras pessoas também) cada vez que a explosão
de uma bomba retumba pelo nevoeiro.
George Orwell ,41 anos, é escritor. Editor de
Literatura do semanário britânico Tribune, que publicou originalmente
este artigo, foi professor, soldado voluntário na Guerra Civil Espanhola
e crítico literário do New English Weekly. Durante a guerra,
integrou a guarda doméstica britânica e foi propagandista da BBC.
Autor de sete romances, Orwell está lançando um novo livro,
A Revolução dos Bichos.