| ENTREVISTA: Winston Spencer Churchill | VEJA,
Maio de 1945 |
| Aclamado pelo mundo democrático,
o grande condutor da campanha militar que derrotou Hitler e o nazismo divide os
louros da vitória e afirma que êxito é de cada um que agüentou
privações, resistiu a ataques e ajudou a ganhar a guerra. 'Mas não
se pode esquecer do Japão, que ainda está insubordinado.' |  |
oram seis anos de sangue, suor, labuta e lágrimas, mas o buldogue
enfim devorou o lobo. A fera britânica jamais se convenceu com o disfarce
de cordeiro da besta nazista - tanto que, contrariando o próprio partido,
defendeu um enfrentamento com Adolf Hitler enquanto políticos do Ocidente
só falavam em apaziguamento. Depois, quando os caninos afiados do ditador
alemão morderam meia Polônia, foi a hora de voltar ao Almirantado,
ajudando a azeitar a máquina de guerra britânica, e finalmente assumir
o leme, alguns meses depois, ocupando o posto de primeiro-ministro no lugar de
Neville Chamberlain, o manso gatinho que caíra na armadilha nazista. Winston
Spencer Churchill foi, de fato, o grande timoneiro da épica jornada encerrada
neste mês em Berlim. "A vitória é de vocês",
discursou, modesto, no último dia 8, na sacada do Ministério da
Saúde, em Londres. "Não, é sua!", rebateu a multidão,
em um forte coro, reconhecendo a vital importância do líder para
o triunfo aliado. Churchill, dono de vigor impressionante para seus agitados 70
anos de vida, sorriu e fez o "V" da vitória com a mão
direita. Mas o champanhe Pol Roger, seu favorito, ficou no balde de gelo - e seus
projetos pendentes, como voltar a pintar e concluir os quatro volumes de História
dos Povos de Língua Inglesa, continuaram na gaveta. No dia seguinte,
Churchill já estava de volta ao ringue, vestindo as luvas para ajudar a
nocautear o Japão. Nesta entrevista, ele avisa: só ficará
satisfeito quando o império nipônico estiver de joelhos. "Devemos
devotar toda a nossa força e todos os nossos recursos ao cumprimento dessa
tarefa." VEJA - A derrota da Alemanha
é motivo de orgulho e celebração para todos os Aliados, mas
a Grã-Bretanha foi o único país a combater Hitler do início
ao fim do conflito. A queda do Terceiro Reich tem um gosto especial para os britânicos? Churchill
- Penso que não. Declaramos guerra logo depois da ilegal agressão
alemã. Depois da derrocada da França, sustentamos a luta sozinhos
por um ano inteiro antes que o poderio militar da União Soviética
se juntasse a nós. Então chegou a impressionante força dos
Estados Unidos. Mas depois, finalmente, o mundo quase inteiro uniu-se contra os
malfeitores, e agora eles estão prostrados diante de nós. A gratidão
parte de todos os corações desta ilha e de todo o Império
Britânico para todos os nossos esplêndidos aliados.
| | "O mundo quase inteiro
uniu-se e combateu esses malfeitores, que agora se curvam diante de nós." |
| | | VEJA
- Quando o senhor e os outros líderes aliados declararam o fim da
guerra na Europa, os alemães ainda lutavam em alguns pontos do país.
A comemoração foi precoce? Churchill - De forma alguma.
Não seria surpresa que num front tão extenso e entre tamanha desordem
dos inimigos as ordens do alto comando alemão não chegassem e fossem
obedecidas imediatamente. Na minha opinião, depois de ouvir os melhores
conselhos militares disponíveis, não havia qualquer motivo para
ocultar as informações transmitidas pelo general Dwight Eisenhower
sobre a rendição alemã, nem para adiar as comemorações
do Dia da Vitória na Europa.VEJA - O senhor foi o grande adversário
de Hitler nesta guerra. Considera a derrota de seu antagonista uma vitória
pessoal? Churchill - Veja bem, esta vitória é de todos
os britânicos. É também a vitória da causa da liberdade
em todo o planeta. Em toda a nossa longa história jamais vimos um dia tão
glorioso quanto o dia da vitória contra o nazismo. E todos os homens e
mulheres fizeram o seu melhor. Todos tentaram. Nem mesmo os longos anos, nem os
perigos, nem os ferozes ataques do inimigo enfraqueceram de qualquer forma a convicção
independente da nação britânica. Que Deus abençoe a
todos por isso. VEJA - Mas os triunfos do governo sob seu comando
não foram suficientes para impedir manifestações contrárias
da oposição no Parlamento durante a guerra. Churchill
- Todos nós podemos cometer erros. Mas a força da instituição
parlamentar garantiu ao mesmo tempo a manutenção das bases da democracia
e o esforço de guerra em sua forma mais firme e prolongada. Já expressei
minha profunda gratidão à Câmara dos Comuns, que provou no
curso da guerra ser a mais forte fundação já vista em toda
a nossa história. Agradeço a todos os integrantes de todos os partidos
pela vivacidade com que a instituição parlamentar foi mantida sob
o fogo do inimigo, e pela perseverança sustentada até que todos
os objetivos fossem alcançados.
| "Ficamos sozinhos por um ano inteiro. Lá
estávamos, sem ninguém. Alguém pensou em desistir, desanimou? Não." | |
| | | VEJA
- Por falar em perseverança, os britânicos agüentaram
seis anos de privações e sofrimento nesta guerra. Há algum
tipo de ressentimento pela falta de apoio das outras nações no início
da luta. Churchill - Não, porque fomos capazes de mostrar
todo o nosso valor. Fomos os primeiros a erguer a espada contra a tirania. Depois
de pouco tempo, estávamos lutando sozinhos contra a mais tremenda potência
militar já vista. Ficamos sozinhos por um ano inteiro. Lá estávamos,
sem ninguém. Alguém pensou em desistir? Não. Alguém
se desanimou? Não. As luzes se apagaram e as bombas caíram. Mas
todos os homens, mulheres e crianças do país nem sequer pensaram
em fugir da luta. Londres soube suportar tudo. Depois de alguns meses, saímos
das mandíbulas da morte e fugimos da boca do inferno enquanto o mundo todo
se perguntava: quando a reputação e a fé desta geração
de britânicos falhará? VEJA - E qual será
a herança desta geração de britânicos para seus descendentes? Churchill
- Nos longos anos que vêm pela frente, ela influenciará não
apenas para o povo desta ilha, mas também todo o mundo. Sempre que o canto
da liberdade ecoar nos corações humanos, as pessoas verão
o que fizemos e dirão: "Não se desesperem, não se curvem
à violência e tirania, marchem sempre adiante e morram se assim for
preciso, mas jamais sejam conquistados". Temos um terrível opositor caído
ao chão, esperando nosso julgamento e nossa misericórdia. Bem, mas
ainda há outro opositor ocupando grandes porções do Império
Britânico, um opositor cheio de crueldade e ganância. VEJA
- O senhor fala, é claro, dos japoneses. Churchill -
Correto. Podemos nos permitir um breve período de deleite, mas não
devemos nos esquecer em momento algum da labuta que ainda está pela frente.
O Japão, com sua traição e egoísmo, continua insubordinado.
A injúria que ele infligiu na Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros
países e suas detestáveis crueldades pedem justiça e retribuição.
Devemos agora devotar toda a nossa força e todos os nossos recursos ao
cumprimento de nossa tarefa, tanto dentro de casa como fora. VEJA -
Enquanto isso, o senhor enfrentará outra batalha: reerguer seu país. Churchill
- É verdade. Precisamos começar o trabalho de reconstrução
de nossas casas, fazendo o máximo para tornar esse país uma terra
em que todos tenham uma chance, em que todos tenham uma missão. E devemos
nos dedicar a cumprir a obrigação que ainda temos com nossos próprios
compatriotas e com nossos bravos aliados americanos. Caminharemos de mãos
dadas com eles. Mesmo que enfrentarmos a mais árdua luta, não seremos
nós que falharemos. |