VEJA, Fevereiro de 1945
Conferência em Yalta começa a redefinir desenho da Europa - Estratégias militares ficam em segundo plano diante das negociações diplomáticas - Stalin deixa a Criméia como o grande vitorioso do encontro de Aliados
Os três gigantes reunidos na Criméia: Churchill, FDR e Stalin já discutiram o pós-guerra

nquanto os soldados aliados seguiam destroçando as forças do Reich em batalhas por toda a Europa, seus líderes encontraram-se novamente no início do mês para mais uma semana de conferências. Desta vez, a reunião aconteceu às margens do mar Negro, em Yalta, na Criméia, sob as abóbadas de um antigo palácio czarista - atualmente sob o jugo de infernais pernilongos. Entre os dias 4 e 11, Winston Churchill, Franklin Roosevelt, Josef Stalin e mais 700 conselheiros militares discutiram, entre vários outros assuntos, a redefinição das fronteiras do Velho Continente - prova de que a vitória aliada já é vista por eles como líquida e certa.

Acordou-se que a Alemanha, tão logo abaixe suas fatigadas armas, será retalhada em quatro zonas de ocupação, uma para cada integrante do Trio de Ferro - Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética - e uma quarta para a França, dona de um competentíssimo corpo de diplomacia responsável por garantir o que seu Exército não foi capaz de obter.

Também foram definidos os novos governos para dois países já liberados do tacape germânico. A Iugoslávia será regida por uma parceria entre o primeiro-ministro monarquista Ivan Subasich e o famigerado líder guerrilheiro Josip Broz, o Marechal Tito - cujo Exército da Libertação Nacional fora responsável, ao lado das forças soviéticas, pela emancipação de Belgrado em outubro de 1944. Já o governo de Lublin, patrocinado por Stalin, assumirá o comando da Polônia - com a participação direta, porém, de figurões de Londres.

Segredos e rivalidade - Se as reuniões anteriores entre os manda-chuvas aliados versavam principalmente sobre as estratégias militares, Yalta ficou mesmo marcada pelas negociações diplomáticas acerca do mundo pós-guerra. Outra conseqüência de grande impacto do encontro foi a concretização de um pacto entre União Soviética e Estados Unidos - trato subterfugiamente acertado pelas costas de Churchill. Pelo acordo, os norte-americanos concordam em atender uma série de reivindicações dos camaradas em troca da entrada do Exército Vermelho na guerra contra o Japão.

Stalin conseguiu a preservação do status quo da Mongólia - independente, mas virtualmente sob o comando bolchevique - , o retorno da porção meridional das ilhas Sakhalin à União Soviética e também o controle total das ilhas Kurile. Além disso, recebeu de Roosevelt a garantia de que o líder chinês Chiang Kai-Shek, aliado dos EUA, não se oporia a essas resoluções - que incluíam também uma base naval soviética na China.

Os ganhos do líder comunista diante dos americanos são deveras surpreendentes, principalmente quando se leva em conta a acirrada rivalidade entre os dois países. Analistas, porém, creditam as cessões de Roosevelt a uma crescente falta de confiança do presidente ianque em relação à utilidade de Chiang como um aliado nas batalhas contra os nipônicos no Pacífico. Fica, então, a questão: será o Exército Vermelho o fiel da balança também na terra do sol nascente?