Nos dois primeiros anos desta guerra,
o franco-argelino Albert Camus dizia ser contra a resistência armada. Mas,
em 1941, viu um amigo ser morto na ocupação alemã. Desde
então, Camus segue de perto a revolta - e neste texto, escrito em meio
à libertação de Paris, fala sobre o triunfo contra o nazismo.
nquanto as balas da liberdade ainda assobiam através da cidade,
os canhões da libertação adentram os portões de Paris
entre gritos e flores. Na mais bela e quente das noites de agosto, as eternas
estrelas sobre Paris se misturam aos rastros de balas, à fumaça
dos incêndios, e aos foguetes coloridos de uma celebração
em massa. Esta noite sem paralelos marca o fim de quatro anos de história
monstruosa e de uma indescritível luta na qual a França entrou em
sintonia com sua vergonha e sua ira.
Aqueles que jamais se desesperaram
sobre si mesmos ou sobre seu país encontram sua recompensa sob esse céu.
Esta noite vale um mundo inteiro; é a noite da verdade. Verdade sob armas
e em ação, verdade sustentada pela força depois de tanto
tempo de mãos vazias e sem proteção. Ela está por
todos os lados nesta noite, quando as pessoas e os canhões retumbam simultaneamente.
É a própria voz do povo e dos canhões; ela é a face
exausta dos guerrilheiros de rua, triunfantes com suas cicatrizes e seu suor.
Sim, é de fato a noite da verdade, da única verdade que importa,
da verdade disposta a lutar e conquistar.
...
"O preço foi alto. Ele tinha
todo o peso do sangue e a terrível dureza das prisões.
Mas ele tinha de ser pago."
Peso do sangue - Quatro anos atrás, os homens se levantaram
entre as ruínas e o desespero e calmamente declararam que nada estava perdido.
Disseram que precisávamos continuar adiante e que as forças do bem
sempre superariam as forças do mal se estivéssemos dispostos a pagar
o preço. Eles pagaram o preço. E, certamente, esse preço
foi alto; ele tinha todo o peso do sangue e a terrível dureza das prisões.
Muitos desses homens estão mortos, enquanto outros vêm vivendo por
anos cercados por paredes sem janelas. Esse era o preço que tinha de ser
pago. Mas esses mesmos homens, se pudessem, não nos culpariam por essa
terrível e maravilhosa alegria que nos eleva e arrebata como uma maré
alta.
Porque nossa alegria não quebra a confiança deles.
Pelo contrário, ela os justifica e declara que eles estavam certos. Unidos
no mesmo sofrimento por quatro anos, ainda estamos juntos na mesma excitação;
conquistamos nossa solidariedade. E de repente estamos estupefatos de ver, durante
esta noite deslumbrante, que, por quatro anos, nós jamais estivemos sozinhos.
Vivemos os anos da fraternidade.
...
"Ninguém
é capaz de viver sempre entre a violência. A felicidade
e a afeição ainda terão seu momento."
A paz
prometida - Duros combates ainda estão pela frente. Mas a paz deve
retornar a esse planeta despedaçado e aos corações torturados
por todas as esperanças e memórias. Ninguém é capaz
de viver sempre entre assassinatos e violência. A felicidade e a afeição
terão sua hora. Mas essa paz não nos encontrará esquecidos.
E, para alguns entre nós, as faces de nossos irmãos desfiguradas
por balas e a grande irmandade viril dos últimos anos jamais nos abandonarão.
Que os nossos camaradas mortos aproveitem por eles mesmos a paz que é prometida
a nós durante essa noite de pintura, pois eles já conquistaram-na.
Nossa luta será a deles.
Nada é dado aos homens, e o pouco
que eles conquistam é pago com mortes injustas. Mas a grandeza do homem
está em outro lugar. Está em sua decisão de ser mais forte
que sua condição. E se sua condição é injusta,
ele tem apenas uma forma de superar isso, que é ele mesmo ser justo. Nossa
verdade nesta noite, que paira sobre nossas cabeças neste céu de
agosto, é justamente o que consola os homens. E nossos corações
estão em paz, assim como os corações de nossos camaradas
mortos estão em paz, porque podemos dizer, enquanto a vitória retorna,
sem qualquer espírito de vingança ou de rancor: "Fizemos o
que foi necessário".
Albert Camus ,31 anos, é filósofo, jornalista
e escritor. Nascido na Argélia, ele fundou o Théâtre du Travail
e trabalhou em publicações como Paris-Soir. Por ter tuberculose,
foi impedido de se alistar no Exército da França. Em 1943 tornou-se
o editor do Combat, o jornal clandestino do grupo de resistência
de mesmo nome.