Em júbilo com as recentes
vitórias de sua máquina militar, o líder máximo da
potência comunista afirma que os nazistas estão à beira da
aniquilação total. Para Stalin, só falta saber qual será
a data da rendição definitiva dos alemães: 'Nem mesmo toda
a astúcia do mundo poderá salvar os inimigos'.
cumular poder e atropelar inimigos não são as únicas
especialidades do marechal Josef Stalin. O georgiano que governa os soviéticos
desde os anos 20 é perito em guinadas espetaculares, com enredos tão
inesperados e envolventes quanto as obras-primas nascidas das penas de Tolstói
e Dostoiévski. Primeiro, passou de pacato seminarista a incendiário
militante político; depois, de paupérrimo filho de camponeses a
todo-poderoso de uma gigantesca nação. Em sua mais recente mutação,
Stalin viu-se subitamente alçado ao status de respeitadíssimo chefe
de estado - desde que dividiu uma mesa com Winston Churchill e Franklin Roosevelt,
há pouco mais de um ano, durante a Conferência de Teerã, o
camarada de ferro integra a cúpula da aliança mais poderosa já
vista na História. Nada mau para um homem que, antes desta guerra, não
passava de um crudelíssimo ditador visto com desprezo pelo Ocidente. Êxito
algum apagará seu vasto e diverso currículo de atrocidades -
que, conforme relatos de dissidentes soviéticos, inclui o extermínio
de milhões de pessoas. Mas a importância de Stalin e seus comandados
para a iminente derrota alemã é incontestável. Nesta entrevista,
o líder soviético fala sobre as recentes vitórias do Exército
Vermelho, sobre a relação com americanos e britânicos e sobre
as implicações do sucesso dos Aliados: "Os nazi-fascistas estão
sofrendo não só uma derrota militar, mas também uma derrota
política e moral".
...
VEJA - As tropas soviéticas
vêm avançando com rapidez e força espetaculares. Quando conseguirão
alcançar Berlim? Stalin - Há evidências de
que o Exército Vermelho cumprirá essa tarefa num futuro não
muito distante. Em quarenta dias de ofensiva nos últimos dois meses, nossas
tropas desalojaram os alemães de 300 cidades, capturaram cerca de 100 fábricas
de tanques, aviões, armas e munições, ocuparam 2.400 estações
de trem e passaram a controlar uma malha ferroviária de mais de 15.000
quilômetros. Nesse curto período a Alemanha teve mais de 350.000
homens capturados e nada menos que 800.000 mortos. No mesmo intervalo, o Exército
Vermelho destruiu cerca de 3.000 aviões e mais de 4.500 tanques. No front
todo, numa faixa de 1.200 quilômetros, demolimos as poderosas defesas dos
alemães, construídas ao longo de muitos anos. Os hitleristas vangloriavam-se
dizendo que nenhum soldado inimigo colocara os pés no solo alemão
em mais de 100 anos e que seu exército lutaria apenas em solo estrangeiro.
Pusemos um fim nessa jactância.
"Em seu quarto
ano de guerra, o Exército Vermelho soviético é mais
sólido e poderoso do que nunca."
VEJA - No início da guerra, analistas militares diziam
que a URSS levaria três anos para construir uma força bélica
capaz de vencer. Hitler atacou antes e seu país teve problemas no início
dos combates. Qual é a sua avaliação do estágio atual
das forças militares soviéticas? Stalin - O Exército
Vermelho tornou-se uma força formidável e já é superior
ao inimigo em capacidade de lutar e em recursos materiais. Ele foi criado pelo
grande Lênin justamente para proteger nosso país dos agressores estrangeiros,
e acaba de percorrer uma gloriosa rota de desenvolvimento. Nossa atual ofensiva
mostrou que o Exército Vermelho encontra maneiras de resolver problemas
de complexidade cada vez maior. Os valentes soldados aprenderam a esmagar e destruir
os inimigos de acordo com todas as regras da ciência militar moderna. Vêm
praticando milagres de heroísmo e auto-sacrifício, combinando a
braveza e ousadia na batalha com o aproveitamento total do poder de suas armas.
Em seu quarto ano de guerra, o Exército Vermelho é mais sólido
e poderoso do que nunca.
VEJA - Mas tudo ficou mais fácil
quando os Aliados decidiram abrir um segundo front na Europa, algo que o senhor
pedia havia anos... Stalin - Sim, sem dúvida. Conforme minha
previsão, o inimigo não conseguiu agüentar os golpes conjuntos
das tropas aliadas e do Exército Vermelho. Sem a organização
desse segundo front, nossas forças seriam incapazes de quebrar a resistência
alemã e expulsar os inimigos das nossas fronteiras em tão pouco
tempo. Mas é preciso lembrar também que, sem as operações
do Exército Vermelho, as tropas dos países aliados não seriam
capazes de lidar tão rápido com as tropas alemãs e derrotá-las
na Itália, França e Bélgica. Essa foi a chave da vitória.
VEJA - A URSS é o único país comunista entre
as principais potências aliadas. Como é a relação do
senhor com os americanos e britânicos, que antes da guerra o tratavam como
um rival no campo ideológico? Stalin - Nossa convivência
é muito amigável. Durante toda a guerra, os hitleristas fizeram
esforços desesperados para desunir os Aliados, para colocá-los uns
contra os outros, para fomentar suspeição e hostilidade entre eles.
É compreensível que tenham feito isso. Não há nada
mais perigoso para eles do que uma aliança forte contra o imperialismo
de Hitler. Mas os esforços dos políticos fascistas foram em vão,
como todos hoje sabem. A aliança entre a URSS, os EUA e a Grã-Bretanha
não é baseada em motivos casuais e temporários, mas em interesses
de importância vital. A decisão tomada na Conferência de Teerã
pela realização de missões conjuntas contra a Alemanha e
a brilhante execução dessa decisão são exemplos notáveis
da consolidação da coalizão anti-Hitler.
"É claro que há discordâncias.
No fim, porém, elas são resolvidas por nossos líderes
em plena harmonia."
VEJA - Mas não há discordâncias significativas
sobre os métodos e objetivos da guerra? Stalin - É
claro que há discordâncias, e haverá outras mais no futuro.
Discordâncias podem existir até entre pessoas de um mesmo partido;
entre os representantes de diferentes partidos e diferentes nações,
mais ainda. O mais surpreendente não é o surgimento de discordâncias,
mas sim o fato de que elas são tão raras, e que, via de regra, são
resolvidas em espírito de união. Não são as discordâncias
que importam, mas sim o fato de que elas não ultrapassam limites ditados
pelo interesse conjunto das três grandes potências. No fim, são
resolvidas em plena harmonia.
VEJA - O senhor não teme
que os alemães repitam no front soviético uma ofensiva como a de
Ardennes, que desencadeou a Batalha do Bulge e impingiu baixas significativas
aos EUA? Stalin - Bem, é possível que isso ocorra.
Nosso condenado antagonista está usando suas últimas forças
e oferecendo uma resistência desesperada para escapar de um implacável
castigo. Está se agarrando aos mais extremos e desprezíveis métodos
de luta. Desta forma, quanto mais próxima a vitória, maior deve
ser nossa vigilância e mais fortes devem ser os golpes que desferimos contra
o inimigo. De qualquer forma, a toca da besta fascista está cercada por
todos os lados. Nem toda a astúcia do mundo salvará o inimigo da
completa e inevitável derrota. Os Aliados vencerão a guerra contra
a Alemanha, e disso já não há mais dúvida alguma.
Vencer essa guerra significa consumar uma grande causa histórica. Mas vencer
não significa garantir uma paz duradoura aos nossos povos. A tarefa não
é só vencer a guerra, mas também evitar outra guerra, pelo
menos por um bom tempo.
VEJA - E como o senhor pretende fazer
isso? Stalin - Depois que for derrotada, a Alemanha será
totalmente desarmada, é claro. Não só militarmente e politicamente,
mas também economicamente. Mas seria ingenuidade pensar que ela não
tentará recuperar sua força e embarcar em novas agressões.
Todos sabem que os governantes alemães já estão fazendo planos
para outra guerra. A História mostra que mesmo um período muito
curto, de vinte ou trinta anos, pode ser suficiente para permitir que a Alemanha
se recupere de uma derrota e reconquiste sua força bélica.
"Hitler já colocou
o planeta inteiro contra a Alemanha. A chamada 'raça superior' tornou-se
alvo do ódio geral."
VEJA - Mas como evitar as agressões dos outros países?
E, se outra guerra surgir, como impedir que ela se transforme num grande conflito
de amplitude mundial, como o de agora? Stalin - É impossível
negar que as nações pacíficas podem ser surpreendidas por
novas agressões no futuro. Mas isso só ocorrerá se elas falharam
em criar medidas especiais capazes de impedir essas agressões. Além
de desarmar completamente as nações agressoras, há só
uma forma de se conseguir isso: montar uma organização especial
com representantes de países pacíficos, para proteger a paz e garantir
nossa segurança. Será preciso colocar à disposição
de seu comando uma força militar capaz de impedir as agressões,
e fazer com que essa força seja usada sem demora para prevenir ou liquidar
possíveis ataques e punir os responsáveis por eles. Ela não
deve ser uma mera réplica da Liga das Nações, de triste memória,
que não tinha poderes nem meios de impedir agressões. Deve ser uma
organização internacional nova, especial, forte. Ela pode ser eficaz?
Sim, se os países pacíficos mantiverem um espírito de unanimidade
e harmonia.
VEJA - O senhor acredita que o nazismo e o fascismo
sobreviverão depois da guerra, ressurgindo no futuro? Stalin
- Impossível. Os nazi-fascistas estão sofrendo não só
uma derrota militar, mas também uma derrota política e moral. A
ideologia da igualdade de todas as raças e da amizade entre as nações
conquistou uma vitória incontestável contra a ideologia do nacionalismo
brutal e do ódio racial. Com sua política canibalesca, Hitler mobilizou
o mundo inteiro contra a Alemanha. A chamada "raça superior"
tornou-se o alvo do ódio universal. Mas vale ressaltar que os soviéticos
não odeiam os alemães por causa de preconceitos raciais ou questões
nacionalistas. O povo soviético odeia esses invasores não porque
eles são de outro país, mas porque eles causaram sofrimento e infortúnio
impensáveis a nós. Nosso povo tem um velho ditado: "O lobo
não é caçado só porque é cinza, mas porque
devora o carneiro".
VEJA - O povo soviético chega
à etapa final desta guerra com uma imagem muito diferente de antes, em
especial no mundo ocidental. Ninguém nega o papel decisivo de seu país
para deter Hitler. Qual é o significado disso para o senhor? Stalin
- Agora que a guerra se aproxima de um fim triunfante, o papel histórico
assumido pelo povo soviético enfim se destaca em toda a sua grandeza. Nosso
povo se privou de muitas coisas, suportou voluntariamente severos apuros. Todos
admitem agora que, através de toda a sua luta e sacrifício, o povo
soviético salvou a civilização européia dos golpistas
fascistas. Este é o grande serviço histórico prestado pelo
nosso país a toda a humanidade. Enfim, nosso povo conquistou de forma merecida
a fama de nação brava e heróica.