Veterano de importantes conflitos
(foi à Grande Guerra e à Guerra Civil da Espanha), Ernest Hemingway
viajou à Europa para participar da ofensiva contra o nazismo. No Dia D,
o escritor americano entrou numa balsa aliada - e, neste texto, ele conta o que
viu em seu desembarque na costa da França.
inguém se lembra do dia da Batalha de Shiloh, na Guerra Civil dos
Estados Unidos. Mas o dia em que tomamos a praia de Fox Green foi o 6 de junho
de 1944, e o vento estava soprando forte de noroeste. Enquanto avançávamos
rumo à praia na cinzenta luz do amanhecer, balsas de 10 metros em formato
de caixão eram golpeadas por sólidos cobertores de água verde,
que caíam nos capacetes dos soldados colocados ombro a ombro na dura, desconfortável
e solitária companhia de homens que rumam à batalha. Havia caixotes
de TNT, com salva-vidas de borracha amarrados neles para que flutuassem, e pilhas
de foguetes e bazucas acondicionadas em capas à prova d'água, que
lembravam aqueles casacos transparentes que as universitárias costumam
usar quando chove.
"Enquanto a balsa seguia, a água
verde tornava-se branca, chegava castigando os homens, armas e as caixas de TNT."
Enquanto
a balsa seguia, a água verde tornava-se branca e chegava dando pancadas
nos homens, nas armas e nas caixas de explosivos. Adiante era possível
ver a costa da França. O ronco cinzento e o corpanzil dos guindastes de
transporte estavam para trás agora e, por todo o mar, barcos engatinhavam
rumo à França. Enquanto nossa embarcação escalava
a crista de uma onda, via-se a silhueta baixa de dois navios e dois grandes vagões
de batalha curvados na margem. Via-se os flashes brilhantes de suas armas e a
fumaça marrom que empurrava o vento. Então, no verde topo de uma
colina, jorraram duas altas colunas de terra e fumaça. "Veja o que
eles estão fazendo com aqueles alemães", ouvi um recruta dizer
sob o rosnado do motor. "Acho que nenhum homem sairá vivo dali",
afirmou ele, contente.
Esta foi a única coisa que lembro ter ouvido
de um recruta durante a manhã toda. Eles falavam uns com os outros, mas
não era possível ouvi-los com o barulho que o motor a diesel de
225 cavalos fazia. Na maioria do tempo, porém, ficavam em silêncio,
sem falar nada. Não vi ninguém sorrir depois que deixamos a companhia
de um navio de ataque. Eles haviam visto o monstro misterioso que vinha nos ajudando,
mas agora ele estava longe, e estávamos sozinhos de novo. Agora era possível
ver a costa em todos os detalhes à frente de nós. Havia navios de
desembarque avançando pelo mar cinzento até onde os olhos podiam
alcançar. O sol estava coberto e a fumaça soprava por todo o litoral.
...
Cuspindo água - Gostaria
de poder escrever mais sobre o que significa conduzir uma balsa através
de um canal cheio de minas - a precisão matemática das manobras;
o detalhamento sem fim; a exatidão cronométrica e o timing perfeito
de tudo, da hora em que a âncora sobe até a hora em que a balsa desce
numa onda. A história de todo o trabalho de equipe por trás disso
ainda deve ser escrita - mas para contar isso tudo levaria um livro inteiro, e
este é só o relato de como foi estar numa balsa no dia que conquistamos
a praia de Fox Green. Comigo estavam Thomas E. Nash, engenheiro de Seattle, com
um bom sorriso e sem dois dentes; Edward F. Banker, sinalizador do Brooklyn; Lacey
T. Shiflet de Orange, Virgínia, que seria o atirador se tivéssemos
espaço para armas; Frank Currier, o timoneiro de Saugus, Massachusetts,
além do tenente Robert Anderson, de Roanoke, Virgínia.
"Abaixei a minha cabeça
sob o forte ruído que passava sobre nós. Depois, me escondi
em um buraco na popa."
Enquanto nossa balsa acelerava rumo à praia, sentei na popa para
ver o que enfrentaríamos. Sequei meus binóculos e dei uma boa olhada
na costa. Ela se aproximava muito rápido de nós. Pouco depois, entramos
numa castigada zona que ficava bem na mira de duas metralhadoras. Abaixei a minha
cabeça sob o forte zumbido que passava sobre nós. Então me
escondi no buraco da popa onde o atirador estaria se tivéssemos alguma
arma. Os tiros da metralhadora levantavam a água ao redor da balsa, e uma
bomba antitanque espirrou um jato d'água sobre nós. Enquanto girávamos
num pivô e recuávamos, o fogo da metralhadora cessou. Mas tiros aleatórios
continuavam zunindo acima de nós e cuspindo água ao redor. Levantei
minha cabeça de novo e agora via a costa ao meu lado.
Lentamente,
laboriosamente, como se fossem Atlas carregando o mundo em seus ombros, os homens
conquistavam o vale à direita. Não estavam atirando. Só avançavam
lentamente como um trem cansado no fim do dia, viajando na rota inversa ao caminho
de casa. Outro barco vinha em nossa direção, se afastando da praia.
Quando passamos, um homem gritou com um megafone: "Há feridos naquela
balsa e ela está afundando! Vocês podem ir até lá?"
Não foi fácil trazer a bordo um homem baleado no abdome - não
havia espaço para baixar a rampa entre os obstáculos próximos
à praia. Não sei por que os alemães não atiraram em
nós, a não ser que algum destróier tivesse acertado as trincheiras
com metralhadoras. Ou talvez estivessem esperando que explodíssemos com
as minas. Certamente tinham feito um grande esforço para colocá-las
e talvez quisessem vê-las funcionando. Durante todo o tempo em que fazíamos
nossa manobra esperei que as armas disparassem contra nós.
...
Pedaço de alemão
- Enquanto a rampa da balsa baixava pela primeira vez, vi três tanques
se aproximando pela água, quase imóveis de tão lentos. Os
alemães os deixaram cruzar o espaço aberto. Estavam numa linha de
tiro perfeita. Aí vi uma pequena fonte d'água jorrar bem ao lado
do primeiro tanque. Então a fumaça surgiu e vi dois homens mergulhando
fora da torre, caindo agachados sobre pedras na praia. Eles estavam perto o bastante
para que eu pudesse ver seus rostos, mas nenhum outro homem saiu do tanque enquanto
ele começava a pegar fogo. A essa altura, tínhamos o rapaz ferido
e os sobreviventes a bordo, com a rampa fechada, e começávamos a
recuar, sentindo os obstáculos no chão. Quando o último estava
superado, e Currier acelerou forte o motor para alcançar o mar, outro tanque
começava a queimar. Levamos o garoto ferido até outro navio.
"Foi uma ofensiva frontal, e em plena luz
do dia, contra uma praia minada defendida por todo tipo de obstáculo."
Ao mesmo
tempo, os destróieres estavam praticamente na praia, explodindo tudo o
que viam pela frente. Vi um pedaço de quase um metro de alemão voar
alto em meio a uma explosão. Me fez lembrar de uma cena do balé
Petrouchka de Stravinsky. A infantaria já tinha varrido o vale à
nossa esquerda e invadido aquele sulco. Agora não havia mais motivo para
esperar. Corremos até um bom ponto avistado na praia e colocamos nossos
soldados, seu TNT, suas bazucas e seu tenente na areia, e foi isso. Os alemães
ainda disparavam com suas armas antitanques, soltando o gatilho enquanto buscavam
o alvo desejado. Morteiros ainda cobriam a praia de fogo. Eles deixaram seus atiradores
na areia, e quando finalmente fomos embora, ficou claro que todas aquelas pessoas
ficariam ali ao menos até escurecer.
Perdemos seis balsas iguais
à nossa entre as 24 que desceram conosco, mas muitos dos tripulantes devem
ter sidos resgatados por outros navios. Foi uma ofensiva frontal, e em plena luz
do dia, contra uma praia minada defendida por todos os obstáculos que a
engenhosidade militar seria capaz de projetar. A praia foi defendida tão
teimosamente e tão inteligentemente quanto possível. Mas todas as
balsas do nosso setor entregaram suas tropas e suas cargas na areia. Nenhuma balsa
foi perdida por erro de navegação. Todas as que foram perdidas foram
alvo da ação dos inimigos. E tínhamos conquistado a praia.
Há muitas coisas que eu não escrevi aqui. Poderia escrever por uma
semana e ainda assim não daria crédito a todos pelo que fizeram
num front de mil metros. A guerra de verdade nunca é como a guerra no papel,
nem sua descrição é lida do jeito que realmente é.
Mas se você quer saber como foi estar numa balsa no Dia D, quando conquistamos
a praia de Fox Green, em 6 de junho de 1944, isso é o mais perto que consigo
chegar.
Ernest Hemingway ,44 anos, é escritor e colaborador
da revista Colliers. Entre seus livros estão Adeus às
Armas, O Sol Também se Levanta, Por Quem os Sinos Dobram, Torrentes da
Primavera e a coleção de contos As Neves do Kilimanjaro.