Índice
Entrevista
Franklin Roosevelt
Invasão no Dia D
A resistência alemã
Jornalistas em ação
Perfil
Dwight Eisenhower
Veja essa
Frases, números, ilustrações
Gente
Clark Gable
Louis Armstrong
Dashiell Hammett
Frank Sinatra
Josephine Baker
Ponto de vista
Ernest Hemingway
Mapa
Dia D: a invasão

 
Setembro de 1939
Alemanha invade a Polônia
Junho de 1940
A queda da França
Junho de 1941
O ataque à Rússia
Dezembro de 1941
Pearl Harbor
Fevereiro de 1943
Cerco de Stalingrado
Setembro de 1943
Rendição da Itália
Fevereiro de 1945
O Holocausto
Maio de 1945
Queda do III Reich
Agosto de 1945
O fim da guerra

Edição especial
O Brasil na guerra
PONTO DE VISTA: Ernest HemingwayVEJA, Junho de 1944
Veterano de importantes conflitos (foi à Grande Guerra e à Guerra Civil da Espanha), Ernest Hemingway viajou à Europa para participar da ofensiva contra o nazismo. No Dia D, o escritor americano entrou numa balsa aliada - e, neste texto, ele conta o que viu em seu desembarque na costa da França.
inguém se lembra do dia da Batalha de Shiloh, na Guerra Civil dos Estados Unidos. Mas o dia em que tomamos a praia de Fox Green foi o 6 de junho de 1944, e o vento estava soprando forte de noroeste. Enquanto avançávamos rumo à praia na cinzenta luz do amanhecer, balsas de 10 metros em formato de caixão eram golpeadas por sólidos cobertores de água verde, que caíam nos capacetes dos soldados colocados ombro a ombro na dura, desconfortável e solitária companhia de homens que rumam à batalha. Havia caixotes de TNT, com salva-vidas de borracha amarrados neles para que flutuassem, e pilhas de foguetes e bazucas acondicionadas em capas à prova d'água, que lembravam aqueles casacos transparentes que as universitárias costumam usar quando chove.

"Enquanto a balsa
seguia, a água verde tornava-se branca, chegava castigando os homens, armas e as caixas de TNT."
 
  
Enquanto a balsa seguia, a água verde tornava-se branca e chegava dando pancadas nos homens, nas armas e nas caixas de explosivos. Adiante era possível ver a costa da França. O ronco cinzento e o corpanzil dos guindastes de transporte estavam para trás agora e, por todo o mar, barcos engatinhavam rumo à França. Enquanto nossa embarcação escalava a crista de uma onda, via-se a silhueta baixa de dois navios e dois grandes vagões de batalha curvados na margem. Via-se os flashes brilhantes de suas armas e a fumaça marrom que empurrava o vento. Então, no verde topo de uma colina, jorraram duas altas colunas de terra e fumaça. "Veja o que eles estão fazendo com aqueles alemães", ouvi um recruta dizer sob o rosnado do motor. "Acho que nenhum homem sairá vivo dali", afirmou ele, contente.

Esta foi a única coisa que lembro ter ouvido de um recruta durante a manhã toda. Eles falavam uns com os outros, mas não era possível ouvi-los com o barulho que o motor a diesel de 225 cavalos fazia. Na maioria do tempo, porém, ficavam em silêncio, sem falar nada. Não vi ninguém sorrir depois que deixamos a companhia de um navio de ataque. Eles haviam visto o monstro misterioso que vinha nos ajudando, mas agora ele estava longe, e estávamos sozinhos de novo. Agora era possível ver a costa em todos os detalhes à frente de nós. Havia navios de desembarque avançando pelo mar cinzento até onde os olhos podiam alcançar. O sol estava coberto e a fumaça soprava por todo o litoral.
...
Cuspindo água - Gostaria de poder escrever mais sobre o que significa conduzir uma balsa através de um canal cheio de minas - a precisão matemática das manobras; o detalhamento sem fim; a exatidão cronométrica e o timing perfeito de tudo, da hora em que a âncora sobe até a hora em que a balsa desce numa onda. A história de todo o trabalho de equipe por trás disso ainda deve ser escrita - mas para contar isso tudo levaria um livro inteiro, e este é só o relato de como foi estar numa balsa no dia que conquistamos a praia de Fox Green. Comigo estavam Thomas E. Nash, engenheiro de Seattle, com um bom sorriso e sem dois dentes; Edward F. Banker, sinalizador do Brooklyn; Lacey T. Shiflet de Orange, Virgínia, que seria o atirador se tivéssemos espaço para armas; Frank Currier, o timoneiro de Saugus, Massachusetts, além do tenente Robert Anderson, de Roanoke, Virgínia.

 "Abaixei a minha
cabeça sob o forte
ruído que passava
sobre nós. Depois,
me escondi em um
buraco na popa."
  
Enquanto nossa balsa acelerava rumo à praia, sentei na popa para ver o que enfrentaríamos. Sequei meus binóculos e dei uma boa olhada na costa. Ela se aproximava muito rápido de nós. Pouco depois, entramos numa castigada zona que ficava bem na mira de duas metralhadoras. Abaixei a minha cabeça sob o forte zumbido que passava sobre nós. Então me escondi no buraco da popa onde o atirador estaria se tivéssemos alguma arma. Os tiros da metralhadora levantavam a água ao redor da balsa, e uma bomba antitanque espirrou um jato d'água sobre nós. Enquanto girávamos num pivô e recuávamos, o fogo da metralhadora cessou. Mas tiros aleatórios continuavam zunindo acima de nós e cuspindo água ao redor. Levantei minha cabeça de novo e agora via a costa ao meu lado.

Lentamente, laboriosamente, como se fossem Atlas carregando o mundo em seus ombros, os homens conquistavam o vale à direita. Não estavam atirando. Só avançavam lentamente como um trem cansado no fim do dia, viajando na rota inversa ao caminho de casa. Outro barco vinha em nossa direção, se afastando da praia. Quando passamos, um homem gritou com um megafone: "Há feridos naquela balsa e ela está afundando! Vocês podem ir até lá?" Não foi fácil trazer a bordo um homem baleado no abdome - não havia espaço para baixar a rampa entre os obstáculos próximos à praia. Não sei por que os alemães não atiraram em nós, a não ser que algum destróier tivesse acertado as trincheiras com metralhadoras. Ou talvez estivessem esperando que explodíssemos com as minas. Certamente tinham feito um grande esforço para colocá-las e talvez quisessem vê-las funcionando. Durante todo o tempo em que fazíamos nossa manobra esperei que as armas disparassem contra nós.
...
Pedaço de alemão - Enquanto a rampa da balsa baixava pela primeira vez, vi três tanques se aproximando pela água, quase imóveis de tão lentos. Os alemães os deixaram cruzar o espaço aberto. Estavam numa linha de tiro perfeita. Aí vi uma pequena fonte d'água jorrar bem ao lado do primeiro tanque. Então a fumaça surgiu e vi dois homens mergulhando fora da torre, caindo agachados sobre pedras na praia. Eles estavam perto o bastante para que eu pudesse ver seus rostos, mas nenhum outro homem saiu do tanque enquanto ele começava a pegar fogo. A essa altura, tínhamos o rapaz ferido e os sobreviventes a bordo, com a rampa fechada, e começávamos a recuar, sentindo os obstáculos no chão. Quando o último estava superado, e Currier acelerou forte o motor para alcançar o mar, outro tanque começava a queimar. Levamos o garoto ferido até outro navio.

"Foi uma ofensiva
frontal, e em plena
luz do dia, contra
uma praia minada
defendida por todo
tipo de obstáculo."
 
  
Ao mesmo tempo, os destróieres estavam praticamente na praia, explodindo tudo o que viam pela frente. Vi um pedaço de quase um metro de alemão voar alto em meio a uma explosão. Me fez lembrar de uma cena do balé Petrouchka de Stravinsky. A infantaria já tinha varrido o vale à nossa esquerda e invadido aquele sulco. Agora não havia mais motivo para esperar. Corremos até um bom ponto avistado na praia e colocamos nossos soldados, seu TNT, suas bazucas e seu tenente na areia, e foi isso. Os alemães ainda disparavam com suas armas antitanques, soltando o gatilho enquanto buscavam o alvo desejado. Morteiros ainda cobriam a praia de fogo. Eles deixaram seus atiradores na areia, e quando finalmente fomos embora, ficou claro que todas aquelas pessoas ficariam ali ao menos até escurecer.

Perdemos seis balsas iguais à nossa entre as 24 que desceram conosco, mas muitos dos tripulantes devem ter sidos resgatados por outros navios. Foi uma ofensiva frontal, e em plena luz do dia, contra uma praia minada defendida por todos os obstáculos que a engenhosidade militar seria capaz de projetar. A praia foi defendida tão teimosamente e tão inteligentemente quanto possível. Mas todas as balsas do nosso setor entregaram suas tropas e suas cargas na areia. Nenhuma balsa foi perdida por erro de navegação. Todas as que foram perdidas foram alvo da ação dos inimigos. E tínhamos conquistado a praia. Há muitas coisas que eu não escrevi aqui. Poderia escrever por uma semana e ainda assim não daria crédito a todos pelo que fizeram num front de mil metros. A guerra de verdade nunca é como a guerra no papel, nem sua descrição é lida do jeito que realmente é. Mas se você quer saber como foi estar numa balsa no Dia D, quando conquistamos a praia de Fox Green, em 6 de junho de 1944, isso é o mais perto que consigo chegar.
Ernest Hemingway ,44 anos, é escritor e colaborador da revista Colliers. Entre seus livros estão Adeus às Armas, O Sol Também se Levanta, Por Quem os Sinos Dobram, Torrentes da Primavera e a coleção de contos As Neves do Kilimanjaro.
bibliografia
 
para imprimir

texto anterioríndice da edição