Itália de Badoglio finalmente capitula perante os Aliados
- Tropas germânicas tomam a Velha Bota de assalto - Anglo-americanos
garantem apenas o Sul do país, que conquistaram com facilidade - O 'Duce'
foi resgatado da prisão por avião de Hitler
A Batalha da Sicília: soldado americano faz
transfusão de sangue num companheiro ferido
esde julho, quando a família real italiana defenestrou Benito Mussolini
e apontou o veterano marechal Pietro Badoglio para o cargo de primeiro-ministro
das forças peninsulares, analistas internacionais esperavam por essa decisão.
Mas foi apenas no último dia 3 que a Itália baixou oficialmente
suas armas, abandonando o pacto com a Alemanha e capitulando perante os Aliados
- retirando-se, enfim, de uma guerra para a qual jamais esteve apta a entrar.
Com a assinatura da rendição incondicional, está inaugurada
uma nova etapa do sofrimento da nação italiana: após ver
a ambição do Duce ceifar soldados em fronts distantes, a
população passa a assistir uma sangrenta batalha em seu próprio
território.
A luta já se principiou, impiedosa e devastadora.
Tão logo a capitulação foi anunciada, os alemães assaltaram
as principais cidades italianas, tomando o controle de fortificações
e outros pontos de interesse militar. Na maioria dos locais, não houve
resistência - o que facilitou a rapina dos alemães, sedentos por
avançar sobre um exército destruído e um país conquistado.
A lista do material saqueado é colossal - 1.250.000 fuzis, 38.380 metralhadoras,
9.880 canhões, 4.450 aviões, 15.500 caminhões, 67.600 cavalos
e muares, 287.500 toneladas de munições -, e foi celebrada pelos
combalidos tedescos como uma verdadeira vitória. "A abundância
voltou por algum tempo ao Exército alemão. Este é o único
serviço que a Itália algum dia nos prestou", afirmou o tenente-general
Alfred Jodl.
Nos arredores de Roma, as forças locais até
mostraram alguma resistência - insuficiente, todavia, para conter a marcha
germânica. A capital foi invadida em 10 de setembro pelo Décimo Exército
da Wehrmacht, e a rendição do general Calvi di Bergolo, genro
do rei Vittorio Emmanuelle, evitou a carnificina. Entretanto, no Sul, porta de
entrada dos Aliados - o desembarque das tropas foi feito em Salerno, dia 8, sob
o comando do general americano Dwight Eisenhower -, há uma chuva de insurrectos.
A disposição dos meridionais em enfrentar os alemães é
latente, e resulta num rastro de destruição tanto na ponta quanto
no calcanhar da Bota.
Na virada do mês, depois de três semanas
de batalha e 12.000 soldados mortos, as forças Aliadas conseguiram alcançar
Nápoles, local considerado estratégico por causa de seu imponente
porto. A intenção era usar o local como base para ataques às
bases alemãs na Europa Ocidental. Mas o que os tanques dos X Corps britânicos
- primeiras unidades aliadas a chegar ao local - encontraram foi uma cidade em
ruínas, devastada, desenganada e descarrilada. A Nápoles do sol
esplendoroso, dividida entre o mar verdejante e o Vesúvio, hoje não
passa de uma rainha andrajosa. É uma imagem funesta que se aplica também
à Itália enquanto nação - uma Itália que transfere
para os Aliados a responsabilidade pela libertação do fascismo que
a consumia havia anos.
...
Teatro peninsular - A invasão
e a fácil tomada da Sicília pelas tropas britânicas e americanas,
em 10 de julho, foi o golpe que aniquilou as últimas forças de Mussolini.
O engajamento em movimentações militares na França e na Grécia
e nas guerras no Norte e Leste da África - para as quais visivelmente não
estava preparada - feria o país desde 1940, mas foi no início deste
ano que a população passou a externar o descontentamento com a política
fascista. O protesto dos trabalhadores da Fiat em Turim deflagrou uma série
de greves em várias partes da Bota, nas quais bradava-se contra o aumento
geral dos preços e as péssimas condições de trabalho
- e, principalmente, exigia-se a paz. O exército italiano acabara de ser
massacrado em Stalingrado, e ficava claro que apenas o armistício com os
Aliados poderia poupar os peninsulares de piores fados. O Duce, porém,
mantinha-se irredutível.
Nove dias após o desembarque na
Sicília, Mussolini encontrou-se com Adolf Hitler na cidade de Feltre, no
Norte da Itália. Mandachuvas fascistas - os chamados gerarchi -
esperavam que Mussolini sugerisse ao Führer um pacto com os Aliados,
mas o Duce apenas escutou passivamente o discurso do alemão, que,
por sinal, incluía comentários nada afáveis sobre os italianos.
Os gerarchi passaram então a temer por si próprios e pelo
regime: afinal, para salvar o fascismo, a aliança deveria ser rompida,
e Mussolini provara em Feltre que não ousaria tomar tal atitude.
Então, em 24 de julho, o Grande Conselho Fascista reuniu-se pela primeira
vez desde o estouro da guerra. Dino Grandi, ex-aliado do Duce, sugeriu
que o rei Vittorio Emmanuelle fosse reconduzido ao posto de Comandante-em-Chefe,
dele tirado em 1940. A proposta foi aprovada, e o que aconteceu no dia seguinte
já é história: Mussolini apareceu para trabalhar, foi destituído
do cargo de primeiro-ministro pelo monarca e acabou preso.
Como primeiro-ministro
substituto, Badoglio teve de levar a cabo uma missão inglória e
teatral, prometendo lealdade aos alemães ao mesmo tempo em que negociava
com os Aliados. As conversas com Estados Unidos e Grã-Bretanha foram conduzidas
em segredo em Lisboa e Madri, e se caracterizaram pelo difícil entendimento
entre as partes. Enquanto os peninsulares acreditavam estar negociando uma ação
conjunta contra os germânicos na Itália, os Aliados não aceitavam
nada menos que a rendição incondicional, conforme o estabelecido
em Casablanca. Além disso, estes não depositavam muita confiança
no novo governo italiano. "Nenhuma flexibilidade de minha imaginação
consegue me fazer crer em Vittorio Emmanuelle e Badoglio como forma democrática
de governo", afirmou o diplomata americano Harry Hopkins.
Quando
as forças aliadas já se dirigiam para a invasão da Calábria,
as negociações foram concluídas. Um ato de rendição
foi assinado por Badoglio em 3 de setembro, para ser revelado apenas no dia 8,
data em que as tropas desembarcariam em Salerno. Assim, às 18h30 daquela
quarta-feira, a voz de Eisenhower, em inglês, ecoou pelo rádio italiano
- seguida, claro, por uma tradução para o idioma de Dante. "Quem
fala é o general Dwight Eisenhower, comandante-chefe das Forças
Aliadas. O governo italiano ordenou a suas Forças Armadas render-se incondicionalmente.
As hostilidades entre as Forças Armadas dos Estados Unidos e da Itália
terminaram de uma vez. Todos os italianos que quiserem ajudar a expulsar o invasor
germânico do solo italiano terão a assistência e o apoio das
Nações Unidas."
...
Ajuda dos céus - Na
verdade, as hostilidades estavam apenas começando. Nas primeiras horas
do dia 9, sob o comando do general Mark Clark, três divisões anglo-americanas
- compreendendo 169.000 homens que haviam deixado os portos da Argélia,
Tunísia e Tripolitânia - invadiram a Itália continental, via
Salerno. O plano traçado pelos Aliados consistia em alcançar Nápoles,
estratégica cidade portuária, e, de lá, pavimentar o caminho
para Roma.
Mas, desta vez, a penetração não seria
tranqüila como na chegada à Sicília, dois meses antes. Somente
o desembarque não foi contestado - e apenas porque, na ocasião,
a 14ª divisão Panzer do tenente-general Hans Hube ainda estava em
processo de dominar as forças salernitanas. Aproveitando a brecha, os homens
de Clark puderam capturar a base aérea de Montecorvino, mas esta logo foi
inutilizada pelo fogo de duas divisões Panzer que chegaram como reforços
aos tedescos. A partir daí, a oposição alemã foi ferrenha.
Sem cobertura aérea, os Aliados tiveram dois cruzadores avariados pelas
revolucionárias bombas guiadas por rádio-controle - em 9 de setembro,
os alemães já haviam afundado o navio de guerra Roma, na
primeira vez que essa incrível arma foi usada em um ataque da Luftwaffe.
As forças anglo-americanas não conseguiam se expandir para
além da pequena faixa litorânea que ocupavam. Obtiveram êxito
em capturar Salerno e Vietri, mas, sem conseguir manter os germânicos a
uma distância suficiente, não puderam usar as cidades como portos
de abastecimento. Em 12 de setembro, uma contra-ofensiva do general alemão
Heinrich von Vietinghoff, comandante do 10º Exército na Itália
meridional, colocou os aliados em alerta vermelho. Todas as suas reservas se esgotaram,
levando Clark a preparar um plano de evacuação. Quando estavam próximos
ao limite, porém, dois batalhões de pára-quedistas dos Estados
Unidos aterrissaram no front e ajudaram os Aliados a se manter no local. O reforço
de dois navios de guerra britânicos e mais milhares de soldados transportados
da Líbia por três cruzadores, além do crucial suporte da força
aérea mediterrânea britânica, viraram o jogo a favor dos invasores.
Dessa forma, em 16 de setembro, diante da notícia da aproximação
do 8º Exército do marechal Bernard Montgomery - que havia desembarcado
em Reggio Calabria -, os alemães começam a recuar para uma nova
posição, ao Norte de Nápoles. A retirada foi calculada e
metódica, com ações de retaguarda e demolições
que dificultaram o avanço dos Aliados. Na verdade, os germânicos
só não contavam com a revolta dos napolitanos, que, em 27 de setembro,
acreditando ser iminente a chegada das tropas anglo-americanas, iniciaram um levante
popular. A Wehrmacht respondeu com força total. Aliando o rigor
das operações militares à sede de vingança contra
os "traidores" italianos, provocou um massacre que durou exatos quatro
dias, até a chegada dos X Corps britânicos à cidade, em 1º
de outubro.
Os tedescos sabotaram o porto, colocaram abaixo as canalizações
de água e eletricidade, incendiaram bairros residenciais e arruinaram até
fábricas de espaguete. Além de uma Nápoles aniquilada, os
Aliados herdam nada menos que um milhão de civis, entregues à fome
e à epidemia.
...
Velha nova República -
Em resumo: britânicos e americanos somaram a Itália meridional, a
Córsega e a Sardenha (permitindo, porém, que os alemães evacuassem
seus soldados dessas duas últimas) à Sicília já conquistada.
A partir de agora, se quiserem um metro a mais do território italiano,
terão de lutar. O Exército Alemão, que controla agora o Centro
e o Norte da Itália, já recebeu ordens expressas de Adolf Hitler:
defender com unhas e dentes estas posições. Foi com o intuito de
manter o controle sobre tais áreas, aliás, que o Führer
mandou resgatar Benito Mussolini de Gran Sasso, onde era mantido cativo pela monarquia
italiana.
A arriscada operação aconteceu em 12 de setembro,
quando anglo-americanos e teutônicos já se batiam na Velha Bota:
pilotando uma pequena aeronave, o oficial da SS Otto Skorzeny pousou no cativeiro,
raptou o Duce e o embarcou para a Alemanha. Três dias depois, orientado
por Hitler, Mussolini já estava de volta ao Norte da Itália - mais
precisamente, a Salò, onde o ditador foi compelido a fundar a chamada República
Social Italiana. Esta, mais do que qualquer coisa, vem ao encontro das pretensões
do Führer de restabelecer um regime fascista e manter a Itália
unida e fiel ao Eixo, protegendo suas fronteiras meridionais.
É
cedo ainda para dizer se a jogada de Adolf Hitler terá êxito, ou
se o rei e Badoglio - que voaram para Brindisi antes que os alemães tomassem
Roma - conseguirão rearticular o país com o apoio dos Aliados, especialmente
dos Britânicos. O fato é que a população italiana parece
opor-se igualmente à peçonha do regime fascista e às contradições
do governo de Badoglio - que, apesar de libertar presos políticos, manteve
a censura e a milícia fascista dos camisas-negras. Mas, por enquanto, tantos
e tão diferentes contendedores fazem da Itália apenas uma terra
de ninguém.
...
Tanques
King Tiger em movimento no front Baixar
vídeo
Imagens
de jipes Bantam dos EUA em ação Baixar
vídeo
Soldados
da Alemanha disparando morteiros Baixar
vídeo
Batalhão
da Alemanha combatendo na guerra Baixar
vídeo