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O Brasil na guerra
 VEJA, Setembro de 1943
Itália de Badoglio finalmente capitula perante os
Aliados - Tropas germânicas tomam a Velha Bota
de assalto - Anglo-americanos garantem apenas o
Sul do país, que conquistaram com facilidade - O
'Duce' foi resgatado da prisão por avião de Hitler

A Batalha da Sicília: soldado americano faz transfusão de sangue num companheiro ferido

esde julho, quando a família real italiana defenestrou Benito Mussolini e apontou o veterano marechal Pietro Badoglio para o cargo de primeiro-ministro das forças peninsulares, analistas internacionais esperavam por essa decisão. Mas foi apenas no último dia 3 que a Itália baixou oficialmente suas armas, abandonando o pacto com a Alemanha e capitulando perante os Aliados - retirando-se, enfim, de uma guerra para a qual jamais esteve apta a entrar. Com a assinatura da rendição incondicional, está inaugurada uma nova etapa do sofrimento da nação italiana: após ver a ambição do Duce ceifar soldados em fronts distantes, a população passa a assistir uma sangrenta batalha em seu próprio território.

A luta já se principiou, impiedosa e devastadora. Tão logo a capitulação foi anunciada, os alemães assaltaram as principais cidades italianas, tomando o controle de fortificações e outros pontos de interesse militar. Na maioria dos locais, não houve resistência - o que facilitou a rapina dos alemães, sedentos por avançar sobre um exército destruído e um país conquistado. A lista do material saqueado é colossal - 1.250.000 fuzis, 38.380 metralhadoras, 9.880 canhões, 4.450 aviões, 15.500 caminhões, 67.600 cavalos e muares, 287.500 toneladas de munições -, e foi celebrada pelos combalidos tedescos como uma verdadeira vitória. "A abundância voltou por algum tempo ao Exército alemão. Este é o único serviço que a Itália algum dia nos prestou", afirmou o tenente-general Alfred Jodl.

Nos arredores de Roma, as forças locais até mostraram alguma resistência - insuficiente, todavia, para conter a marcha germânica. A capital foi invadida em 10 de setembro pelo Décimo Exército da Wehrmacht, e a rendição do general Calvi di Bergolo, genro do rei Vittorio Emmanuelle, evitou a carnificina. Entretanto, no Sul, porta de entrada dos Aliados - o desembarque das tropas foi feito em Salerno, dia 8, sob o comando do general americano Dwight Eisenhower -, há uma chuva de insurrectos. A disposição dos meridionais em enfrentar os alemães é latente, e resulta num rastro de destruição tanto na ponta quanto no calcanhar da Bota.

Na virada do mês, depois de três semanas de batalha e 12.000 soldados mortos, as forças Aliadas conseguiram alcançar Nápoles, local considerado estratégico por causa de seu imponente porto. A intenção era usar o local como base para ataques às bases alemãs na Europa Ocidental. Mas o que os tanques dos X Corps britânicos - primeiras unidades aliadas a chegar ao local - encontraram foi uma cidade em ruínas, devastada, desenganada e descarrilada. A Nápoles do sol esplendoroso, dividida entre o mar verdejante e o Vesúvio, hoje não passa de uma rainha andrajosa. É uma imagem funesta que se aplica também à Itália enquanto nação - uma Itália que transfere para os Aliados a responsabilidade pela libertação do fascismo que a consumia havia anos.
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Teatro peninsular - A invasão e a fácil tomada da Sicília pelas tropas britânicas e americanas, em 10 de julho, foi o golpe que aniquilou as últimas forças de Mussolini. O engajamento em movimentações militares na França e na Grécia e nas guerras no Norte e Leste da África - para as quais visivelmente não estava preparada - feria o país desde 1940, mas foi no início deste ano que a população passou a externar o descontentamento com a política fascista. O protesto dos trabalhadores da Fiat em Turim deflagrou uma série de greves em várias partes da Bota, nas quais bradava-se contra o aumento geral dos preços e as péssimas condições de trabalho - e, principalmente, exigia-se a paz. O exército italiano acabara de ser massacrado em Stalingrado, e ficava claro que apenas o armistício com os Aliados poderia poupar os peninsulares de piores fados. O Duce, porém, mantinha-se irredutível.

Nove dias após o desembarque na Sicília, Mussolini encontrou-se com Adolf Hitler na cidade de Feltre, no Norte da Itália. Mandachuvas fascistas - os chamados gerarchi - esperavam que Mussolini sugerisse ao Führer um pacto com os Aliados, mas o Duce apenas escutou passivamente o discurso do alemão, que, por sinal, incluía comentários nada afáveis sobre os italianos. Os gerarchi passaram então a temer por si próprios e pelo regime: afinal, para salvar o fascismo, a aliança deveria ser rompida, e Mussolini provara em Feltre que não ousaria tomar tal atitude.

Então, em 24 de julho, o Grande Conselho Fascista reuniu-se pela primeira vez desde o estouro da guerra. Dino Grandi, ex-aliado do Duce, sugeriu que o rei Vittorio Emmanuelle fosse reconduzido ao posto de Comandante-em-Chefe, dele tirado em 1940. A proposta foi aprovada, e o que aconteceu no dia seguinte já é história: Mussolini apareceu para trabalhar, foi destituído do cargo de primeiro-ministro pelo monarca e acabou preso.

Como primeiro-ministro substituto, Badoglio teve de levar a cabo uma missão inglória e teatral, prometendo lealdade aos alemães ao mesmo tempo em que negociava com os Aliados. As conversas com Estados Unidos e Grã-Bretanha foram conduzidas em segredo em Lisboa e Madri, e se caracterizaram pelo difícil entendimento entre as partes. Enquanto os peninsulares acreditavam estar negociando uma ação conjunta contra os germânicos na Itália, os Aliados não aceitavam nada menos que a rendição incondicional, conforme o estabelecido em Casablanca. Além disso, estes não depositavam muita confiança no novo governo italiano. "Nenhuma flexibilidade de minha imaginação consegue me fazer crer em Vittorio Emmanuelle e Badoglio como forma democrática de governo", afirmou o diplomata americano Harry Hopkins.

Quando as forças aliadas já se dirigiam para a invasão da Calábria, as negociações foram concluídas. Um ato de rendição foi assinado por Badoglio em 3 de setembro, para ser revelado apenas no dia 8, data em que as tropas desembarcariam em Salerno. Assim, às 18h30 daquela quarta-feira, a voz de Eisenhower, em inglês, ecoou pelo rádio italiano - seguida, claro, por uma tradução para o idioma de Dante. "Quem fala é o general Dwight Eisenhower, comandante-chefe das Forças Aliadas. O governo italiano ordenou a suas Forças Armadas render-se incondicionalmente. As hostilidades entre as Forças Armadas dos Estados Unidos e da Itália terminaram de uma vez. Todos os italianos que quiserem ajudar a expulsar o invasor germânico do solo italiano terão a assistência e o apoio das Nações Unidas."
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Ajuda dos céus - Na verdade, as hostilidades estavam apenas começando. Nas primeiras horas do dia 9, sob o comando do general Mark Clark, três divisões anglo-americanas - compreendendo 169.000 homens que haviam deixado os portos da Argélia, Tunísia e Tripolitânia - invadiram a Itália continental, via Salerno. O plano traçado pelos Aliados consistia em alcançar Nápoles, estratégica cidade portuária, e, de lá, pavimentar o caminho para Roma.

Mas, desta vez, a penetração não seria tranqüila como na chegada à Sicília, dois meses antes. Somente o desembarque não foi contestado - e apenas porque, na ocasião, a 14ª divisão Panzer do tenente-general Hans Hube ainda estava em processo de dominar as forças salernitanas. Aproveitando a brecha, os homens de Clark puderam capturar a base aérea de Montecorvino, mas esta logo foi inutilizada pelo fogo de duas divisões Panzer que chegaram como reforços aos tedescos. A partir daí, a oposição alemã foi ferrenha. Sem cobertura aérea, os Aliados tiveram dois cruzadores avariados pelas revolucionárias bombas guiadas por rádio-controle - em 9 de setembro, os alemães já haviam afundado o navio de guerra Roma, na primeira vez que essa incrível arma foi usada em um ataque da Luftwaffe.

As forças anglo-americanas não conseguiam se expandir para além da pequena faixa litorânea que ocupavam. Obtiveram êxito em capturar Salerno e Vietri, mas, sem conseguir manter os germânicos a uma distância suficiente, não puderam usar as cidades como portos de abastecimento. Em 12 de setembro, uma contra-ofensiva do general alemão Heinrich von Vietinghoff, comandante do 10º Exército na Itália meridional, colocou os aliados em alerta vermelho. Todas as suas reservas se esgotaram, levando Clark a preparar um plano de evacuação. Quando estavam próximos ao limite, porém, dois batalhões de pára-quedistas dos Estados Unidos aterrissaram no front e ajudaram os Aliados a se manter no local. O reforço de dois navios de guerra britânicos e mais milhares de soldados transportados da Líbia por três cruzadores, além do crucial suporte da força aérea mediterrânea britânica, viraram o jogo a favor dos invasores.

Dessa forma, em 16 de setembro, diante da notícia da aproximação do 8º Exército do marechal Bernard Montgomery - que havia desembarcado em Reggio Calabria -, os alemães começam a recuar para uma nova posição, ao Norte de Nápoles. A retirada foi calculada e metódica, com ações de retaguarda e demolições que dificultaram o avanço dos Aliados. Na verdade, os germânicos só não contavam com a revolta dos napolitanos, que, em 27 de setembro, acreditando ser iminente a chegada das tropas anglo-americanas, iniciaram um levante popular. A Wehrmacht respondeu com força total. Aliando o rigor das operações militares à sede de vingança contra os "traidores" italianos, provocou um massacre que durou exatos quatro dias, até a chegada dos X Corps britânicos à cidade, em 1º de outubro.

Os tedescos sabotaram o porto, colocaram abaixo as canalizações de água e eletricidade, incendiaram bairros residenciais e arruinaram até fábricas de espaguete. Além de uma Nápoles aniquilada, os Aliados herdam nada menos que um milhão de civis, entregues à fome e à epidemia.
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Velha nova República - Em resumo: britânicos e americanos somaram a Itália meridional, a Córsega e a Sardenha (permitindo, porém, que os alemães evacuassem seus soldados dessas duas últimas) à Sicília já conquistada. A partir de agora, se quiserem um metro a mais do território italiano, terão de lutar. O Exército Alemão, que controla agora o Centro e o Norte da Itália, já recebeu ordens expressas de Adolf Hitler: defender com unhas e dentes estas posições. Foi com o intuito de manter o controle sobre tais áreas, aliás, que o Führer mandou resgatar Benito Mussolini de Gran Sasso, onde era mantido cativo pela monarquia italiana.

A arriscada operação aconteceu em 12 de setembro, quando anglo-americanos e teutônicos já se batiam na Velha Bota: pilotando uma pequena aeronave, o oficial da SS Otto Skorzeny pousou no cativeiro, raptou o Duce e o embarcou para a Alemanha. Três dias depois, orientado por Hitler, Mussolini já estava de volta ao Norte da Itália - mais precisamente, a Salò, onde o ditador foi compelido a fundar a chamada República Social Italiana. Esta, mais do que qualquer coisa, vem ao encontro das pretensões do Führer de restabelecer um regime fascista e manter a Itália unida e fiel ao Eixo, protegendo suas fronteiras meridionais.

É cedo ainda para dizer se a jogada de Adolf Hitler terá êxito, ou se o rei e Badoglio - que voaram para Brindisi antes que os alemães tomassem Roma - conseguirão rearticular o país com o apoio dos Aliados, especialmente dos Britânicos. O fato é que a população italiana parece opor-se igualmente à peçonha do regime fascista e às contradições do governo de Badoglio - que, apesar de libertar presos políticos, manteve a censura e a milícia fascista dos camisas-negras. Mas, por enquanto, tantos e tão diferentes contendedores fazem da Itália apenas uma terra de ninguém.
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