| PONTO DE VISTA: Charles Spencer
Chaplin |
VEJA, Fevereiro de 1943 |
| O cineasta britânico
Charlie Chaplin dedicou os últimos anos a combater o
nazismo - primeiro, com seu filme 'O Grande Ditador'; depois,
angariando dinheiro e apoio político à guerra.
No artigo a seguir, Chaplin pede auxílio urgente aos
soviéticos e defende que o comando Aliado abra um novo
front. |
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amaradas! É isso mesmo, camaradas. Não sou um
comunista, sou um ser humano. E sei como os seres humanos reagem.
Os comunistas não são diferentes de ninguém;
se perdem um braço ou uma perna, sofrem o mesmo que nós.
Eles morrem como todos nós morremos. E a mãe comunista
é igual a qualquer outra mãe. Quando ela recebe a notícia
trágica de que seu filho não retornará da guerra,
chora como qualquer mãe choraria. Não preciso ser comunista
para saber disso - preciso ser apenas um ser humano. E neste momento
as mães soviéticas estão chorando bastante, e
muitos de seus filhos estão morrendo.
"Eles não estão
lutando só pelo
modo de vida
deles, mas pelo
nosso modo de
vida também." |
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O dinheiro que enviamos a eles vai ajudar, mas eles precisam de mais
que apenas dinheiro. Os Aliados têm milhões de soldados
definhando em outros lugares da Europa, enquanto os soviéticos,
sozinhos, enfrentam duas centenas de divisões de nazistas.
Os soviéticos são nossos aliados. Eles não estão
lutando apenas pelo modo de vida deles, mas pelo nosso modo de vida
também. E se conheço os americanos sei que eles gostam
de lutar suas próprias batalhas. Josef Stalin quer isso, Franklin
Roosevelt pediu isso, então vamos todos pedir isso: vamos abrir
já um segundo front nesta guerra.
Futuro incerto - Nos campos de batalha soviéticos a
democracia viverá ou morrerá. O destino das nações
aliadas está nas mãos dos comunistas. Se a URSS for
derrotada, o continente asiático - o maior e mais rico deste
globo - estará sob domínio dos nazistas. Com o Oriente
quase inteiro nas mãos dos japoneses, os nazistas terão
acesso a quase todos os materiais vitais de guerra no mundo. Que chance
teríamos então de derrotar Hitler? Com as dificuldades
de transporte, de comunicação, de falta de aço,
petróleo e borracha - e a estratégia de Hitler de dividir
e conquistar -, estaríamos numa posição desesperadora.
Alguns dizem que isso prolongaria a guerra por dez ou vinte anos.
Para mim isso é ser otimista. Sob tais condições
e contra um inimigo tão formidável, o futuro seria muito
incerto.
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"Podemos nos
dar ao luxo de
jogar apenas na
certeza? Não há
estratégia segura
numa guerra." |
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Os soviéticos precisam desesperadamente de ajuda. Estão
implorando por um segundo front. Entre as nações aliadas
há uma diferença de opinião sobre se isso é
possível agora. Ouvimos que os Aliados não têm
suprimentos suficientes para manter um segundo front. Mas ouvimos
também que eles têm. Ouvimos ainda que eles não
querem arriscar um segundo front neste momento por causa de uma possível
derrota; que não querem arriscar até que estejam convictos
e prontos. Mas podemos nos dar ao luxo de esperar até que estejamos
prontos? Podemos nos dar ao luxo de jogar só na certeza? Não
há estratégias seguras na guerra.
Cilada nazista - A URSS está lutando encurralada na
parede. E essa parede é a mais forte defesa dos Aliados. Não
podemos perder a URSS, porque ela é a linha de frente da democracia.
Quando nosso mundo, nossa vida, nossa civilização estão
se esmigalhando sobre nossos pés, precisamos arriscar. Se a
URSS perder, este será o maior desastre da causa aliada. E
aí, fiquem de olho nos apaziguadores, pois eles sairão
de suas tocas. Eles tentarão fazer a paz com um Hitler vitorioso.
Eles dirão: "É inútil sacrificar mais vidas.
Podemos fazer um bom acordo com Hitler". Cuidado com essa cilada.
Os lobos nazistas vestirão uma pele de carneiro. Eles farão
a paz parecer muito atraente. E, antes que notemos, teremos sucumbido
à ideologia deles. Seremos escravizados. Roubarão nossa
liberdade e controlarão nossas mentes. O mundo será
comandado pela Gestapo. Sim, este pode ser o poder no futuro.
"Queremos ação.
Queremos mais
bombas sobre
Berlim. Mais que
tudo, queremos o
segundo front." |
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Com o poder nas mãos dos nazistas, toda a oposição
às ordens deles deixará de existir. O progresso humano
terá sido perdido. Não haverá direitos das minorias,
direitos dos trabalhadores, direitos dos cidadãos. Tudo será
extinto. Se ouvirmos os apaziguadores e firmarmos a paz com Hitler,
sua ordem brutal controlará a Terra. Mas mantivermos o moral,
não temos nada a temer; a vitória é garantida.
Hitler arriscou demais. E o maior risco que ele assumiu foi a campanha
soviética. Sua chance é precária, mas ele aposta
nela. Se Hitler pode arriscar, por que não podemos? Queremos
ação. Queremos mais bombas sobre Berlim. E mais que
tudo, queremos um segundo front agora. Vamos pensar numa vitória
rápida. Vocês nas fábricas, vocês nos campos,
vocês de uniforme, vocês, cidadãos do mundo, deixem-nos
lutar com esse fim. Washington, Londres, deixem-nos mirar nisso -
uma vitória rápida. Vamos lutar por isso. Lembrem-se:
os grandes sucessos através da História foram conquistas
do que parecia ser impossível.
| Charlie Chaplin ,53 anos, é ator,
diretor, produtor e roteirista de cinema, autor de O Garoto,
O Circo, Tempos Modernos, Luzes da Cidade e O Grande
Ditador. |
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