O cineasta britânico Charlie
Chaplin dedicou os últimos anos a combater o nazismo - primeiro, com seu
filme 'O Grande Ditador'; depois, angariando dinheiro e apoio político
à guerra. No artigo a seguir, Chaplin pede auxílio urgente aos soviéticos
e defende que o comando Aliado abra um novo front.
amaradas! É isso mesmo, camaradas. Não sou um comunista,
sou um ser humano. E sei como os seres humanos reagem. Os comunistas não
são diferentes de ninguém; se perdem um braço ou uma perna,
sofrem o mesmo que nós. Eles morrem como todos nós morremos. E a
mãe comunista é igual a qualquer outra mãe. Quando ela recebe
a notícia trágica de que seu filho não retornará da
guerra, chora como qualquer mãe choraria. Não preciso ser comunista
para saber disso - preciso ser apenas um ser humano. E neste momento as mães
soviéticas estão chorando bastante, e muitos de seus filhos estão
morrendo.
"Eles não estão lutando
só pelo modo de vida deles, mas pelo nosso modo de vida
também."
O dinheiro que enviamos a eles vai ajudar, mas eles precisam de mais que
apenas dinheiro. Os Aliados têm milhões de soldados definhando em
outros lugares da Europa, enquanto os soviéticos, sozinhos, enfrentam duas
centenas de divisões de nazistas. Os soviéticos são nossos
aliados. Eles não estão lutando apenas pelo modo de vida deles,
mas pelo nosso modo de vida também. E se conheço os americanos sei
que eles gostam de lutar suas próprias batalhas. Josef Stalin quer isso,
Franklin Roosevelt pediu isso, então vamos todos pedir isso: vamos abrir
já um segundo front nesta guerra.
...
Futuro incerto - Nos campos
de batalha soviéticos a democracia viverá ou morrerá. O destino
das nações aliadas está nas mãos dos comunistas. Se
a URSS for derrotada, o continente asiático - o maior e mais rico deste
globo - estará sob domínio dos nazistas. Com o Oriente quase inteiro
nas mãos dos japoneses, os nazistas terão acesso a quase todos os
materiais vitais de guerra no mundo. Que chance teríamos então de
derrotar Hitler? Com as dificuldades de transporte, de comunicação,
de falta de aço, petróleo e borracha - e a estratégia de
Hitler de dividir e conquistar -, estaríamos numa posição
desesperadora. Alguns dizem que isso prolongaria a guerra por dez ou vinte anos.
Para mim isso é ser otimista. Sob tais condições e contra
um inimigo tão formidável, o futuro seria muito incerto.
"Podemos nos dar
ao luxo de jogar apenas na certeza? Não há estratégia
segura numa guerra."
Os soviéticos precisam desesperadamente de ajuda. Estão
implorando por um segundo front. Entre as nações aliadas há
uma diferença de opinião sobre se isso é possível
agora. Ouvimos que os Aliados não têm suprimentos suficientes para
manter um segundo front. Mas ouvimos também que eles têm. Ouvimos
ainda que eles não querem arriscar um segundo front neste momento por causa
de uma possível derrota; que não querem arriscar até que
estejam convictos e prontos. Mas podemos nos dar ao luxo de esperar até
que estejamos prontos? Podemos nos dar ao luxo de jogar só na certeza?
Não há estratégias seguras na guerra.
...
Cilada nazista - A URSS está
lutando encurralada na parede. E essa parede é a mais forte defesa dos
Aliados. Não podemos perder a URSS, porque ela é a linha de frente
da democracia. Quando nosso mundo, nossa vida, nossa civilização
estão se esmigalhando sobre nossos pés, precisamos arriscar. Se
a URSS perder, este será o maior desastre da causa aliada. E aí,
fiquem de olho nos apaziguadores, pois eles sairão de suas tocas. Eles
tentarão fazer a paz com um Hitler vitorioso. Eles dirão: "É
inútil sacrificar mais vidas. Podemos fazer um bom acordo com Hitler".
Cuidado com essa cilada. Os lobos nazistas vestirão uma pele de carneiro.
Eles farão a paz parecer muito atraente. E, antes que notemos, teremos
sucumbido à ideologia deles. Seremos escravizados. Roubarão nossa
liberdade e controlarão nossas mentes. O mundo será comandado pela
Gestapo. Sim, este pode ser o poder no futuro.
"Queremos ação. Queremos
mais bombas sobre Berlim. Mais que tudo, queremos o segundo front."
Com o
poder nas mãos dos nazistas, toda a oposição às ordens
deles deixará de existir. O progresso humano terá sido perdido.
Não haverá direitos das minorias, direitos dos trabalhadores, direitos
dos cidadãos. Tudo será extinto. Se ouvirmos os apaziguadores e
firmarmos a paz com Hitler, sua ordem brutal controlará a Terra. Mas mantivermos
o moral, não temos nada a temer; a vitória é garantida. Hitler
arriscou demais. E o maior risco que ele assumiu foi a campanha soviética.
Sua chance é precária, mas ele aposta nela. Se Hitler pode arriscar,
por que não podemos? Queremos ação. Queremos mais bombas
sobre Berlim. E mais que tudo, queremos um segundo front agora. Vamos pensar numa
vitória rápida. Vocês nas fábricas, vocês nos
campos, vocês de uniforme, vocês, cidadãos do mundo, deixem-nos
lutar com esse fim. Washington, Londres, deixem-nos mirar nisso - uma vitória
rápida. Vamos lutar por isso. Lembrem-se: os grandes sucessos através
da História foram conquistas do que parecia ser impossível.
Charlie Chaplin ,53 anos, é ator, diretor, produtor
e roteirista de cinema, autor de O Garoto, O Circo, Tempos Modernos, Luzes
da Cidade e O Grande Ditador.