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ENTREVISTA: Hermann Wilhelm GöringVEJA, Fevereiro de 1943
Sucessor do 'Führer', o chefe da força aérea alemã promete vingar a derrota em Stalingrado e provoca os inimigos - mas reconhece que seu país sofre em função de bombardeios aliados. Para Göring, apoio popular ao nazismo é mais sólido do que nunca. 'O povo se dispôs a agüentar o fardo da guerra.'
m 30 de janeiro, Hermann Göring viveu o maior vexame de sua vida. Depois de passar quatro anos se gabando da "força insuperável" de sua Luftwaffe, o segundo homem mais poderoso da Alemanha teve de interromper um discurso comemorando os dez anos da posse de Adolf Hitler como chanceler - quando começou a falar, aviões britânicos atacaram Berlim em plena luz do dia. Os freqüentes fiascos da força aérea nazista enfraqueceram Göring, que anda em baixa com Hitler. Mas o homem escolhido pelo próprio Führer para sucedê-lo continua popular - sempre falastrão e populista, é adorado pelos alemães. Herói da primeira Grande Guerra, ex-presidente do Reichstag, criador dos campos de concentração e da Gestapo, Göring gosta de mansões, boa comida, títulos pomposos, medalhas de honra e fardas extravagantes - segundo auxiliares, troca de traje cinco vezes ao dia, com preferência por peles e couros coloridos. Viúvo da baronesa sueca Karin von Fock-Kantzow, morta por tuberculose em 1931, e casado desde 1935 com a atriz Emmy Sonneman, Göring, 50 anos, também é acusado de ser corrupto (fez fortuna com a construção da máquina de guerra alemã) e drogadicto (é viciado em morfina desde que se feriu gravemente no "putsch" da cervejaria, em 1923). Nesta entrevista, concedida pouco antes da rendição total dos alemães em Stalingrado, o marechal do Reich ataca a democracia, defende o Führer e mantém uma confiança inabalável na vitória: "Até quando nossos inimigos serão capazes de insistir em dizer que ganharão?"
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VEJA - A Alemanha sofreu sua primeira grande derrota em Stalingrado. O senhor acredita que seu país será capaz de superar este revés e derrotar os soviéticos?
Göring - Certamente. Daqui a mil anos os alemães falarão desta batalha com reverência e estupor, e se lembrarão de que, apesar de tudo, a vitória final da Alemanha foi decidida ali. No futuro, muito se falará da heróica luta no Rio Volga. Quando alguém vier à Alemanha, pode dizer que viu meu povo caído em Stalingrado, como nossa honra e nossos líderes ordenaram, pela glória maior do país. Mas o dia chegará em que lembrarei de tudo o que fizeram conosco, e serei forte o suficiente para devolver o golpe.

 "O Führer já teve de tomar decisões duras na vida. Mas essa foi fácil: iria fechar seus olhos para o perigo?"
  

VEJA - Antes de atacar a URSS, seu país acumulava uma série de êxitos. Hitler errou ao rasgar o pacto de não-agressão e invadir o território soviético?
Göring - De forma alguma. Com o pacto, o Führer queria poupar o povo de uma batalha desnecessária, mas logo percebeu que os bolcheviques queriam apenas mais tempo construir seu arsenal. Ele viu, com seu pensamento claro e genial, que tudo estava sendo feito para que a Alemanha fosse atacada e destruída. Acredite, nosso Führer já teve de tomar decisões duríssimas na vida. Mas essa foi fácil: como seria possível fechar os olhos para o perigo? E então ele desferiu o primeiro golpe, com a força e o gênio com que só ele é capaz de atacar.

VEJA - O senhor e outros líderes nazistas chamam os soviéticos de "subumanos" e afirmam que os alemães constituem uma raça superior de homens. Como explicar então os recentes avanços de seus inimigos?
Göring - Ninguém fala das batalhas em que os exércitos soviéticos foram atropelados, arrasados, destruídos. Penetramos mil quilômetros em território soviético. Quando preparávamos mais um duro golpe, outro inimigo apareceu. Não foram novas divisões ou novas armas: foi o inverno que se levantou contra nós. Aquela luta foi dura, mas foi contra o frio. Até sob a mais congelante tempestade o soldado alemão se sentiu superior ao inimigo. Quando a briga era para valer, homem contra homem, os soviéticos foram derrotados. Entretanto, quando tempestades gélidas e obstáculos congelados permitiram, o inimigo conseguiu penetrar em nossas linhas.

VEJA - Os invernos rigorosos dos últimos três anos também atrapalharam os esforços de guerra dentro da Alemanha. Faltará comida para seu país? Os racionamentos de alimentos continuarão?
Göring - Esse problemas foram resolvidos e não voltarão a ocorrer. Quem diz o contrário está fazendo propaganda para o inimigo. Os territórios conquistados por nós são os mais férteis da Europa e já fornecem comida para todos os exércitos alemães. Não quero ver as populações dos países ocupados sofrendo privações, mas os trabalhadores alemães terão mais comida do que os outros, é evidente. O povo alemão vem na frente.

"Nunca minimizei o impacto desses ataques. Sei como é. Sei que muitas pessoas inocentes morrem assim." 
  
VEJA - Mesmo assim, a população da Alemanha vive gravíssimas dificuldades em função da guerra. O povo ainda apóia Hitler?
Göring - A população alemã está disposta a suportar o fardo da guerra por quanto tempo for necessário, com inabalável determinação. Como o governo está fazendo tudo o que pode para cuidar das pessoas, elas precisam ser bem comportadas e decentes o bastante para entender e confiar em seus líderes. O Führer já expressou sua gratidão ao povo alemão por apoiá-lo. Mas é o povo que deve agradecer ao Führer, e sua performance titânica na guerra deve ser reconhecida por todos. É claro, há sempre os que se excluem do resto. Para eles, nada está bom, tudo está errado. Como são poucos, podemos segregá-los com facilidade.

VEJA - Mas já surgem relatos sobre atos organizados de oposição a Hitler, como o movimento de estudantes de Munique (leia reportagem nesta edição)...
Göring - Não acredite em tudo o que você ouve. Afinal, você não viu nada disso pessoalmente, certo? Isso é tudo propaganda inimiga, não passa de uma farsa. A culpa é toda dos judeus, que continuam mentindo como sempre. Só que agora eles não estão mais entre nós, graças a Deus. Como não vivem mais aqui, tentam mandar para cá esse lixo que existe apenas na cabeça deles. Mas os tempos são outros, e hoje somos uma comunidade unida e segura. Queria que os judeus reconhecessem isso.

VEJA - O senhor costumava ridicularizar a possibilidade de ter seu país bombardeado, pois apostava que a Luftwaffe impediria qualquer ofensiva aérea. Como vê a situação atual, em que as cidades alemãs são alvos freqüentes de ataques dos Aliados?
Göring - Veja bem, eu jamais minimizei o impacto desses ataques. Eu sei como é. Sou um expert. Sei o que acontece quando cem ou duzentos aviões despejam suas bombas. Sei que muita gente inocente morre desta forma, sem qualquer razão. Pode ter certeza de que estou fazendo o máximo para aliviar a situação e prevenir bombardeios, em especial através de contra-ataques. Mas não devemos esquecer que precisamos lutar no front do leste e não podemos manter a defesa em escala total. De qualquer forma, o inimigo sempre sofre pesadas baixas nessas investidas.

 "Não precisava de nenhum pretexto a mais para tomar providências contra os comunistas. Já tinha boas razões."
  
VEJA - Os americanos e britânicos dizem o contrário. Eles contam que os ataques enfrentam resistência cada vez menor...
Göring - Até quando nossos inimigos serão capazes de insistir em dizer que ganharão esta guerra? Tudo pesa em nosso favor quando consideramos a situação. Eles têm uma ou outra esperança quando ouvem os números astronômicos da produção dos Estados Unidos. Bem, eu seria a última pessoa a subestimar a produção dos americanos. Em alguns campos eles fizeram progressos colossais. Sabemos que foram estupendos no setor automotivo. Também ganharam méritos especiais com o rádio e a lâmina. Mas essas coisas não são úteis para se ganhar uma guerra. Soube que eles têm enormes dificuldades para produzir armas. Não é possível formar um exército de milhões e, ao mesmo tempo, triplicar o número de trabalhadores. A conta não fecha, nem aqui nem nos EUA. Mas aqueles senhores demoram a aprender. São democratas...

VEJA - Mas foi justamente sob um regime democrático que os EUA se tornaram o país mais rico do mundo. Isso não prova a eficácia dessa forma de governo?
Göring - É claro que não. No estado democrático, que nós já experimentamos nos tempos da República de Weimar (1919-1933), o trabalhador é explorado ao máximo. Sua energia é usada meramente para o lucro pessoal. E o lucro não vai para ele, e sim para investidores estrangeiros. Pior ainda é a situação sob o regime bolchevique. Nele, o trabalhador é destruído. Milhões de soldados alemães no front soviético viram de perto o que os bolcheviques chamam de "paraíso" dos trabalhadores e camponeses. Alguns soldados eram até adeptos da filosofia comunista, mas agora enviam cartas à Alemanha dizendo que só o nacional-socialismo salva o trabalhador.

VEJA - Por falar na oposição dos nazistas ao comunismo, é verdadeiro o rumor sobre o envolvimento do senhor no incêndio no Reichstag, em 1933? De acordo com fontes alemãs, o senhor confessou, em conversas informais num banquete, ter ateado fogo no prédio para ter um pretexto para perseguir os comunistas, que foram acusados e punidos pelo crime...
Göring - Não tive nenhum envolvimento nesse episódio. Nego isso com veemência. Posso dizer com toda a honestidade que o incêndio no Reichstag provou ser muito inconveniente para nós. Depois do fogo tivemos de usar a Casa de Ópera Kroll como novo parlamento, e a ópera era muito mais importante que o Reichstag para mim. Além disso, não precisávamos de nenhum pretexto adicional para tomar providências contra os comunistas. Eu já tinha várias razões boas o bastante, como os assassinatos que eles cometiam.

VEJA - O senhor parece não ter dúvida alguma da vitória do nazismo. Por que está tão confiante?
Göring - O Todo-Poderoso nos abençoou oferecendo à Alemanha este Führer. Ele era apenas um soldado desconhecido na Grande Guerra. Sem ter nada, apenas com as próprias forças, se tornou não só o poderoso Führer da Alemanha como também o Führer da Europa. Você acredita que a Divina Providência seria tola e caprichosa o bastante para dar uma homem desse porte a um povo, fazê-lo salvar esse povo da mais profunda agonia e, no fim, jogar tudo isso no abismo? É evidente que não.
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Discurso de Hermann Göring ao Reichstag, 1933
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Desembarque aéreo pela 'Luftwaffe' de Göring
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