VEJA, Dezembro de 1941
Ministério da Informação da Grã-Bretanha renasce sob
o comando de Brendan Bracken - Campanhas propagam a mensagem aliada e tentam convencer sobre aliança
com Stalin - Mistério sobre ministro ouriça a sociedade

Propaganda com molho inglês: nos cartazes de guerra, mensagens são otimistas e solenes

ão são apenas as Forças Armadas Alemãs que começam, paulatinamente, a perder para os Aliados a supremacia conquistada de forma acachapante no início desta guerra. Também o Ministério da Propaganda germânico, responsável por tantos êxitos desde o crepúsculo da década de 1930, padece com o sucesso de um tenaz adversário surgido do outro lado do Canal da Mancha. Desde que Brendan Bracken assumiu o até então combalido Ministério da Informação britânico, em julho deste ano, a pasta vem injetando uma nova dose de moral para a causa aliada, dentro e fora da Europa. O novo ministro conseguiu não apenas reorganizar a divulgação de informações para o público interno como também reesquematizou com eficiência as lânguidas campanhas de propaganda direcionadas a países neutros e inimigos.

No início do combate, enquanto Joseph Goebbels e seus assessores no Ministério da Propaganda do Reich faziam maravilhas ideológicas com uma poderosa indústria de slogans, pôsteres e filmes recheados de mensagens subliminares, a Grã-Bretanha era ridicularizada por suas campanhas de caráter meramente exortativos. A falta de informação oficial aos cidadãos britânicos, patrocinada pelo próprio ministério, era um solo fértil para a proliferação de boatos e rumores em geral, que facilitavam a ação inimiga no quintal da monarquia. Com a chegada de Bracken, os jornais e a BBC passaram a ser abastecidos com notícias do front - e, mais importante, sem a censura da gestão do ministro anterior, Duff Cooper. O aumento na transparência apenas fez elevar a confiança da população no governo.

Outro grande desafio do Ministério da Informação tem sido o de propagar a mensagem anti-totalitária para além das fronteiras da Grã-Bretanha. Os Estados Unidos, que antes de Pearl Harbor insistiam em se manter neutros no conflito, foram exemplo de alvo das articulações da propaganda britânica - seja com o envio para a América de "emissários" como Alfred Hitchcock e Graham Greene, seja com o estabelecimento de uma relação estreita entre autoridades governamentais e correspondentes americanos em Londres. Por meio destes, por exemplo, algumas fotos da destruição causada na Inglaterra por bombardeios alemães - aquelas que eram consideradas assustadoras demais até para o público interno - foram divulgadas na imprensa americana, com a intenção de despertar a empatia dos ianques e demovê-los da idéia do isolacionismo.
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Falso careca - Entretanto, a internacionalização do conflito também trouxe alguns problemas à propaganda britânica. A maior delas veio logo após a indicação de Bracken ao posto, quando os homens de Adolf Hitler invadiram a União Soviética e Josef Stalin bandeou-se para o lado da Inglaterra. Agora que o temível líder vermelho, de péssima reputação entre os britânicos, passou a ser um aliado, o que dizer ao público a respeito do comunismo, combatido com unhas e dentes por Winston Churchill? Como transformar o ex-adversário Josef no amistoso e simpático Joe Stalin - o "Zé de Aço", tradução do multilíngüe apelido do soviético? Era tarefa tão árdua quanto vender chá Twinings no lugar da cerveja que corre solta nos pubs depois de um clássico futebolístico entre Everton e Arsenal. Mas Bracken conseguiu resolver o problema ao determinar que Stalin e o Exército Vermelho fossem reverenciados à exaustão - sem, contudo, nenhuma menção à palavra comunismo. Para evitar que os comunistas britânicos faturassem clandestinamente com a conseqüente admiração dos conterrâneos pela União Soviética, o ministro antecipou-se e criou a campanha "Tanques para a Rússia", institucionalizando tal relação.

Apesar do bom trabalho no Ministério da Informação, Brendan Bracken, dono de uma cadeia de editoras e jornais, ainda é visto com reservas por setores da sociedade britânica. Pairam sobre este irlandês de 40 anos, amigo pessoal e ex-secretário parlamentar de Churchill, muitas dúvidas e mistérios, especialmente a respeito de suas origens e de sua fortuna. O empreendedor, porém, não colabora para esclarecê-los, contando histórias extravagantes e contraditórias sobre seu passado. Certa vez, ao ouvir um dos suspeitíssimos relatos do ministro sobre seus ancestrais, um cético não se conteve. "Eu não acredito em uma palavra do que você diz", disse o homem a Bracken. "Tudo em você soa falso. Até seu cabelo, que parece uma peruca, não é!"