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O Brasil na guerra
PERFIL: Richard SorgeVEJA, Dezembro de 1941
Richard Sorge, o homem que abriu caminho para vitória soviética em Moscou, é capturado pela sombria Tokko, a polícia política japonesa – Espião que virou casaca e se infiltrou entre nazistas foi largado no cárcere por Stalin

Espião boêmio: duas das raras fotos já vistas de Sorge e o seu cartão de imprensa no Japão

ichard Sorge fez fama entre diplomatas do Eixo, em Tóquio, como um ébrio e mulherengo jornalista alemão. Mas o escriba era apenas o simulacro deste carismático espião soviético, um dos profissionais mais eficientes da história da inteligência internacional. Seu disfarce, como é sabido, finalmente caiu há dois meses, quando foi desmascarado e apanhado pela temível Tokko, a polícia política japonesa. Desde então, encarcerado na prisão de Sugamo, Sorge segue renegado por Josef Stalin, que, sem fazer o menor esforço por sua libertação, parece definitivamente decidido a deixar o espião entregue à própria sorte - uma tremenda ironia quando se lembra que a última mensagem do informante pode ter selado o destino da guerra a favor dos Aliados.

Em setembro, Sorge relatou que o Japão desistira de atacar a Rússia, preferindo concentrar-se nas colônias ocidentais do Sul; a informação permitiu ao marechal vermelho Georgi Zhukov remover suas tropas da Sibéria, onde estavam plantadas para contra-atacar a esperada ofensiva nipônica, e redirecioná-las para a defesa de Moscou. O reforço de última hora foi preponderante no êxito do Exército Vermelho sobre a Wehrmacht na capital russa, triunfo que tem significado maiúsculo no teatro de operações. Analistas internacionais são unânimes em dizer que, caso os nazistas tivessem tomado o Kremlin, a balança da guerra penderia de forma quase definitiva para o lado alemão. Agora, com o fiasco em Moscou, a tropa teutônica, em crise moral e hierárquica, tem sua eficiência colocada em xeque.
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Borracho - Nascido na Rússia em 1895, filho de pai alemão e mãe soviética, Sorge foi criado na Alemanha e combateu pelo exército germânico na Grande Guerra. Após o fim do conflito, porém, aprofundou-se nos estudos marxistas e virou a casaca. Adotou a ideologia comunista, mudou-se para Moscou e tornou-se um agente júnior do Comintern. No início da década passada, Sorge foi enviado ao Japão como correspondente do jornal Frankfurter Zeitung. Ingressou no Partido Nazista e tornou-se próximo do embaixador alemão em Tóquio. Arregimentou contatos de alto gabarito, entre eles Ozaki Hotsumi, conselheiro de confiança do primeiro-ministro japonês, formando uma eficiente rede de espionagem no Oriente, com informações quentes dos lados do Japão e da Alemanha.

No primeiro semestre deste ano, o espião transmitiu a Moscou dados precisos sobre a intenção de Adolf Hitler de invadir a Rússia, enviando inclusive a data em que o ataque seria levado a cabo. Os alertas de Sorge, porém, foram ignorados por Stalin. Em junho, quando o Führer iniciou a operação Barbarossa, o agente voltou a ganhar o prestígio e a confiança dos militares russos - tanto que sua informação sobre o ataque japonês no Sul motivou uma maciça transferência das forças militares siberianas para Moscou.

Fontes próximas ao governo vermelho informam que, apesar da perspicácia e da devoção do espião à causa camarada, Stalin nunca foi um entusiasta de Sorge, homem de atitudes extravagantes e exageradas. A indiscreta personalidade do informante, paradoxalmente, ajudava a manter em segredo seu disfarce: era difícil desconfiar do jornalista que via de regra se apresentava bêbado em eventos sociais, e se mostrava um boêmio incorrigível, sempre amarrado a inúmeros rabos-de-saia. Habilidoso, Sorge cometeu a proeza de seduzir a esposa do embaixador tedesco e passar impune. Entretanto, com a complacência de Stalin, tudo indica que o bon-vivant finalmente pagará todos os seus pecados nas garras afiadas da Tokko.

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