Richard Sorge, o homem que abriu caminho para vitória soviética
em Moscou, é capturado pela sombria Tokko, a polícia política
japonesa Espião que virou casaca e se infiltrou entre nazistas foi
largado no cárcere por Stalin
Espião boêmio: duas das raras fotos já
vistas de Sorge e o seu cartão de imprensa no Japão
ichard Sorge fez fama entre diplomatas do Eixo, em Tóquio, como
um ébrio e mulherengo jornalista alemão. Mas o escriba era apenas
o simulacro deste carismático espião soviético, um dos profissionais
mais eficientes da história da inteligência internacional. Seu disfarce,
como é sabido, finalmente caiu há dois meses, quando foi desmascarado
e apanhado pela temível Tokko, a polícia política japonesa.
Desde então, encarcerado na prisão de Sugamo, Sorge segue renegado
por Josef Stalin, que, sem fazer o menor esforço por sua libertação,
parece definitivamente decidido a deixar o espião entregue à própria
sorte - uma tremenda ironia quando se lembra que a última mensagem do informante
pode ter selado o destino da guerra a favor dos Aliados.
Em setembro,
Sorge relatou que o Japão desistira de atacar a Rússia, preferindo
concentrar-se nas colônias ocidentais do Sul; a informação
permitiu ao marechal vermelho Georgi Zhukov remover suas tropas da Sibéria,
onde estavam plantadas para contra-atacar a esperada ofensiva nipônica,
e redirecioná-las para a defesa de Moscou. O reforço de última
hora foi preponderante no êxito do Exército Vermelho sobre a Wehrmacht
na capital russa, triunfo que tem significado maiúsculo no teatro de operações.
Analistas internacionais são unânimes em dizer que, caso os nazistas
tivessem tomado o Kremlin, a balança da guerra penderia de forma quase
definitiva para o lado alemão. Agora, com o fiasco em Moscou, a tropa teutônica,
em crise moral e hierárquica, tem sua eficiência colocada em xeque.
...
Borracho - Nascido na Rússia
em 1895, filho de pai alemão e mãe soviética, Sorge foi criado
na Alemanha e combateu pelo exército germânico na Grande Guerra.
Após o fim do conflito, porém, aprofundou-se nos estudos marxistas
e virou a casaca. Adotou a ideologia comunista, mudou-se para Moscou e tornou-se
um agente júnior do Comintern. No início da década passada,
Sorge foi enviado ao Japão como correspondente do jornal Frankfurter
Zeitung. Ingressou no Partido Nazista e tornou-se próximo do embaixador
alemão em Tóquio. Arregimentou contatos de alto gabarito, entre
eles Ozaki Hotsumi, conselheiro de confiança do primeiro-ministro japonês,
formando uma eficiente rede de espionagem no Oriente, com informações
quentes dos lados do Japão e da Alemanha.
No primeiro semestre
deste ano, o espião transmitiu a Moscou dados precisos sobre a intenção
de Adolf Hitler de invadir a Rússia, enviando inclusive a data em que o
ataque seria levado a cabo. Os alertas de Sorge, porém, foram ignorados
por Stalin. Em junho, quando o Führer iniciou a operação
Barbarossa, o agente voltou a ganhar o prestígio e a confiança dos
militares russos - tanto que sua informação sobre o ataque japonês
no Sul motivou uma maciça transferência das forças militares
siberianas para Moscou.
Fontes próximas ao governo vermelho informam
que, apesar da perspicácia e da devoção do espião
à causa camarada, Stalin nunca foi um entusiasta de Sorge, homem de atitudes
extravagantes e exageradas. A indiscreta personalidade do informante, paradoxalmente,
ajudava a manter em segredo seu disfarce: era difícil desconfiar do jornalista
que via de regra se apresentava bêbado em eventos sociais, e se mostrava
um boêmio incorrigível, sempre amarrado a inúmeros rabos-de-saia.
Habilidoso, Sorge cometeu a proeza de seduzir a esposa do embaixador tedesco e
passar impune. Entretanto, com a complacência de Stalin, tudo indica que
o bon-vivant finalmente pagará todos os seus pecados nas garras
afiadas da Tokko.