O presidente americano assegura
que foi pego de surpresa em Pearl Harbor, reconhece triunfo japonês no Pacífico
e chama sua população a se engajar e participar de duras batalhas
junto das forças aliadas. Para ele, o povo não se esquivará
da missão: "Lutar pelo seu país não é sacrifício,
é um privilégio".
s más linguas dizem que Franklin Delano Roosevelt ignorou os alertas
de ataque a Pearl Harbor a fim de, em meio à comoção provocada
pela tragédia, conseguir o apoio da população para finalmente
levar os Estados Unidos à guerra. Obviamente, o experiente político
jamais admitirá tal jogada, ainda que sua opinião pessoal sobre
o conflito na Europa tenha sido sempre cristalina. Internacionalista convicto,
FDR, 59 anos - primo distante do ex-presidente Theodore Roosevelt (1859-1919)
-, sempre viu a neutralidade americana como fator encorajador dos rompantes expansionistas
da Alemanha, Itália e Japão. Mas, democrático, seguiu a opção
da população norte-americana pela não-interferência
na guerra européia, elevando inclusive ao status de lei os Atos de Neutralidade
que impediam os Estados Unidos de fornecer ajuda aos países beligerantes.
Aos poucos, porém, Roosevelt conseguiu dobrar o Congresso e a população,
passando a enviar armas e suprimentos a Grã-Bretanha e Rússia, entre
outros. Após Pearl Harbor, então, aproveitou para fazer a nação
mergulhar na guerra. Nesta entrevista, o presidente comenta a situação
atual das forças norte-americanas e reforça a importância
da aliança internacional para a vitória contra o Eixo. "Precisamos
de uma vez por todas abandonar a ilusão de que podemos nos isolar novamente
do resto da humanidade."
...
VEJA - O ataque a Pearl
Harbor parece ter pego os Estados Unidos de surpresa, apesar dos recorrentes indícios
da iminente agressão japonesa. Como ficam agora as forças americanas
no Pacífico? Roosevelt - Temos de admitir que nossos inimigos
obtiveram sucesso em sua manobra pérfida, executada com maestria. Posso
dizer com sinceridade que não sabíamos de nada. Foi sem dúvida
um ato desonroso, mas precisamos encarar o fato de que a guerra moderna, da forma
que é executada pelos nazistas, é um negócio sujo. Não
gostamos disso, não queríamos ter entrado nisso, mas agora entramos
e iremos lutar contra isso com tudo que temos. O estrago foi grande, e certamente
nossas baixas nesses primeiros dias serão enormes. Mas este é só
o começo de um longo caminho a ser percorrido. Precisamos estar preparados
para encarar uma duradoura guerra contra bandidos habilidosos e poderosos. O ataque
a Pearl Harbor pode ser repetido em muitos pontos, seja no oceano, em nosso litoral
ou em qualquer lugar do hemisfério. Mas faremos de tudo para que esta forma
de trapaça nunca mais nos coloque em perigo.
"É só
o começo de um caminho longo. Eles são bandidos muito
perigosos. Mas farei de tudo."
VEJA - Durante muito tempo, o governo dos Estados Unidos recusou-se
a entrar na batalha contra o Eixo. Depois de Pearl Harbor, essa postura gera algum
tipo de arrependimento? Roosevelt - De forma alguma. Posso dizer
com a maior segurança que qualquer norte-americano, hoje ou daqui a mil
anos, deverá sentir orgulho pela paciência e pelos esforços
de seu país nestes anos em busca da conquista da paz no Pacífico,
que seria justa e honrosa para todas as nações, grandes ou pequenas.
Nenhuma pessoa honesta, hoje ou daqui a mil anos, conseguirá suprimir uma
sensação de indignação e horror pela traição
cometida pelos ditadores militares do Japão, enquanto seus enviados especiais
nos traziam a bandeira da paz.
VEJA - De qualquer forma, por
terem iniciado as batalhas, Alemanha e Japão estão alguns corpos
à frente neste momento da guerra. Como os Estados Unidos podem e pretendem
reagir às investidas do Eixo? Roosevelt - Um ano e meio
se passou desde a queda da França, quando o mundo tomou conhecimento do
poderio mecanizado que as nações do Eixo construíram ao longo
de tantos anos. Os Estados Unidos usaram esse ano e meio para conquistar uma vantagem.
Sabendo que o ataque poderia ser dirigido contra nós em pouco tempo, imediatamente
começamos a aumentar nossa força industrial e nossa capacidade de
suprir as demandas da guerra moderna. Meses preciosos foram ganhos por termos
enviado grande quantidade de material de guerra a países que ainda podiam
resistir à agressão do Eixo. Nossa política apoiava-se na
verdade inconteste de que a defesa de qualquer país que resistisse a Hitler
ou ao Japão era, a longo prazo, a defesa de nosso país. Isso nos
deu tempo e força para construir mais linhas de produção,
que hoje estão em plena operação. Temos um fluxo constante
de tanques, aviões, armas, navios e equipamentos em geral - essa é
a nossa vantagem, que usaremos contra nossos torpes oponentes.
"A fala suave do apaziguamento
não funcionará mais. Isso não tem mais efeito
na população."
VEJA - Na sua opinião, até que ponto a influência
de Hitler contribuiu para o Japão atacar o Havaí? Roosevelt
- Nosso governo já tinha consciência de que a Alemanha vinha dizendo
aos japoneses que, caso o Japão não atacasse os Estados Unidos,
o país oriental não teria direito a participar da divisão
do espólio quando a paz fosse instalada. A Alemanha prometeu aos orientais
que, atacando os Estados Unidos, o Japão receberia o controle completo
e perpétuo de toda a área do Pacífico. Também sabemos
que a Alemanha e o Japão estão conduzindo suas operações
navais e militares de acordo com um plano conjunto - essa é sua simples
e obviamente grandiosa estratégia. Por isso, devemos entender que somente
uma grande estratégia militar internacional pode fazer frente a essa pretensão
do Eixo. A conversa suave do apaziguamento não funciona mais: dizer que
Hitler não está interessado no Hemisfério Ocidental não
tem mais efeito na população norte-americana, consciente da realidade.
VEJA - O senhor tem provas desse suposto interesse do Führer? Roosevelt - Sim, eu possuo um mapa secreto feito na Alemanha pelo governo
de Hitler, os pretensos arquitetos da nova ordem mundial. É um mapa da
América do Sul e de parte da América Central, todo reorganizado
de acordo com a vontade de Hitler. Hoje, nessa área existem 14 países;
os cérebros geográficos de Berlim, porém, simplesmente apagaram
todas as linhas de fronteira e dividiram a América do Sul em cinco estados
vassalares, levando todo o continente para sua dominação. E eles
o fizeram de tal forma que um desses novos estados-marionete inclui a República
do Panamá e o nosso canal. Além disso, tenho um outro documento
feito pelo governo de Hitler, que revela um plano para abolir todas as religiões
existentes num mundo dominado pelo nazismo - protestantes, católicos, muçulmanos,
hindus, budistas e judeus, todos desapareceriam, e seria imposta uma Igreja Internacional
do Nazismo, em que um deus de sangue e ferro substituiria o Deus do amor e da
clemência. Obviamente, temos de lutar com todas as forças contra
isso.
"Poderia dizer
que o sacrifício nos espera. Mas não é certo usar
essa palavra. É um privilégio."
VEJA - É sabido que o povo norte-americano, devotado
ao isolacionismo, opôs-se à guerra até o último minuto.
Com o ataque a Pearl Harbor e as informações como as que o senhor
acabou de mencionar, acredita que a população já abraçou
a causa dos Aliados na guerra? Roosevelt - Sim, com certeza. Precisamos
de uma vez por todas abandonar a ilusão de que podemos nos isolar novamente
do resto da humanidade. Só assim teremos a certeza de que demonstrações
de vileza como o ataque a Pearl Harbor não nos atingirão novamente.
Nos últimos anos - e mais violentamente nos últimos dias -, aprendemos
uma terrível lição. E é uma obrigação
para com nossos mortos - é uma obrigação sagrada para suas
crianças e nossas crianças - que jamais nos esqueçamos desta
lição. Eu poderia dizer-lhes que um grande sacrifício nos
espera. Mas não é correto usar esta palavra. As pessoas nos EUA
não consideram um sacrifício dar o melhor de si para a nação,
quando a nação luta por sua existência e por seu futuro. É,
ao contrário, um privilégio.
...
Discurso
de Roosevelt depois de Pearl Harbor Baixar
áudio
A
preparação dos Estados Unidos para a guerra Baixar
vídeo