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Edição especial
O Brasil na guerra
ENTREVISTA: Franklin Delano RooseveltVEJA, Dezembro de 1941
O presidente americano assegura que foi pego de surpresa em Pearl Harbor, reconhece triunfo japonês no Pacífico e chama sua população a se engajar e participar de duras batalhas junto das forças aliadas. Para ele, o povo não se esquivará da missão: "Lutar pelo seu país não é sacrifício, é um privilégio".
s más linguas dizem que Franklin Delano Roosevelt ignorou os alertas de ataque a Pearl Harbor a fim de, em meio à comoção provocada pela tragédia, conseguir o apoio da população para finalmente levar os Estados Unidos à guerra. Obviamente, o experiente político jamais admitirá tal jogada, ainda que sua opinião pessoal sobre o conflito na Europa tenha sido sempre cristalina. Internacionalista convicto, FDR, 59 anos - primo distante do ex-presidente Theodore Roosevelt (1859-1919) -, sempre viu a neutralidade americana como fator encorajador dos rompantes expansionistas da Alemanha, Itália e Japão. Mas, democrático, seguiu a opção da população norte-americana pela não-interferência na guerra européia, elevando inclusive ao status de lei os Atos de Neutralidade que impediam os Estados Unidos de fornecer ajuda aos países beligerantes. Aos poucos, porém, Roosevelt conseguiu dobrar o Congresso e a população, passando a enviar armas e suprimentos a Grã-Bretanha e Rússia, entre outros. Após Pearl Harbor, então, aproveitou para fazer a nação mergulhar na guerra. Nesta entrevista, o presidente comenta a situação atual das forças norte-americanas e reforça a importância da aliança internacional para a vitória contra o Eixo. "Precisamos de uma vez por todas abandonar a ilusão de que podemos nos isolar novamente do resto da humanidade."
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VEJA - O ataque a Pearl Harbor parece ter pego os Estados Unidos de surpresa, apesar dos recorrentes indícios da iminente agressão japonesa. Como ficam agora as forças americanas no Pacífico?
Roosevelt - Temos de admitir que nossos inimigos obtiveram sucesso em sua manobra pérfida, executada com maestria. Posso dizer com sinceridade que não sabíamos de nada. Foi sem dúvida um ato desonroso, mas precisamos encarar o fato de que a guerra moderna, da forma que é executada pelos nazistas, é um negócio sujo. Não gostamos disso, não queríamos ter entrado nisso, mas agora entramos e iremos lutar contra isso com tudo que temos. O estrago foi grande, e certamente nossas baixas nesses primeiros dias serão enormes. Mas este é só o começo de um longo caminho a ser percorrido. Precisamos estar preparados para encarar uma duradoura guerra contra bandidos habilidosos e poderosos. O ataque a Pearl Harbor pode ser repetido em muitos pontos, seja no oceano, em nosso litoral ou em qualquer lugar do hemisfério. Mas faremos de tudo para que esta forma de trapaça nunca mais nos coloque em perigo.

 "É só o começo
de um caminho
longo. Eles são
bandidos muito
perigosos. Mas
farei de tudo."
  
VEJA - Durante muito tempo, o governo dos Estados Unidos recusou-se a entrar na batalha contra o Eixo. Depois de Pearl Harbor, essa postura gera algum tipo de arrependimento?
Roosevelt - De forma alguma. Posso dizer com a maior segurança que qualquer norte-americano, hoje ou daqui a mil anos, deverá sentir orgulho pela paciência e pelos esforços de seu país nestes anos em busca da conquista da paz no Pacífico, que seria justa e honrosa para todas as nações, grandes ou pequenas. Nenhuma pessoa honesta, hoje ou daqui a mil anos, conseguirá suprimir uma sensação de indignação e horror pela traição cometida pelos ditadores militares do Japão, enquanto seus enviados especiais nos traziam a bandeira da paz.

VEJA - De qualquer forma, por terem iniciado as batalhas, Alemanha e Japão estão alguns corpos à frente neste momento da guerra. Como os Estados Unidos podem e pretendem reagir às investidas do Eixo?
Roosevelt - Um ano e meio se passou desde a queda da França, quando o mundo tomou conhecimento do poderio mecanizado que as nações do Eixo construíram ao longo de tantos anos. Os Estados Unidos usaram esse ano e meio para conquistar uma vantagem. Sabendo que o ataque poderia ser dirigido contra nós em pouco tempo, imediatamente começamos a aumentar nossa força industrial e nossa capacidade de suprir as demandas da guerra moderna. Meses preciosos foram ganhos por termos enviado grande quantidade de material de guerra a países que ainda podiam resistir à agressão do Eixo. Nossa política apoiava-se na verdade inconteste de que a defesa de qualquer país que resistisse a Hitler ou ao Japão era, a longo prazo, a defesa de nosso país. Isso nos deu tempo e força para construir mais linhas de produção, que hoje estão em plena operação. Temos um fluxo constante de tanques, aviões, armas, navios e equipamentos em geral - essa é a nossa vantagem, que usaremos contra nossos torpes oponentes.

"A fala suave do
apaziguamento
não funcionará
mais. Isso não
tem mais efeito
na população."
 
  
VEJA - Na sua opinião, até que ponto a influência de Hitler contribuiu para o Japão atacar o Havaí?
Roosevelt - Nosso governo já tinha consciência de que a Alemanha vinha dizendo aos japoneses que, caso o Japão não atacasse os Estados Unidos, o país oriental não teria direito a participar da divisão do espólio quando a paz fosse instalada. A Alemanha prometeu aos orientais que, atacando os Estados Unidos, o Japão receberia o controle completo e perpétuo de toda a área do Pacífico. Também sabemos que a Alemanha e o Japão estão conduzindo suas operações navais e militares de acordo com um plano conjunto - essa é sua simples e obviamente grandiosa estratégia. Por isso, devemos entender que somente uma grande estratégia militar internacional pode fazer frente a essa pretensão do Eixo. A conversa suave do apaziguamento não funciona mais: dizer que Hitler não está interessado no Hemisfério Ocidental não tem mais efeito na população norte-americana, consciente da realidade.

VEJA - O senhor tem provas desse suposto interesse do Führer?
Roosevelt - Sim, eu possuo um mapa secreto feito na Alemanha pelo governo de Hitler, os pretensos arquitetos da nova ordem mundial. É um mapa da América do Sul e de parte da América Central, todo reorganizado de acordo com a vontade de Hitler. Hoje, nessa área existem 14 países; os cérebros geográficos de Berlim, porém, simplesmente apagaram todas as linhas de fronteira e dividiram a América do Sul em cinco estados vassalares, levando todo o continente para sua dominação. E eles o fizeram de tal forma que um desses novos estados-marionete inclui a República do Panamá e o nosso canal. Além disso, tenho um outro documento feito pelo governo de Hitler, que revela um plano para abolir todas as religiões existentes num mundo dominado pelo nazismo - protestantes, católicos, muçulmanos, hindus, budistas e judeus, todos desapareceriam, e seria imposta uma Igreja Internacional do Nazismo, em que um deus de sangue e ferro substituiria o Deus do amor e da clemência. Obviamente, temos de lutar com todas as forças contra isso.

 "Poderia dizer
que o sacrifício
nos espera. Mas
não é certo usar
essa palavra. É
um privilégio."
  
VEJA - É sabido que o povo norte-americano, devotado ao isolacionismo, opôs-se à guerra até o último minuto. Com o ataque a Pearl Harbor e as informações como as que o senhor acabou de mencionar, acredita que a população já abraçou a causa dos Aliados na guerra?
Roosevelt - Sim, com certeza. Precisamos de uma vez por todas abandonar a ilusão de que podemos nos isolar novamente do resto da humanidade. Só assim teremos a certeza de que demonstrações de vileza como o ataque a Pearl Harbor não nos atingirão novamente. Nos últimos anos - e mais violentamente nos últimos dias -, aprendemos uma terrível lição. E é uma obrigação para com nossos mortos - é uma obrigação sagrada para suas crianças e nossas crianças - que jamais nos esqueçamos desta lição. Eu poderia dizer-lhes que um grande sacrifício nos espera. Mas não é correto usar esta palavra. As pessoas nos EUA não consideram um sacrifício dar o melhor de si para a nação, quando a nação luta por sua existência e por seu futuro. É, ao contrário, um privilégio.
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Discurso de Roosevelt depois de Pearl Harbor
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A preparação dos Estados Unidos para a guerra
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