O supremo comandante
bolchevique é agora inimigo de Hitler - com quem
a URSS fez um tratado de não-agressão, em
1939. Stalin aposta que o Exército Vermelho vencerá
em seu duelo com a Wehrmacht e dá boas-vindas ao
apoio do antigo rival Churchill: "Isso evoca um sentimento
de gratidão pelo país".
sonho de Ekaterina Vissarionovich era de que seu filho fosse
padre. E o garoto Josef bem que tentou, entrando, aos 15 anos,
no Seminário de Tiflis. Para desgosto da mãe,
porém, o jovem seminarista foi expulso da tradicional
instituição ortodoxa russa cinco anos depois,
em 1899, por faltar regularmente aos exames - Josef estava mais
interessado no movimento socialista, do qual se tornou figura
atuante. Preso e exilado repetidas vezes na Sibéria,
adotou em 1913 o pseudônimo de Stalin, ou "Homem
de Aço"; depois da morte de Lênin, conseguiu
escantear o rival Trostky numa briga de foice e martelo pela
liderança do partido comunista. Tornou-se, então,
senhor da União Soviética. Desde 1938, vem aniquilando
quem não diga "amém" a suas idéias.
Considerando-se traído por Adolf Hitler, Stalin busca
agora unir seu povo para resistir à invasão germânica,
arrebatadora em seus primeiros dias. Nesta entrevista, ele garante
que a situação se reverterá, e se recusa
a classificar como equivocada a aliança com o Führer,
agora seu inimigo. "Nenhum país pacífico
poderia recusar um tratado de paz com um vizinho, mesmo que
esse país seja liderado por monstros e canibais como
Adolf Hitler e Joachim von Ribbentrop."
...
VEJA -Em poucos dias, as tropas de Hitler já
capturaram a Lituânia, o Oeste da Bielorússia e
parte da Ucrânia. Como o senhor explica esse sucesso relâmpago
das forças alemãs no território defendido
pelo Exército Vermelho? Stalin - O que ocorre é que a guerra da Alemanha
fascista contra a União Soviética começou
sob condições extremamente favoráveis às
tropas germânicas. A Alemanha, como um país em
guerra, tinha suas tropas todas mobilizadas, e as 170 divisões
que foram trazidas para as fronteiras da União Soviética
estavam em total estado de alerta, esperando apenas um sinal
para entrar em ação. Já as tropas soviéticas
ainda tiveram de ser mobilizadas e deslocadas para as fronteiras.
VEJA -Mas países como a Grã-Bretanha
e os Estados Unidos, além de seu próprio serviço
de inteligência, já alertavam para esse ataque. Stalin - Não, senhor. O que sabíamos é
que tínhamos um pacto com a Alemanha desde 1939, pacto
de não-agressão que a Alemanha nazista súbita
e traiçoeiramente violou, ignorando o fato de que todo
o mundo a enxergaria como a agressora. Naturalmente, um país
como o nosso, amante da paz, que jamais tomaria a iniciativa
de romper um pacto, não poderia recorrer a essa insídia.
Ela foi única e exclusivamente fruto de Hitler e Ribbentrop,
seres pérfidos, falsos e desleais.
"Tínhamos
um pacto com eles - um pacto que foi traiçoeiramente violado.
Hitler é pérfido e falso."
VEJA -Não terá sido então um
erro da parte do senhor colocar a União Soviética
em aliança com figuras desse naipe, assinando um pacto
de não-agressão com a Alemanha nazista? Stalin - Claro que não! Um pacto de não-agressão
é um pacto de paz entre dois países. Foi exatamente isso que a Alemanha
nos propôs em 1939. Acredito que nenhum país pacífico poderia
recusar um tratado de paz com um país vizinho, mesmo que esse país
seja liderado por monstros e canibais como Hitler e Ribbentrop. Isso, claro, sob
a condição indispensável que esse tratado de paz não
ameaçasse, direta ou indiretamente, a integridade territorial, a independência
e a honra do país amante da paz.
VEJA -Agora que o acordo foi para as calendas gregas,
fica a pergunta: o pacto com a Alemanha foi de alguma forma
favorável para a União Soviética? Stalin - Sem dúvida. Asseguramos a paz por mais
de um ano e meio, ganhando a oportunidade de preparar nossas
forças para repelir as forças fascistas germânicas
caso elas atacassem nosso país em violação
do pacto. Definitivamente, foi uma vantagem para nós
e uma desvantagem para a Alemanha fascista. E o que foi que
a Alemanha ganhou e perdeu por rasgar o pacto e atacar a União
Soviética? Ela ganhou uma posição de vantagem
para suas tropas por um curto período de tempo, mas perdeu
politicamente por ter se exposto aos olhos de todo o mundo como
uma sanguinária agressora. Não há dúvida
que esse ganho militar da Alemanha é efêmero, enquanto
que o ganho político da União Soviética
é tremendo, um fato respeitável e duradouro que
deverá formar a base para o desenvolvimento de um sucesso
militar do Exército Vermelho na guerra contra a Alemanha.
"Não há lugar para
chorões ou covardes. Nosso exército e nosso povo não
podem temer essa luta."
VEJA - De que forma esse sucesso pode ser alcançado?
Quais medidas precisam ser tomadas internamente para vencer
a Alemanha? Stalin
- Acima de tudo, é essencial que nosso povo perceba o imenso perigo
que ameaça nosso país, e, assim, elimine a complacência, o
relaxamento e a mentalidade de trabalho pacífico e construtivo que vinha
sendo tão natural antes da guerra, mas que hoje, diante de uma situação
radicalizada pelas batalhas, pode ser fatal. O inimigo é cruel e implacável,
e está aqui para tomar as terras que foram regadas com o suor de nossa
fronte, para tomar os grãos e o petróleo que foram obtidos pelo
trabalho de nossas mãos. Ele está aqui para restaurar o czarismo
e destruir as culturas nacionais dos povos livres da União Soviética,
para torná-los escravos dos príncipes e barões germânicos.
Por isso, a questão que se apresenta a nós é de vida ou morte.
Os habitantes da União Soviética, então, precisam se mobilizar
e reorganizar seu trabalho em um novo equilíbrio, um equilíbrio
de guerra, no qual não pode haver piedade para o inimigo.
VEJA -Desde 1936, o senhor tem promovido um expurgo
nos comandos das forças armadas. Isso não pode
prejudicar a resistência militar da União Soviética? Stalin - Pelo contrário. Em nossas fileiras, não
há lugar para chorões ou covardes, para alarmistas
e desertores. Nosso exército e nosso povo não
podem ter medo da luta, devem se unir de corpo e alma à
Guerra Patriótica de libertação contra
os captores fascistas. Lênin, o grande fundador de nosso
Estado, costumava dizer que as maiores virtudes dos homens e
mulheres soviéticos eram a coragem, o valor, o destemor
na luta e a prontidão para lutar, unidos, contra os inimigos
do país. Essas esplêndidas virtudes bolcheviques
devem ser assimiladas pelos milhões de homens do Exército
Vermelho e da Marinha Vermelha e por todos os povos da União
Soviética. Elas só nos farão mais fortes.
"A história
nos mostra que não há um exército invencível.
E a tropa de Hitler será derrotada."
VEJA -Britânicos e americanos já ofereceram
apoio à causa soviética. Está se desenhando
uma aliança tripartite contra a ameaça nazista? Stalin - A guerra contra a Alemanha não pode ser
considerada uma guerra comum. O objetivo desta Guerra Patriótica
popular contra os opressores fascistas é não apenas
repelir o perigo que assombra nosso país mas também
ajudar todos os povos europeus que gemem sob o jugo do fascismo
alemão. E, nessa guerra de libertação,
devemos ter como aliados genuínos os países da
Europa e da América, incluindo os alemães que
estão escravizados pelos desmandos de Hitler. Será
um front dos povos que defendem a liberdade contra a escravidão
e suas ameaças representadas pelos exércitos de
Hitler. Nesse sentido, as afirmações de Winston
Churchill e a declaração de apoio do governo dos
Estados Unidos, que evocam um sentimento de gratidão
nos corações dos soviéticos, são
completamente compreensíveis e sintomáticas.
VEJA - O senhor acredita que a máquina de guerra
do Reich pode ser derrotada? Stalin - A história mostra que não existem
exércitos invencíveis. O exército de Napoleão
era considerado imbatível, mas foi derrotado sucessivamente
por tropas da Rússia, da Inglaterra e da Alemanha. O
exército do kaiser Guilherme no período
da primeira guerra imperialista também era considerado
invencível, mas foi vencido diversas vezes pelas tropas
russas e anglo-francesas, sendo finalmente arrasado por elas.
A mesma coisa pode ser dita hoje do exército fascista
de Hitler. Esse exército, até agora, não
se deparou com uma resistência de verdade no continente
europeu. Somente em nosso território é que ele
encontrará essa resistência. E, assim, o exército
fascista de Hitler será derrotado, assim como o foram
os exércitos de Napoleão e Guilherme.
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Josef Stalin convoca
sua população à guerra Baixar
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