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Edição especial
O Brasil na guerra
ENTREVISTA: Josef StalinVEJA, Junho de 1941
O supremo comandante bolchevique é agora inimigo de Hitler - com quem a URSS fez um tratado de não-agressão, em 1939. Stalin aposta que o Exército Vermelho vencerá em seu duelo com a Wehrmacht e dá boas-vindas ao apoio do antigo rival Churchill: "Isso evoca um sentimento de gratidão pelo país".
sonho de Ekaterina Vissarionovich era de que seu filho fosse padre. E o garoto Josef bem que tentou, entrando, aos 15 anos, no Seminário de Tiflis. Para desgosto da mãe, porém, o jovem seminarista foi expulso da tradicional instituição ortodoxa russa cinco anos depois, em 1899, por faltar regularmente aos exames - Josef estava mais interessado no movimento socialista, do qual se tornou figura atuante. Preso e exilado repetidas vezes na Sibéria, adotou em 1913 o pseudônimo de Stalin, ou "Homem de Aço"; depois da morte de Lênin, conseguiu escantear o rival Trostky numa briga de foice e martelo pela liderança do partido comunista. Tornou-se, então, senhor da União Soviética. Desde 1938, vem aniquilando quem não diga "amém" a suas idéias. Considerando-se traído por Adolf Hitler, Stalin busca agora unir seu povo para resistir à invasão germânica, arrebatadora em seus primeiros dias. Nesta entrevista, ele garante que a situação se reverterá, e se recusa a classificar como equivocada a aliança com o Führer, agora seu inimigo. "Nenhum país pacífico poderia recusar um tratado de paz com um vizinho, mesmo que esse país seja liderado por monstros e canibais como Adolf Hitler e Joachim von Ribbentrop."
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VEJA - Em poucos dias, as tropas de Hitler já capturaram a Lituânia, o Oeste da Bielorússia e parte da Ucrânia. Como o senhor explica esse sucesso relâmpago das forças alemãs no território defendido pelo Exército Vermelho?
Stalin - O que ocorre é que a guerra da Alemanha fascista contra a União Soviética começou sob condições extremamente favoráveis às tropas germânicas. A Alemanha, como um país em guerra, tinha suas tropas todas mobilizadas, e as 170 divisões que foram trazidas para as fronteiras da União Soviética estavam em total estado de alerta, esperando apenas um sinal para entrar em ação. Já as tropas soviéticas ainda tiveram de ser mobilizadas e deslocadas para as fronteiras.

VEJA - Mas países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, além de seu próprio serviço de inteligência, já alertavam para esse ataque.
Stalin - Não, senhor. O que sabíamos é que tínhamos um pacto com a Alemanha desde 1939, pacto de não-agressão que a Alemanha nazista súbita e traiçoeiramente violou, ignorando o fato de que todo o mundo a enxergaria como a agressora. Naturalmente, um país como o nosso, amante da paz, que jamais tomaria a iniciativa de romper um pacto, não poderia recorrer a essa insídia. Ela foi única e exclusivamente fruto de Hitler e Ribbentrop, seres pérfidos, falsos e desleais.

 "Tínhamos um
pacto com eles -
um pacto que foi
traiçoeiramente
violado. Hitler é
pérfido e falso."
  
VEJA - Não terá sido então um erro da parte do senhor colocar a União Soviética em aliança com figuras desse naipe, assinando um pacto de não-agressão com a Alemanha nazista?
Stalin - Claro que não! Um pacto de não-agressão é um pacto de paz entre dois países. Foi exatamente isso que a Alemanha nos propôs em 1939. Acredito que nenhum país pacífico poderia recusar um tratado de paz com um país vizinho, mesmo que esse país seja liderado por monstros e canibais como Hitler e Ribbentrop. Isso, claro, sob a condição indispensável que esse tratado de paz não ameaçasse, direta ou indiretamente, a integridade territorial, a independência e a honra do país amante da paz.

VEJA - Agora que o acordo foi para as calendas gregas, fica a pergunta: o pacto com a Alemanha foi de alguma forma favorável para a União Soviética?
Stalin - Sem dúvida. Asseguramos a paz por mais de um ano e meio, ganhando a oportunidade de preparar nossas forças para repelir as forças fascistas germânicas caso elas atacassem nosso país em violação do pacto. Definitivamente, foi uma vantagem para nós e uma desvantagem para a Alemanha fascista. E o que foi que a Alemanha ganhou e perdeu por rasgar o pacto e atacar a União Soviética? Ela ganhou uma posição de vantagem para suas tropas por um curto período de tempo, mas perdeu politicamente por ter se exposto aos olhos de todo o mundo como uma sanguinária agressora. Não há dúvida que esse ganho militar da Alemanha é efêmero, enquanto que o ganho político da União Soviética é tremendo, um fato respeitável e duradouro que deverá formar a base para o desenvolvimento de um sucesso militar do Exército Vermelho na guerra contra a Alemanha.

"Não há lugar
para chorões ou
covardes. Nosso
exército e nosso
povo não podem
temer essa luta."
 
  
VEJA - De que forma esse sucesso pode ser alcançado? Quais medidas precisam ser tomadas internamente para vencer a Alemanha?
Stalin - Acima de tudo, é essencial que nosso povo perceba o imenso perigo que ameaça nosso país, e, assim, elimine a complacência, o relaxamento e a mentalidade de trabalho pacífico e construtivo que vinha sendo tão natural antes da guerra, mas que hoje, diante de uma situação radicalizada pelas batalhas, pode ser fatal. O inimigo é cruel e implacável, e está aqui para tomar as terras que foram regadas com o suor de nossa fronte, para tomar os grãos e o petróleo que foram obtidos pelo trabalho de nossas mãos. Ele está aqui para restaurar o czarismo e destruir as culturas nacionais dos povos livres da União Soviética, para torná-los escravos dos príncipes e barões germânicos. Por isso, a questão que se apresenta a nós é de vida ou morte. Os habitantes da União Soviética, então, precisam se mobilizar e reorganizar seu trabalho em um novo equilíbrio, um equilíbrio de guerra, no qual não pode haver piedade para o inimigo.

VEJA - Desde 1936, o senhor tem promovido um expurgo nos comandos das forças armadas. Isso não pode prejudicar a resistência militar da União Soviética?
Stalin - Pelo contrário. Em nossas fileiras, não há lugar para chorões ou covardes, para alarmistas e desertores. Nosso exército e nosso povo não podem ter medo da luta, devem se unir de corpo e alma à Guerra Patriótica de libertação contra os captores fascistas. Lênin, o grande fundador de nosso Estado, costumava dizer que as maiores virtudes dos homens e mulheres soviéticos eram a coragem, o valor, o destemor na luta e a prontidão para lutar, unidos, contra os inimigos do país. Essas esplêndidas virtudes bolcheviques devem ser assimiladas pelos milhões de homens do Exército Vermelho e da Marinha Vermelha e por todos os povos da União Soviética. Elas só nos farão mais fortes.

 "A história nos
mostra que não
há um exército
invencível. E a
tropa de Hitler
será derrotada."
  
VEJA - Britânicos e americanos já ofereceram apoio à causa soviética. Está se desenhando uma aliança tripartite contra a ameaça nazista?
Stalin - A guerra contra a Alemanha não pode ser considerada uma guerra comum. O objetivo desta Guerra Patriótica popular contra os opressores fascistas é não apenas repelir o perigo que assombra nosso país mas também ajudar todos os povos europeus que gemem sob o jugo do fascismo alemão. E, nessa guerra de libertação, devemos ter como aliados genuínos os países da Europa e da América, incluindo os alemães que estão escravizados pelos desmandos de Hitler. Será um front dos povos que defendem a liberdade contra a escravidão e suas ameaças representadas pelos exércitos de Hitler. Nesse sentido, as afirmações de Winston Churchill e a declaração de apoio do governo dos Estados Unidos, que evocam um sentimento de gratidão nos corações dos soviéticos, são completamente compreensíveis e sintomáticas.

VEJA - O senhor acredita que a máquina de guerra do Reich pode ser derrotada?
Stalin - A história mostra que não existem exércitos invencíveis. O exército de Napoleão era considerado imbatível, mas foi derrotado sucessivamente por tropas da Rússia, da Inglaterra e da Alemanha. O exército do kaiser Guilherme no período da primeira guerra imperialista também era considerado invencível, mas foi vencido diversas vezes pelas tropas russas e anglo-francesas, sendo finalmente arrasado por elas. A mesma coisa pode ser dita hoje do exército fascista de Hitler. Esse exército, até agora, não se deparou com uma resistência de verdade no continente europeu. Somente em nosso território é que ele encontrará essa resistência. E, assim, o exército fascista de Hitler será derrotado, assim como o foram os exércitos de Napoleão e Guilherme.
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Josef Stalin convoca sua população à guerra
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