| PONTO DE VISTA: Jean-Paul Sartre | VEJA,
Junho de 1940 |
| Quando a nova guerra teve início,
há 10 meses, o professor parisiense Sartre foi convocado para entrar no
exército - como meteorologista - e defender seu país. Desde então,
registra memórias e reflexões num diário, cujos trechos são
publicados aqui. Podem ter sido suas palavras finais - Sartre foi capturado. |  |
Domingo, 12 de novembro de 1939, Brumath, Alsácia Quando
parti, em setembro, cada instante tinha um futuro indefinido e longínquo:
o fim da guerra. Esse futuro remoto e inacessível tornava o presente esmagador;
quanto mais leve o futuro, mais pesado era o presente. E depois, pouco a pouco,
esse futuro desapareceu; nada mais tenho do que um futuro cotidiano e algumas
referências: visitas, a próxima licença. O bastante para que
a vida seja suportável.
"Devo confessar: ficarei um pouco desapontado
se a guerra acabar bruscamente, em apenas um mês." | |
| | | Segunda,
13 de novembro De tempos em tempos, um de nós, tomado por uma emoção
tímida, ao ler uma carta ou ao ver um objeto, começa a falar dos
amigos, do seu passado, de sua vida civil. Suas palavras caem em um silêncio
sepulcral. Os outros escrevem, olham pela janela, não ligam a mínima.
A voz do homem vai sumindo. Acaba morrendo de fraqueza, e ele fica acanhado, mudo,
com um vago sorriso idiota nos lábios. Depois, volta ao trabalho.
Sexta,
17 de novembro No outro dia, senti-me tentado. Entrei no alojamento muito
convencido, tomando a sério minha resolução. Disse para mim
mesmo: É verdade, eu devia me alistar na infantaria. E, logo a seguir:
Mas não, não é isso que devo fazer. Estou bancando o palhaço.
Devo confessar que vou ficar um pouco desapontado se esta guerra terminar bruscamente,
em um mês. Agora que estou nela, quero vê-la dar o máximo de
trapaça e de jogo sujo antes de desaparecer.
Quinta, 23 de novembro Essa
noite, subitamente, sinto-me triste. Mas isso passa.
Segunda, 18 de
dezembro, Morsbronn Os homens, dizemos, não merecem a guerra.
É verdade. Verdade no sentido simples de que eles fazem a guerra.
Nenhum dos homens atualmente mobilizados (sem exceção de mim, naturalmente)
merece a paz, porque se a merecesse realmente não estaria aqui. "Mas
pode ter sido obrigado, forçado..." Tá, tá, tá:
ele era livre. Compreendo que ele partiu acreditando que não tinha outro
remédio. Mas essa crença era decisória. E por que ele decidiu
assim? Por inércia, fraqueza, respeito pelo poder, medo de uma condenação...
Por isso, na guerra não há vítimas inocentes. Só não
merecem a guerra os homens que aceitam o martírio pela paz. Só eles
são inocentes, pois a força de sua recusa é o bastante grande
para que suportem o infortúnio e a morte. Cúmplice ou mártir,
essa é a alternativa. E a decisão faz a História. Recusando-me
a fazer guerra, estarei pagando pelos outros. Aceitando-a, pago também,
mas somente por mim.
| | "Quanto mais eu vivo,
mais vejo que o homem merece a guerra - e que ele a merece mais ao participar
dela." | | | |
Quarta-feira, 20 de dezembro Com mais dois ou três anos
desse tipo de guerra, a noção de coragem estará relacionada
com a paz; a noção de covardia, com a guerra.
Sábado,
23 de dezembro Quanto mais vivo, mais vejo que os homens merecem a guerra
e que a merecem muito mais na medida em que a fazem. É como o pecado de
Adão, que cada indivíduo toma a si livremente. A declaração
de guerra, culpa de certos homens, nós a tomamos para nós, com nossa
liberdade. Esta guerra foi declarada por todos nós, em um momento ou outro.
Sexta,
16 de fevereiro de 1940 Volto de licença. Não toquei neste
caderno durante minha estada em Paris, e fiz muito bem. Na verdade, tudo o que
me aconteceu não lhe diz respeito. É um diário de guerra,
e só tem sentido como tal. Além disso, eu queria viver sem pensar.
Para começar, direi que me fartei. Nada que não fosse excelente.
Nenhuma hora perdida. Acho que não se poderia fazer melhor. E Paris, a
princípio, pareceu-me cotidiana. Não senti muito a guerra. Nas ruas,
talvez, à noite. Mas, nos lugares cuidadosamente escolhidos onde estive,
a guerra quase não havia alterado nada. Todos os meus hábitos voltaram.
Os cinco meses passados na Alsácia pareciam-me um sonho. A maior parte
das pessoas que vi nos cafés, na rua, nos dancings, têm um
ar extremamente normal, não falam da guerra, e em certas ocasiões
chegam mesmo a se divertir. Contudo, eu sei que o seu destino está parado,
como o dos mortos; não esperam nada além do fim da guerra, que não
depende delas. Ocupam-se como podem, enquanto esperam; deixam que a guerra passe
por elas, erguendo os ombros.
"Me interessam só as pessoas.
E quando penso em revê-las, é nesta Paris de guerra que
as imagino." | | | | |
Terça, 20 de fevereiro, Bouxwiller Enquanto não
houver sangue, a retaguarda não leva a guerra a sério. Ora, nosso
exército está em pé de guerra há seis meses. Os homens
são retidos longe de seus lares, das suas ocupações, submetidos
à disciplina militar. Uma ditadura é exercida sobre a imprensa,
sobre o pensamento. Toda a nossa vida tem o aspecto interior da guerra. Mas a
máquina guerreira funciona no vazio, o inimigo está inacessível,
invisível, e os homens esperam com as armas ao lado. Todo o exército
espera. Não é uma atitude sequer defensiva, pois, para se estar
na defensiva, é preciso que o inimigo ataque, ou pretenda atacar. Mas há
seis meses os alemães descansam. O que dizer de uma guerra em que o agressor
não ataca? Muitos esperam um "entendimento". Todos ficam entediados,
o moral fica baixo. Mas nós aceitamos, ninguém protesta. Ao contrário,
ninguém pensa em protestar. A maioria vê com resignação
a possibilidade de passar três ou quatro meses desse modo. Nada poderia
ser melhor prova de que a mentalidade guerreira está desaparecendo da França.
Quarta,
21 de fevereiro Desde que revi Paris, parece-me que eu a enterrei. Minhas
lembranças mais recentes e mais ternas chegam-me agora dessa Paris agonizante.
A outra, a da minha vida passada, creio verdadeiramente que meus últimos
elos com ela foram rompidos. É a primeira vez, desde o começo da
guerra, que examino friamente o meu passado. Só me interessam as pessoas,
e quando penso em revê-las é nesta Paris de guerra que imagino nossos
encontros.
Domingo, 10 de março Em breve seremos mandados
para a retaguarda. O capitão escreveu ao coronel chamando-lhe a atenção
para o fato de sermos tropas auxiliares e que, em conseqüência, ia
retirar nossos fuzis. Assim, darão a esses fuzis, velhos mosquetões
fora de moda, homens que lhes convenham, os jovens da ativa. Quanto a nós,
para onde iremos? Me pergunto a mim mesmo se continuarei a escrever este diário.
Enquanto eu estava a dez quilômetros dos postos avançados, com a
possibilidade de ser alvo de bombardeios, ele tinha uma razão de ser. Talvez
na retaguarda eu precise pôr um ponto final nele. Estou satisfeito, mas,
ao mesmo tempo, algo terminou: meu primeiro período de guerra.
Quarta,
27 de março Não tive vontade de escrever neste diário
todos estes dias: terminava rapidamente o primeiro capítulo do prólogo
de A Idade da Razão porque ia partir de licença. Estou um
pouco desgostoso com o meu romance: parece-me mal-acabado e vazio. Afinal, é
uma obra de estréia, minha estréia no romance. Preciso revisá-lo
inteiro; assim como está, é um livro desconexo e discordante. Estou
ansioso por sair de licença. Tenho apenas vontade de rever as pessoas e
rever Paris. Não senti a tensão dos primeiros meses. Hoje trabalho,
vivo o dia, estou tão adaptado a esta vida que não a sinto mais.
Os tempos heróicos desta guerra estranha terminaram para mim.
| Jean-Paul Sartre, 35 anos, é filósofo
e escritor. Ex-professor de Le Havre e do Liceu Pasteur, em Paris, é o
autor de obras como A Náusea, O Muro e outras. | |
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