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Setembro de 1939
Alemanha invade a Polônia

Junho de 1941
O ataque à Rússia

Dezembro de 1941
Pearl Harbor

Fevereiro de 1943
Cerco de Stalingrado

Setembro de 1943
Rendição da Itália

Junho de 1944
O Dia D
Fevereiro de 1945
O Holocausto
Maio de 1945
Queda do III Reich
Agosto de 1945
O fim da guerra

Edição especial
O Brasil na guerra
PONTO DE VISTA: Jean-Paul SartreVEJA, Junho de 1940
Quando a nova guerra teve início, há 10 meses, o professor parisiense Sartre foi convocado para entrar no exército - como meteorologista - e defender seu país. Desde então, registra memórias e reflexões num diário, cujos trechos são publicados aqui. Podem ter sido suas palavras finais - Sartre foi capturado.
Domingo, 12 de novembro de 1939, Brumath, Alsácia
Quando parti, em setembro, cada instante tinha um futuro indefinido e longínquo: o fim da guerra. Esse futuro remoto e inacessível tornava o presente esmagador; quanto mais leve o futuro, mais pesado era o presente. E depois, pouco a pouco, esse futuro desapareceu; nada mais tenho do que um futuro cotidiano e algumas referências: visitas, a próxima licença. O bastante para que a vida seja suportável.

"Devo confessar:
ficarei um pouco
desapontado se
a guerra acabar
bruscamente, em
apenas um mês."
 
  
Segunda, 13 de novembro
De tempos em tempos, um de nós, tomado por uma emoção tímida, ao ler uma carta ou ao ver um objeto, começa a falar dos amigos, do seu passado, de sua vida civil. Suas palavras caem em um silêncio sepulcral. Os outros escrevem, olham pela janela, não ligam a mínima. A voz do homem vai sumindo. Acaba morrendo de fraqueza, e ele fica acanhado, mudo, com um vago sorriso idiota nos lábios. Depois, volta ao trabalho.

Sexta, 17 de novembro
No outro dia, senti-me tentado. Entrei no alojamento muito convencido, tomando a sério minha resolução. Disse para mim mesmo: É verdade, eu devia me alistar na infantaria. E, logo a seguir: Mas não, não é isso que devo fazer. Estou bancando o palhaço. Devo confessar que vou ficar um pouco desapontado se esta guerra terminar bruscamente, em um mês. Agora que estou nela, quero vê-la dar o máximo de trapaça e de jogo sujo antes de desaparecer.

Quinta, 23 de novembro
Essa noite, subitamente, sinto-me triste. Mas isso passa.

Segunda, 18 de dezembro, Morsbronn
Os homens, dizemos, não merecem a guerra. É verdade. Verdade no sentido simples de que eles fazem a guerra. Nenhum dos homens atualmente mobilizados (sem exceção de mim, naturalmente) merece a paz, porque se a merecesse realmente não estaria aqui. "Mas pode ter sido obrigado, forçado..." Tá, tá, tá: ele era livre. Compreendo que ele partiu acreditando que não tinha outro remédio. Mas essa crença era decisória. E por que ele decidiu assim? Por inércia, fraqueza, respeito pelo poder, medo de uma condenação... Por isso, na guerra não há vítimas inocentes. Só não merecem a guerra os homens que aceitam o martírio pela paz. Só eles são inocentes, pois a força de sua recusa é o bastante grande para que suportem o infortúnio e a morte. Cúmplice ou mártir, essa é a alternativa. E a decisão faz a História. Recusando-me a fazer guerra, estarei pagando pelos outros. Aceitando-a, pago também, mas somente por mim.

 "Quanto mais eu
vivo, mais vejo que
o homem merece a
guerra - e que ele
a merece mais ao
participar dela."
  
Quarta-feira, 20 de dezembro
Com mais dois ou três anos desse tipo de guerra, a noção de coragem estará relacionada com a paz; a noção de covardia, com a guerra.

Sábado, 23 de dezembro
Quanto mais vivo, mais vejo que os homens merecem a guerra e que a merecem muito mais na medida em que a fazem. É como o pecado de Adão, que cada indivíduo toma a si livremente. A declaração de guerra, culpa de certos homens, nós a tomamos para nós, com nossa liberdade. Esta guerra foi declarada por todos nós, em um momento ou outro.

Sexta, 16 de fevereiro de 1940
Volto de licença. Não toquei neste caderno durante minha estada em Paris, e fiz muito bem. Na verdade, tudo o que me aconteceu não lhe diz respeito. É um diário de guerra, e só tem sentido como tal. Além disso, eu queria viver sem pensar. Para começar, direi que me fartei. Nada que não fosse excelente. Nenhuma hora perdida. Acho que não se poderia fazer melhor. E Paris, a princípio, pareceu-me cotidiana. Não senti muito a guerra. Nas ruas, talvez, à noite. Mas, nos lugares cuidadosamente escolhidos onde estive, a guerra quase não havia alterado nada. Todos os meus hábitos voltaram. Os cinco meses passados na Alsácia pareciam-me um sonho. A maior parte das pessoas que vi nos cafés, na rua, nos dancings, têm um ar extremamente normal, não falam da guerra, e em certas ocasiões chegam mesmo a se divertir. Contudo, eu sei que o seu destino está parado, como o dos mortos; não esperam nada além do fim da guerra, que não depende delas. Ocupam-se como podem, enquanto esperam; deixam que a guerra passe por elas, erguendo os ombros.

"Me interessam
só as pessoas. E
quando penso em
revê-las, é nesta
Paris de guerra
que as imagino."
 
  
Terça, 20 de fevereiro, Bouxwiller
Enquanto não houver sangue, a retaguarda não leva a guerra a sério. Ora, nosso exército está em pé de guerra há seis meses. Os homens são retidos longe de seus lares, das suas ocupações, submetidos à disciplina militar. Uma ditadura é exercida sobre a imprensa, sobre o pensamento. Toda a nossa vida tem o aspecto interior da guerra. Mas a máquina guerreira funciona no vazio, o inimigo está inacessível, invisível, e os homens esperam com as armas ao lado. Todo o exército espera. Não é uma atitude sequer defensiva, pois, para se estar na defensiva, é preciso que o inimigo ataque, ou pretenda atacar. Mas há seis meses os alemães descansam. O que dizer de uma guerra em que o agressor não ataca? Muitos esperam um "entendimento". Todos ficam entediados, o moral fica baixo. Mas nós aceitamos, ninguém protesta. Ao contrário, ninguém pensa em protestar. A maioria vê com resignação a possibilidade de passar três ou quatro meses desse modo. Nada poderia ser melhor prova de que a mentalidade guerreira está desaparecendo da França.

Quarta, 21 de fevereiro
Desde que revi Paris, parece-me que eu a enterrei. Minhas lembranças mais recentes e mais ternas chegam-me agora dessa Paris agonizante. A outra, a da minha vida passada, creio verdadeiramente que meus últimos elos com ela foram rompidos. É a primeira vez, desde o começo da guerra, que examino friamente o meu passado. Só me interessam as pessoas, e quando penso em revê-las é nesta Paris de guerra que imagino nossos encontros.

Domingo, 10 de março
Em breve seremos mandados para a retaguarda. O capitão escreveu ao coronel chamando-lhe a atenção para o fato de sermos tropas auxiliares e que, em conseqüência, ia retirar nossos fuzis. Assim, darão a esses fuzis, velhos mosquetões fora de moda, homens que lhes convenham, os jovens da ativa. Quanto a nós, para onde iremos? Me pergunto a mim mesmo se continuarei a escrever este diário. Enquanto eu estava a dez quilômetros dos postos avançados, com a possibilidade de ser alvo de bombardeios, ele tinha uma razão de ser. Talvez na retaguarda eu precise pôr um ponto final nele. Estou satisfeito, mas, ao mesmo tempo, algo terminou: meu primeiro período de guerra.

Quarta, 27 de março
Não tive vontade de escrever neste diário todos estes dias: terminava rapidamente o primeiro capítulo do prólogo de A Idade da Razão porque ia partir de licença. Estou um pouco desgostoso com o meu romance: parece-me mal-acabado e vazio. Afinal, é uma obra de estréia, minha estréia no romance. Preciso revisá-lo inteiro; assim como está, é um livro desconexo e discordante. Estou ansioso por sair de licença. Tenho apenas vontade de rever as pessoas e rever Paris. Não senti a tensão dos primeiros meses. Hoje trabalho, vivo o dia, estou tão adaptado a esta vida que não a sinto mais. Os tempos heróicos desta guerra estranha terminaram para mim.
Jean-Paul Sartre, 35 anos, é filósofo e escritor. Ex-professor de Le Havre e do Liceu Pasteur, em Paris, é o autor de obras como A Náusea, O Muro e outras.
bibliografia
 
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