Veterano líder britânico
assume como primeiro-ministro e já promete triunfo contra a Alemanha nazista
na futura batalha em seu territórios. Apesar dos êxitos fáceis
da máquina de guerra de Hitler, Churchill confia no poderio do seu país
- e no triunfo da democracia: 'Sei que nossa causa jamais perecerá'.
unca houve tanta diferença entre dois inquilinos do número
10 de Downing Street. Até o início do mês passado, a célebre
residência dos primeiros-ministros britâncos era ocupada por Neville
Chamberlain, o homem que confiou na palavra de Adolf Hitler e anunciou ter conseguido
"paz para o mundo" - tolice que já assegurou lugar cativo na
antologia da ingenuidade humana. Em 10 de maio, porém, o pato deu lugar
ao buldogue. O veterano Winston Spencer Churchill, a quem o Führer
se refere como "devorador de alemães", foi apontado pelo rei
George VI para liderar o novo governo - e, de quebra, ficou também com
o Ministério da Defesa. Aos 65 anos, o carismático político
é sem dúvida o homem mais talhado para ambas as funções.
Em poucos dias, "Winnie" conseguiu não só unir ferrenhos
adversários políticos num governo de coalizão como também,
por meio de seus discursos arrebatadores, motivou toda a nação a
engajar-se na chamada Batalha da Inglaterra. Nesta entrevista a VEJA, Churchill
afirma ter certeza da vitória na guerra - segundo ele, travada por um ideal
acima de tudo. "Lutamos para salvar o mundo da pestilência da tirania
nazista, fascista e comunista, e em defesa de tudo aquilo que é mais sagrado
para o homem."
...
"Sem a vitória
não haverá a sobrevivência. Estou certo: a nossa
causa não perecerá."
VEJA - Polônia, Noruega, Bélgica, Holanda e França
já sucumbiram à fantástica máquina de guerra alemã.
A Grã-Bretanha será a próxima? Churchill -
Não. É certo que temos diante de nós uma provação
das mais dolorosas, longos e longos meses de luta e sofrimento. Mas se você
me perguntar qual é o nosso objetivo e nossa esperança, eu posso
responder em uma palavra: vitória. Vitória, custe o que custar,
apesar de todo o terror; vitória, não importa quão longa
e pedregosa seja a estrada. Porque, sem vitória, não haverá
sobrevivência. Tenho certeza que nossa causa não perecerá
entre os homens. Neste momento, me sinto na obrigação de pedir apoio
a toda a população, e dizer, "é agora, vamos em frente,
unidos em toda nossa força".
VEJA - Seus discursos
estão sem dúvida unindo o povo, mas alguns especialistas não
sabem até que ponto a população está pronta para a
guerra na ilha. Quais as medidas que estão sendo tomadas para preparar
a nação para a chamada Batalha da Inglaterra? Churchill
- Não podemos nos esquecer que, a partir do momento que declaramos guerra,
em setembro do ano passado, sempre foi possível que a Alemanha direcionasse
sua força aérea para nosso país, junto com outros mecanismos
de invasão que ela pudesse conceber. Portanto, temos vivido sob esse perigo
durante todos esses meses - claro, de uma forma diferente. Nesse meio tempo, já
melhoramos nossos métodos de defesa, especialmente na parte aérea,
pois o piloto britânico tem uma superioridade definitiva e incontestável.
Analisando o cenário com neutralidade, eu vejo motivos para intensa vigilância
e esforço, mas não para pânico ou desespero, de forma alguma.
"Lutamos para tirar do mundo a
pestilência da tirania nazista, defendendo tudo que é
sagrado."
VEJA - Mas há motivo para confiança na vitória? Churchill - Acredito que nossos cidadãos se mostrarão capazes
de encarar o inimigo, como os bravos homens de Barcelona, e continuarão
sua vida apesar das ameaças - no mínimo da mesma forma que qualquer
outra nação no mundo. Isso será de vital importância;
cada homem e cada mulher terá a chance de mostrar as melhores qualidades
de sua raça, e prestar o maior serviço a sua causa.
VEJA
- Nesse cenário, qual a importância do êxito da Operação
Dínamo, popularmente conhecida como a Retirada de Dunquerque, para a afirmação
militar e moral dos britânicos? Churchill - Fundamental.
Dunquerque foi um grande teste entre as forças aéreas britânicas
e alemãs. Você consegue conceber um objetivo maior para os aviões
germânicos do que tornar a evacuação daquelas praias impossível
e afundar aqueles navios que chegavam aos milhares para o resgate? Eles tentaram,
mas foram repelidos, tiveram seus planos frustrados. Nós conseguimos retirar
nosso exército, e eles pagaram quadruplicado por cada perda que nos infligiram.
Claro que esse triunfo não pode nos cegar para o fato de que o que aconteceu
na França e na Bélgica foi um colossal desastre militar. Mas ele
nos dará mais forças para lutar contra o nazismo. Certa vez, disseram
a Napoleão: "Há muitas ervas daninhas na Inglaterra."
Bem, certamente agora há ainda mais, com o retorno da Força Expedicionária
Britânica para casa.
VEJA - Discursos à parte,
em que pé está, realmente, a Grã-Bretanha na guerra? Churchill - Bem, podemos nos perguntar: de que forma nossa posição
piorou desde o início da guerra? Piorou pelo fato que os alemães
tomaram grande parte do litoral da Europa ocidental, e alguns países pequenos
foram conquistados por eles. Isso agrava a possibilidade de ataques aéreos,
além de causar maior preocupação à nossa Marinha.
Mas isso não diminui a força de nosso bloqueio de longa distância.
Pelo contrário, definitivamente aumenta esse poder. Da mesma forma, a entrada
da Itália na guerra aumenta o poder dos bloqueios, porque com ele controlamos
a possibilidade de qualquer infiltração. Com a resistência
militar na França chegando ao fim, claro que os alemães estarão
aptos a concentrar suas forças, tanto militares quanto industriais, contra
nós. Mas, como eu disse na Câmara dos Comuns, eles verão que
não será fácil. Se a invasão está se tornando
mais iminente, o que sem dúvida esta acontecendo, nós, livres da
tarefa de manter um grande contingente na França, temos de longe mais e
melhores forças para encarar o inimigo.
VEJA - Por falar
em inimigo, o que o senhor tem a dizer sobre Hitler, Stalin e Mussolini e as ideologias
que eles representam? Churchill - Estamos engajados numa guerra
contra a tirania de Hitler, uma tirania monstruosa, jamais ultrapassada no sombrio
e lamentável catálogo de crimes contra a humanidade. Estamos engajados
em uma guerra contra o comunismo de Stalin, um comunismo que, como todos podem
ver, apodrece a alma de uma nação, fazendo-a abjeta na paz e abominável
na guerra. Estamos lutando para salvar o mundo da pestilência da tirania
nazista, fascista e comunista, e em defesa de tudo aquilo que é mais sagrado
para o homem. É sempre conveniente recordar que a guerra que travamos não
é uma guerra por domínio territorial ou ganho material; não
é uma guerra para roubar a luz do sol e as formas de progresso de um país.
É uma guerra, vista em sua característica mais inerente, para solidificar,
em pedras inexpugnáveis, os direitos individuais, e para estabelecer definitivamente
a magnitude do homem.
"Chegará
o dia em que os sinos do júbilo tocarão de novo por
toda a Europa. É uma busca pelo bem."
VEJA - Entretanto, a Câmara dos Comuns britânica,
desde o início da guerra, votou dezenas de emendas que cercearam diversas
liberdades individuais, transferindo-as para o Executivo. Churchill
- Sim, pode parecer um paradoxo o fato de que uma guerra lavrada em nome da liberdade
e dos direitos tenha de requerer, como parte de seu processo, a renúncia
temporária de tantas liberdades e direitos. Mas temos certeza de que essas
liberdades estarão em mãos que não abusarão delas,
que não a usarão com propósitos de classe ou partido. Essas
mãos devem valorizá-las e guardá-las cuidadosamente. Estamos
ansiosos para que chegue logo o dia em que nossas liberdades e direitos nos sejam
devolvidos. E quando, também, poderemos dividi-los com os povos para quem
essas bênçãos são desconhecidas.
VEJA
- Fora da Grã-Bretanha, especialmente nos países da Europa continental,
há um enorme sentimento de derrotismo, e até mesmo de irreversibilidade
dos acontecimentos. Muita gente acredita que essas liberdades e direitos que o
senhor menciona jamais serão recuperados. Enfim, a Europa está desiludida.
É possível reverter esse cenário? Churchill
- Naturalmente. Mais uma vez, digo que não podemos subestimar a gravidade
e a dificuldade dessa tarefa que temos pela frente. Podemos esperar muitos desapontamentos
e muitas surpresas desagradáveis. Mas tenho certeza que a tarefa que aceitamos
por livre e espontânea vontade não está além da força
e do alcance do Império Britânico. Estamos decididos a não
retroceder nem desviar do caminho nessa busca pelo bem comum. Exorto as cidades
de Praga, de Varsóvia, de Viena, de Paris a banirem o desengano mesmo no
ápice de sua agonia. Sua libertação é certa. Chegará
o dia em que os sinos do júbilo tocarão de novo pela Europa. Um
dia em que nações vitoriosas, mestras não apenas de seus
inimigos mas de si próprias, planejarão e construirão, alicerçadas
na justiça, na tradição e na liberdade, uma mansão
de muitos cômodos, onde haverá espaço para todos.
...
Discurso
de Winston Churchill no Parlamento Baixar
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Discurso
de Churchill após Operação Dínamo Baixar
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