Irretocável ofensiva germânica no Oeste Europeu culmina
na tomada da França - 'Führer' Hitler passeia por Paris como novo
soberano da capital - Ataque à Grã-Bretanha é novo objetivo
do Reich (e um velho pesadelo de Churchill)
Turismo depois da batalha: Hitler e seus generais
posam para fotos diante da Torre Eiffel
rmados com nervosas brocas pneumáticas, um grupo de engenheiros
do Exército da Alemanha demoliu impetuosamente o muro do memorial de Compiègne,
na França, distante cerca de 60 quilômetros da capital, Paris. Os
homens haviam recebido ordens expressas para resgatar o vagão 2419D da
Companhia Wagon-Lits e levá-lo ao exato ponto onde se encontrava estacionado
21 anos antes, a alguns poucos metros dali. Aparentemente prosaica, a missão
desses oficiais preparava o cenário para um dos momentos mais taumatúrgicos
da história da Europa, resultado de uma seqüência de eventos
que o mundo, durante muito tempo, ainda encontrará dificuldades para assimilar.
Em 22 de junho, a França, outrora vigoroso símbolo de poder,
capitulou, genuflexa, frente à Alemanha nazista - e quis o líder
tedesco Adolf Hitler que essa prova da invalidez gaulesa acontecesse no mesmo
coche onde a delegação germânica, duas décadas atrás,
teve de aceitar o desmoralizador armistício imposto pelo marechal francês
Ferdinand Foch. Para o Führer e toda uma geração ferida
pela derrota na Grande Guerra, não poderia haver melhor forma de coroar
a irresistível ofensiva alemã no Oeste Europeu - manobra que, em
menos de dois meses, subordinou Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França,
ratificando o poderio demonstrado no massacre da Polônia.
Há,
porém, diferenças cruciais entre as duas conquistas, que certamente
ajudam a explicar o assombro generalizado ao redor do globo. Ninguém em
sã consciência esperava que os poloneses pudessem fazer frente às
tropas alemãs durante muito tempo. Mas o exército francês,
em que pese sua defasagem em alguns setores, é - ou melhor, era - um dos
maiores exércitos do mundo. E esta brigada sempre defendera, muito mais
que um território, uma nação eternizada como símbolo
de liberdade, ilustração e justiça.
...
Onda de derrotismo - A queda
da França representa, portanto, muito mais do que uma derrota militar aos
aliados: trata-se de uma verdadeira punhalada na civilização ocidental,
especialmente da forma com que se concretizou. A facilidade das forças
teutônicas para gangrenar as guarnições francesas; a humilhante
reconstituição da rendição na Clareira do Armistício
de Compiègne, agora com sinal invertido; o passeio despreocupado de Hitler
pelos pontos turísticos de uma Paris da qual se tornou soberano. Tudo isso
soa como uma distorção da história, e faz o Velho Mundo mergulhar
em um abismo de incertezas.
O continente não sentia nada parecido
desde a Batalha de Mohacs, em 1526, quando a Hungria, que por mais de dois séculos
fora o escudo do Cristianismo contra a ameaça otomana, acabou subjugada
pelos turcos. Agora é a Alemanha que planta uma interrogação
sobre o futuro da Europa. De certeza, apenas o derrotismo que se alastra pelo
continente, gerado pela sensação de que a marcha nazista é
irreversível. Todas as esperanças do Ocidente recaem agora sobre
a Grã-Bretanha - que, contudo, se vê virtualmente sozinha na luta
contra o Reich no que promete ser um iminente ataque a seu território,
especialmente após o anúncio de Benito Mussolini, no dia 10, oficializando
a entrada da Itália na guerra ao lado de Hitler.
Winston Churchill,
nomeado primeiro-ministro britânico em maio, esforça-se para elevar
o ânimo dos europeus - mas apenas seus compatriotas parecem estar entendendo
seu recado. É sintomático o fato de que o general francês
Maxime Weygand, supremo comandante aliado nos conflitos que precederam a queda
da França, tenha jogado a toalha. Quando o general Charles De Gaulle sugeriu
continuar a guerra pelo Norte da África para auxiliar os britânicos,
Weygand respondeu com desdém. "Seria um contra-senso. Em uma semana,
a Grã-Bretanha terá o seu pescoço torcido como o de um frango".
...
Corte de foice - O general
Weygand, porém, não é um covarde nem um pessimista que se
encontra no báratro do desespero. Basta elencar os acontecimentos posteriores
a 10 de maio, dia em que a Alemanha atacou os Países Baixos e pôs
fim à chamada Drôle de Guerre ou Phoney War - a "Guerra
de Mentirinha" -, para ver que o palpite do militar gaulês é
inteiramente amparado pelos fatos. Em apenas 24 horas, os alemães tomaram
a fortaleza de Eben Emael, entre Maastricht e Liège, até então
tida como inexpugnável por qualquer especialista militar ocidental; em
4 dias, dominaram Roterdã, chave da defesa holandesa; em 8 dias, se apoderaram
de Bruxelas.
Foi justamente depois desses êxitos que um confiante
Hitler determinou que a investida Oeste germânica, batizada de Fall Gelb
("Plano Amarelo"), se esticasse até a França. Essa mudança
de tática contou com a participação decisiva do marechal
de campo Erich von Manstein, cujo plano de adendo à operação,
batizado como Sichelschnitt ("Corte de foice"), acabou por ludibriar
a retaguarda francesa e permitir os avanços dos destacamentos alemães.
Von Manstein antecipou que a defesa esperava o ataque ao norte, na fronteira
com a Holanda, onde estava o Grupo de Exército B, e determinou que a investida
principal à França fosse realizada pelo Grupo de Exército
A, no sul, cruzando a cadeia montanhosa de Ardennes, obstáculo natural
considerado intransponível pelas forças gaulesas - mas não
pelos Panzers do tenente-general Heinz Guderian. A manobra permitiu que, já
em 14 de maio, uma horda de 2.000 tanques germânicos acossasse Sedan, após
uma travessia sem contestações no rio Meuse.
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Cidade aberta - Daí
para frente, os avanços foram automáticos. Atacando em duas frentes,
ao Sul e ao Norte, a Wehrmacht cercou os inimigos, forçando-os a recuar
em direção ao Canal da Mancha. No final de maio, o Exército
belga, o 1º e o 7º Exércitos franceses e a Força Expedicionária
Britânica (BEF) já estavam completamente encurralados em Dunquerque.
Mas, quando o mundo esperava o golpe de misericórdia, Adolf Hitler
surpreendeu ao enviar, no dia 25, uma ordem para que os Panzers repousassem suas
amarras. Muito criticado pelos próprios oficiais nazistas, que queriam
partir para o massacre das acuadas forças de defesa, o "Alto!"
do Führer desencadeou um gigantesco plano de evacuação
das tropas ocidentais de Dunquerque - a exitosa Operação Dínamo,
encerrada em 4 de junho com mais de 300 mil soldados ocidentais resgatados (leia
reportagem nesta edição). De qualquer forma, com as forças
de defesa batendo em retirada, o exército alemão praticamente só
teve o trabalho de marchar rumo a Paris. O último obstáculo nesse
caminho meridional foi a chamada Linha de Weygand - guarnições que
se colocaram ao longo dos rios Somme e Aisne -, desfeita violentamente pelos tedescos.
Em 11 de junho, ciente do poderio dos oponentes, o governador militar de
Paris, general Pierre Hering, declarou a capital da França uma cidade aberta,
buscando evitar os bombardeios aéreos. Milhares de pessoas começaram
então a deixar o município, êxodo organizado pelo Ministro
do Interior, Georges Mandel, que ficou em seu escritório a fim de se encontrar
com os invasores. Para evitar qualquer tipo de resistência, Mandel ordenou
aos policiais que entregassem suas armas aos superiores. Paris estava sendo servida
de bandeja ao Reich.
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Turismo nazista - Às
10 horas do dia 14, o exército germânico, altaneiro, chegou ao centro
da Cidade Luz. O temor de um massacre bárbaro dos soldados alemães
em Paris, alimentado por milhares de citadinos, não se confirmou: durante
sua marcha pelas ruas quase vazias da cidade, os invasores apenas colocaram metralhadores
em posições estratégicas. Um emissário tedesco encontrou-se
com o chefe da polícia local para informá-lo de que estava mantido
no cargo até segunda ordem, e que, portanto, continuava sendo responsável
pela ordem pública. Um luxuoso hotel no centro de Paris foi transformado
em quartel-general teutônico - ao invés da bandeira tricolor em vermelho,
azul e branco, em sua fachada agora tremula o estandarte rubro-negro com a cruz
suástica.
Adolf Hitler esteve neste local antes de partir rumo
a Compiègne, onde, ao lado de seus fiéis escudeiros Joachim von
Ribbentrop e Hermann Göring, participou da cerimônia de rendição
francesa no vagão de Foch. O líder da delegação francesa,
general Charles Huntzinger, assinou o armistício, cujo conteúdo,
entre outros pontos, prevê que a Alemanha deverá ocupar três
quintos da França metropolitana e que qualquer cidadão francês
flagrado em combate ao lado da Grã-Bretanha será executado sumariamente.
Na saída da cerimônia, o Führer passou por um bloco
de granito que celebrava o primeiro armistício firmado no local e leu a
inscrição nele gravada: "Aqui, em 11 de novembro de 1918, sucumbiu
o orgulho criminoso do Império Germânico, derrotado pelas nações
livres a quem pretendia escravizar." Com um gesto, determinou a demolição
da pedra. Seus pedaços estão em vias de ser despachados para Berlim,
mesmo destino do vagão, que será exposto como troféu para
apreciação da população alemã.
No
dia seguinte à assinatura do acordo, Hitler visitou Paris, sendo bem mais
simpático com os monumentos históricos da capital francesa. Acompanhado
pelos arquitetos Albert Speer e Hermann Giesler e pelo escultor Arno Breker, o
artista frustrado que se tornou conquistador da Europa não conteve a emoção
ao conhecer atrações como a igreja de Sacré Coeur em Montmartre,
a rue de Rivoli e o Museu do Louvre. Em Les Invalides, o Führer visitou
a tumba de Napoleão e ordenou que os restos mortais do filho do imperador
fossem levados de Viena a Paris para serem colocados ao lado do pai. Na Opera,
pediu ao zelador que o mostrasse salas quase secretas que ele conhecia pelos livros
de arquitetura. Fez explanações a seus convidados, gabando-se de
seu conhecimento - Hitler só não impressionou o funcionário,
que recusou sua gorjeta de 50 marcos alemães.
Durante a visita,
o líder alemão revelou ter ordenado às suas tropas que poupassem
Paris de maiores estragos. "É importante preservar essa cultura para
as futuras gerações", justificou. Antes de dar por encerrado
seu passeio, às 9 horas da manhã - havia desembarcado às
4 horas no aeroporto Le Bourget -, Hitler foi abordado por um jovem entregador
de jornais, que seguiu em sua direção para oferecer um exemplar
do Le Matin. Mas o garoto deu pinote tão logo viu o rosto do cliente.
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Momento mais nobre - Para
evitar que britânicos também saiam correndo ao simples vislumbre
do Führer, agora que a Batalha da Inglaterra parece inevitável,
Winston Churchill tem lançado mão de diversos artifícios.
Em 22 de junho, para motivar ambas as nações contra a ameaça
alemã, o primeiro-ministro chegou a propor aos gauleses que França
e Grã-Bretanha não fossem mais duas nações distintas,
e sim apenas uma União Franco-Britânica. Na constituição
dessa aliança, seriam criadas instituições conjuntas para
defesa, política econômica e de relações exteriores;
além disso, cada cidadão de cada país teria automaticamente
uma segunda cidadania. A França, porém, declinou da proposta.
Na verdade, Churchill está tendo mais sucesso internamente, com seus
sempre inspirados discursos, que conseguem captar a alma dos britânicos
e o incentivam a defender sua nação, custe o que custar. "A
Grã-Bretanha deve enfrentar a tirania da guerra, se necessário por
anos, se necessário sozinha." Churchill afirmou que a sobrevivência
da civilização cristã e a continuidade da vida britânica
depende do resultado da Batalha da Inglaterra, e alertou aos Estados Unidos que,
em caso de vitória alemã, o mundo todo submergirá no abismo
de uma nova idade das trevas.
O Reich já saiu na frente, ocupando,
no dia 30, o solo bretão das Ilhas do Canal, a alguns quilômetros
da costa francesa - a decisão de levantar a bandeira branca nas ilhas havia
sido tomada pelo governo de Londres alguns dias antes, pois havia ficado evidente
que não era possível defendê-las sem a morte de civis.
Do outro lado da Mancha, os britânicos já esperam a invasão
a qualquer momento - e estão preparados para resistir, apesar dos prognósticos
contrários. Nesse momento, tão importante quanto armas e estratégia,
exorta Churchill, é a dedicação do povo à causa ocidental.
"Hitler sabe que terá de nos vencer nestas ilhas, ou perderá
a guerra. Temos de lutar até o fim. Temos de lutar nas praias, temos de
lutar nas pistas de pouso, temos de lutar nos campos e nas ruas, temos de lutar
nas colinas. Não podemos nos render", declarou. "Vamos nos dedicar
de tal forma ao nosso dever que, se a Comunidade Britânica e o Império
durarem por mais mil anos, os homens ainda dirão: aquele foi seu momento
mais nobre." O relógio, caro primeiro-ministro, já está
correndo.
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Hitler
recebe a rendição francesa em vagão Baixar
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A
marcha nazista a caminho da capital Paris Baixar
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Discursos
dos dirigentes nazistas na guerra Baixar
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Soldados
nazistas dormindo entre as missões Baixar
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