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Setembro de 1943
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Edição especial
O Brasil na guerra
 VEJA, Junho de 1940
Irretocável ofensiva germânica no Oeste Europeu culmina na tomada da França - 'Führer' Hitler passeia por Paris como novo soberano da capital - Ataque à Grã-Bretanha é novo objetivo do Reich (e um velho pesadelo de Churchill)
Foto: museu Yad Vashem
Turismo depois da batalha: Hitler e seus generais posam para fotos diante da Torre Eiffel

rmados com nervosas brocas pneumáticas, um grupo de engenheiros do Exército da Alemanha demoliu impetuosamente o muro do memorial de Compiègne, na França, distante cerca de 60 quilômetros da capital, Paris. Os homens haviam recebido ordens expressas para resgatar o vagão 2419D da Companhia Wagon-Lits e levá-lo ao exato ponto onde se encontrava estacionado 21 anos antes, a alguns poucos metros dali. Aparentemente prosaica, a missão desses oficiais preparava o cenário para um dos momentos mais taumatúrgicos da história da Europa, resultado de uma seqüência de eventos que o mundo, durante muito tempo, ainda encontrará dificuldades para assimilar.

Em 22 de junho, a França, outrora vigoroso símbolo de poder, capitulou, genuflexa, frente à Alemanha nazista - e quis o líder tedesco Adolf Hitler que essa prova da invalidez gaulesa acontecesse no mesmo coche onde a delegação germânica, duas décadas atrás, teve de aceitar o desmoralizador armistício imposto pelo marechal francês Ferdinand Foch. Para o Führer e toda uma geração ferida pela derrota na Grande Guerra, não poderia haver melhor forma de coroar a irresistível ofensiva alemã no Oeste Europeu - manobra que, em menos de dois meses, subordinou Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França, ratificando o poderio demonstrado no massacre da Polônia.

Há, porém, diferenças cruciais entre as duas conquistas, que certamente ajudam a explicar o assombro generalizado ao redor do globo. Ninguém em sã consciência esperava que os poloneses pudessem fazer frente às tropas alemãs durante muito tempo. Mas o exército francês, em que pese sua defasagem em alguns setores, é - ou melhor, era - um dos maiores exércitos do mundo. E esta brigada sempre defendera, muito mais que um território, uma nação eternizada como símbolo de liberdade, ilustração e justiça.
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Onda de derrotismo - A queda da França representa, portanto, muito mais do que uma derrota militar aos aliados: trata-se de uma verdadeira punhalada na civilização ocidental, especialmente da forma com que se concretizou. A facilidade das forças teutônicas para gangrenar as guarnições francesas; a humilhante reconstituição da rendição na Clareira do Armistício de Compiègne, agora com sinal invertido; o passeio despreocupado de Hitler pelos pontos turísticos de uma Paris da qual se tornou soberano. Tudo isso soa como uma distorção da história, e faz o Velho Mundo mergulhar em um abismo de incertezas.

O continente não sentia nada parecido desde a Batalha de Mohacs, em 1526, quando a Hungria, que por mais de dois séculos fora o escudo do Cristianismo contra a ameaça otomana, acabou subjugada pelos turcos. Agora é a Alemanha que planta uma interrogação sobre o futuro da Europa. De certeza, apenas o derrotismo que se alastra pelo continente, gerado pela sensação de que a marcha nazista é irreversível. Todas as esperanças do Ocidente recaem agora sobre a Grã-Bretanha - que, contudo, se vê virtualmente sozinha na luta contra o Reich no que promete ser um iminente ataque a seu território, especialmente após o anúncio de Benito Mussolini, no dia 10, oficializando a entrada da Itália na guerra ao lado de Hitler.

Winston Churchill, nomeado primeiro-ministro britânico em maio, esforça-se para elevar o ânimo dos europeus - mas apenas seus compatriotas parecem estar entendendo seu recado. É sintomático o fato de que o general francês Maxime Weygand, supremo comandante aliado nos conflitos que precederam a queda da França, tenha jogado a toalha. Quando o general Charles De Gaulle sugeriu continuar a guerra pelo Norte da África para auxiliar os britânicos, Weygand respondeu com desdém. "Seria um contra-senso. Em uma semana, a Grã-Bretanha terá o seu pescoço torcido como o de um frango".
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Corte de foice - O general Weygand, porém, não é um covarde nem um pessimista que se encontra no báratro do desespero. Basta elencar os acontecimentos posteriores a 10 de maio, dia em que a Alemanha atacou os Países Baixos e pôs fim à chamada Drôle de Guerre ou Phoney War - a "Guerra de Mentirinha" -, para ver que o palpite do militar gaulês é inteiramente amparado pelos fatos. Em apenas 24 horas, os alemães tomaram a fortaleza de Eben Emael, entre Maastricht e Liège, até então tida como inexpugnável por qualquer especialista militar ocidental; em 4 dias, dominaram Roterdã, chave da defesa holandesa; em 8 dias, se apoderaram de Bruxelas.

Foi justamente depois desses êxitos que um confiante Hitler determinou que a investida Oeste germânica, batizada de Fall Gelb ("Plano Amarelo"), se esticasse até a França. Essa mudança de tática contou com a participação decisiva do marechal de campo Erich von Manstein, cujo plano de adendo à operação, batizado como Sichelschnitt ("Corte de foice"), acabou por ludibriar a retaguarda francesa e permitir os avanços dos destacamentos alemães.

Von Manstein antecipou que a defesa esperava o ataque ao norte, na fronteira com a Holanda, onde estava o Grupo de Exército B, e determinou que a investida principal à França fosse realizada pelo Grupo de Exército A, no sul, cruzando a cadeia montanhosa de Ardennes, obstáculo natural considerado intransponível pelas forças gaulesas - mas não pelos Panzers do tenente-general Heinz Guderian. A manobra permitiu que, já em 14 de maio, uma horda de 2.000 tanques germânicos acossasse Sedan, após uma travessia sem contestações no rio Meuse.
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Cidade aberta - Daí para frente, os avanços foram automáticos. Atacando em duas frentes, ao Sul e ao Norte, a Wehrmacht cercou os inimigos, forçando-os a recuar em direção ao Canal da Mancha. No final de maio, o Exército belga, o 1º e o 7º Exércitos franceses e a Força Expedicionária Britânica (BEF) já estavam completamente encurralados em Dunquerque.

Mas, quando o mundo esperava o golpe de misericórdia, Adolf Hitler surpreendeu ao enviar, no dia 25, uma ordem para que os Panzers repousassem suas amarras. Muito criticado pelos próprios oficiais nazistas, que queriam partir para o massacre das acuadas forças de defesa, o "Alto!" do Führer desencadeou um gigantesco plano de evacuação das tropas ocidentais de Dunquerque - a exitosa Operação Dínamo, encerrada em 4 de junho com mais de 300 mil soldados ocidentais resgatados (leia reportagem nesta edição). De qualquer forma, com as forças de defesa batendo em retirada, o exército alemão praticamente só teve o trabalho de marchar rumo a Paris. O último obstáculo nesse caminho meridional foi a chamada Linha de Weygand - guarnições que se colocaram ao longo dos rios Somme e Aisne -, desfeita violentamente pelos tedescos.

Em 11 de junho, ciente do poderio dos oponentes, o governador militar de Paris, general Pierre Hering, declarou a capital da França uma cidade aberta, buscando evitar os bombardeios aéreos. Milhares de pessoas começaram então a deixar o município, êxodo organizado pelo Ministro do Interior, Georges Mandel, que ficou em seu escritório a fim de se encontrar com os invasores. Para evitar qualquer tipo de resistência, Mandel ordenou aos policiais que entregassem suas armas aos superiores. Paris estava sendo servida de bandeja ao Reich.
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Turismo nazista - Às 10 horas do dia 14, o exército germânico, altaneiro, chegou ao centro da Cidade Luz. O temor de um massacre bárbaro dos soldados alemães em Paris, alimentado por milhares de citadinos, não se confirmou: durante sua marcha pelas ruas quase vazias da cidade, os invasores apenas colocaram metralhadores em posições estratégicas. Um emissário tedesco encontrou-se com o chefe da polícia local para informá-lo de que estava mantido no cargo até segunda ordem, e que, portanto, continuava sendo responsável pela ordem pública. Um luxuoso hotel no centro de Paris foi transformado em quartel-general teutônico - ao invés da bandeira tricolor em vermelho, azul e branco, em sua fachada agora tremula o estandarte rubro-negro com a cruz suástica.

Adolf Hitler esteve neste local antes de partir rumo a Compiègne, onde, ao lado de seus fiéis escudeiros Joachim von Ribbentrop e Hermann Göring, participou da cerimônia de rendição francesa no vagão de Foch. O líder da delegação francesa, general Charles Huntzinger, assinou o armistício, cujo conteúdo, entre outros pontos, prevê que a Alemanha deverá ocupar três quintos da França metropolitana e que qualquer cidadão francês flagrado em combate ao lado da Grã-Bretanha será executado sumariamente.

Na saída da cerimônia, o Führer passou por um bloco de granito que celebrava o primeiro armistício firmado no local e leu a inscrição nele gravada: "Aqui, em 11 de novembro de 1918, sucumbiu o orgulho criminoso do Império Germânico, derrotado pelas nações livres a quem pretendia escravizar." Com um gesto, determinou a demolição da pedra. Seus pedaços estão em vias de ser despachados para Berlim, mesmo destino do vagão, que será exposto como troféu para apreciação da população alemã.

No dia seguinte à assinatura do acordo, Hitler visitou Paris, sendo bem mais simpático com os monumentos históricos da capital francesa. Acompanhado pelos arquitetos Albert Speer e Hermann Giesler e pelo escultor Arno Breker, o artista frustrado que se tornou conquistador da Europa não conteve a emoção ao conhecer atrações como a igreja de Sacré Coeur em Montmartre, a rue de Rivoli e o Museu do Louvre. Em Les Invalides, o Führer visitou a tumba de Napoleão e ordenou que os restos mortais do filho do imperador fossem levados de Viena a Paris para serem colocados ao lado do pai. Na Opera, pediu ao zelador que o mostrasse salas quase secretas que ele conhecia pelos livros de arquitetura. Fez explanações a seus convidados, gabando-se de seu conhecimento - Hitler só não impressionou o funcionário, que recusou sua gorjeta de 50 marcos alemães.

Durante a visita, o líder alemão revelou ter ordenado às suas tropas que poupassem Paris de maiores estragos. "É importante preservar essa cultura para as futuras gerações", justificou. Antes de dar por encerrado seu passeio, às 9 horas da manhã - havia desembarcado às 4 horas no aeroporto Le Bourget -, Hitler foi abordado por um jovem entregador de jornais, que seguiu em sua direção para oferecer um exemplar do Le Matin. Mas o garoto deu pinote tão logo viu o rosto do cliente.
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Momento mais nobre - Para evitar que britânicos também saiam correndo ao simples vislumbre do Führer, agora que a Batalha da Inglaterra parece inevitável, Winston Churchill tem lançado mão de diversos artifícios. Em 22 de junho, para motivar ambas as nações contra a ameaça alemã, o primeiro-ministro chegou a propor aos gauleses que França e Grã-Bretanha não fossem mais duas nações distintas, e sim apenas uma União Franco-Britânica. Na constituição dessa aliança, seriam criadas instituições conjuntas para defesa, política econômica e de relações exteriores; além disso, cada cidadão de cada país teria automaticamente uma segunda cidadania. A França, porém, declinou da proposta.

Na verdade, Churchill está tendo mais sucesso internamente, com seus sempre inspirados discursos, que conseguem captar a alma dos britânicos e o incentivam a defender sua nação, custe o que custar. "A Grã-Bretanha deve enfrentar a tirania da guerra, se necessário por anos, se necessário sozinha." Churchill afirmou que a sobrevivência da civilização cristã e a continuidade da vida britânica depende do resultado da Batalha da Inglaterra, e alertou aos Estados Unidos que, em caso de vitória alemã, o mundo todo submergirá no abismo de uma nova idade das trevas.

O Reich já saiu na frente, ocupando, no dia 30, o solo bretão das Ilhas do Canal, a alguns quilômetros da costa francesa - a decisão de levantar a bandeira branca nas ilhas havia sido tomada pelo governo de Londres alguns dias antes, pois havia ficado evidente que não era possível defendê-las sem a morte de civis.

Do outro lado da Mancha, os britânicos já esperam a invasão a qualquer momento - e estão preparados para resistir, apesar dos prognósticos contrários. Nesse momento, tão importante quanto armas e estratégia, exorta Churchill, é a dedicação do povo à causa ocidental. "Hitler sabe que terá de nos vencer nestas ilhas, ou perderá a guerra. Temos de lutar até o fim. Temos de lutar nas praias, temos de lutar nas pistas de pouso, temos de lutar nos campos e nas ruas, temos de lutar nas colinas. Não podemos nos render", declarou. "Vamos nos dedicar de tal forma ao nosso dever que, se a Comunidade Britânica e o Império durarem por mais mil anos, os homens ainda dirão: aquele foi seu momento mais nobre." O relógio, caro primeiro-ministro, já está correndo.
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Hitler recebe a rendio francesa em vago
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A marcha nazista a caminho da capital Paris
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