Novo conflito volta
a mobilizar Europa 25 anos depois da Grande Guerra - Mesmo sem ataques, a rotina
dos países beligerantes muda de súbito - Evacuações,
racionamentos e blecautes tornam-se parte do cotidiano do Velho Mundo
À espera das bombas: diante da catedral londrina
de Saint Paul, soldado vigia o céu inglês
m 1914, os países da Europa começavam a se engalfinhar no
conflito que depois ficaria conhecido como a Grande Guerra. Durante quatro anos,
o cotidiano de milhões de pessoas foi marcado pela tensão, pelo
medo e pelos sacrifícios compulsórios em apoio àquela que
seria "a guerra para acabar com todas as guerras". Tais esforços,
porém, de nada adiantaram. Passados 25 anos, uma nova geração
de europeus volta a conviver com o terror daquela contenda - agora elevado à
enésima potência pela ameaça real do bombardeio aéreo.
Apesar de nenhuma ação militar ter sido empreendida
fora da Polônia invadida, a população da
maioria dos países em guerra já tem suas vidas
ditadas e atrapalhadas pela guerra. Na Grã-Bretanha,
só nos primeiros dias do mês, mais de 1.500.000
pessoas foram evacuadas para áreas consideradas livres
de ataques aéreos, sendo 827.000 estudantes acompanhados
pelos professores e 535.000 mulheres gestantes ou com crianças
em idade pré-escolar. Foram organizados centros de distribuição
em cidades como Oxford, Cambridge, Reading e Gloucester.
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Cartões de racionamento - Londres, em especial,
vive um êxodo generalizado: diversas empresas, instituições
e repartições públicas também estão
deixando a cidade. Boa parte da estrutura da BBC foi deslocada
para o oeste; seções do Almirantado foram transferidas
para Bath, enquanto parte do Departamento de Guerra foi deslocado
para Droitwich. Quem fica, sofre com a falta de serviços
públicos: não há aulas para mais de 1 milhão
de crianças londrinas não-evacuadas, já
que 2.000 escolas foram requisitadas para uso da Defesa Civil.
A chuvosa capital da Inglaterra é prejudicada também
pela falta de previsão do tempo, um dos primeiros serviços
interrompidos após a declaração de guerra.
A Alemanha, que se preparava para a situação havia
anos - "podemos ficar sem manteiga, mas não sem
armas", anunciava o Ministro da Propaganda Josef Goebbels
já em 1936 -, introduziu o racionamento de alimentos
via cartões coloridos no fim de agosto. Carne, laticínios,
açúcar, ovos, pães, cereais e frutas entraram
na cinta. As únicas exceções foram concedidas
aos fazendeiros, livres do racionamento, e aos mineiros, que
recebem maiores suprimentos devido à natureza "extrapesada"
de seu trabalho. Apesar do triunfo na Polônia, o petróleo
também está sendo racionado em solo germânico
- o que reflete a preocupação das autoridades
do Reich à sua vulnerabilidade em caso de embargo naval
às rotas de comércio.
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Sob as trevas - O ponto em comum entre quase todas as
nações beligerantes do Velho Mundo são
os blecautes. O procedimento de segurança para apagar
ou ocultar toda a iluminação de uma área
que seja alvo potencial de bombardeio aéreo tem se tornado
um fardo diário para a população de centenas
de cidades na Europa. Não só pelo tempo desperdiçado
para, duas vezes ao dia, colocar e tirar anteparos nas janelas
de cada quarto que pudesse ter suas luzes acesas, mas também
pelos transtornos causados pela falta de iluminação
pública nas ruas durante a noite.
Da Inglaterra, chegam informações de que os acidentes
automobilísticos triplicaram desde o início do
blecaute, com diversas vítimas fatais. Os pedestres também
vêm se machucando ao bater em postes e outros obstáculos;
também há relatos de que alguns se afogaram ao
cair em canais. Uma senhorita de Wisbech foi condenada a um
mês de trabalhos forçados após ofuscar policiais
locais com uma lanterna e bradar: "É melhor usar
a lanterna do que ficar trombando nas pessoas". Depois
de incidentes como esses, as autoridades britânicas vêm
permitindo aos cidadãos usar lanternas à noite
- desde que seu facho esteja obscurecido por duas camadas de
lenços de papel. Por enquanto, o blecaute só não
gerou reclamações de ladrões e de casais
de namorados.