Ao assinar o tratado de Munique,
no ano passado, o premiê Chamberlain, da Grã-Bretanha, afirmou ter
obtido 'paz para nosso tempo'. Um fracasso - Hitler rasgou o acordo. Agora, com
o seu país na nova guerra, ele garante: a política de apaziguamento
não era um erro. Só que Hitler foi traiçoeiro.
á dezoito meses, fiz uma oração ao adentrar o Parlamento.
Rezei para que jamais fosse o responsável por pedir ao meu país
que aceitasse a terrível arbitragem da guerra. Receio não ter escapado
dessa responsabilidade. Mas não poderia desejar uma situação
mais clara do que esta para carregar tal fardo como líder do meu país.
Nenhum
homem teria sido capaz de fazer mais para manter aberto o caminho rumo a um pacto
honroso e justo na disputa entre Polônia e Alemanha. Não abri mão
de nenhuma maneira de deixar claro aos alemães que, se insistissem em usar
a força, como vêm fazendo nos últimos tempos, estaria disposto
a confrontá-los.
Fico de pé diante do tribunal da História
sabendo que a responsabilidade por essa terrível catástrofe pesa
nos ombros de apenas um homem: Adolf Hitler, o chanceler alemão, que não
hesitou em mergulhar o mundo na desgraça para alcançar suas insensatas
ambições.
...
"Ele já decidira atacar. Hitler só
será detido pela força. E, nesse caso, nosso país estará
pronto."
Só pela força - Quando falei ao Parlamento pela última
vez, não consegui deixar de reparar que, em algumas cadeiras, havia dúvida
e perplexidade sobre um possível enfraquecimento, hesitação
ou vacilação por parte do governo de Sua Majestade. Dentro das circunstâncias,
não censuro ninguém por isso. Se estivesse no lugar dos meus colegas,
sem acesso às informações que recebo, talvez pensaria o mesmo.
Não
creio, entretanto, que exista algo a mais ou qualquer coisa diferente que pudesse
ter feito para lograr êxito. Seria possível ter obtido um acordo
pacífico e digno entre Alemanha e Polônia até o último
momento. Mas Hitler não queria isso. Ele evidentemente já decidira
atacar a Polônia.
Ele disse ter apresentado propostas razoáveis
que foram rejeitadas pelos poloneses. Essa não é uma afirmação
verdadeira. As propostas jamais foram mostradas a ninguém. Suas ações
mostram de forma convincente que não é mais possível esperar
que esse homem desista de usar a força para cumprir sua vontade. Ele só
pode ser detido pelas armas. Nesse caso, estamos prontos.
...
"É um dia triste.
Foi um amargo golpe constatar que meu esforço para conquistar a paz fracassou."
Consciência
limpa - Agora só resta entrar nesta luta, que ardentemente tentamos
prevenir, com a determinação de vê-la acabar. Não temos
rixa alguma com o povo alemão - só não gostamos do fato de
que ele aceita ser governado pelos nazistas. Enquanto esse governo existir, não
haverá paz na Europa. Passaremos de uma crise para outra, de um país
atacado para outro. Se nossa luta devolver ao mundo as regras da boa fé
e renúncia à força, os sacrifícios que exigirá
terão sido justificados.
Este é um dia triste para todos,
mas sobretudo para mim. Foi um golpe amargo constatar que meu esforço para
conquistar a paz fracassou. Tudo por que trabalhei, tudo com o que sonhei, tudo
no que acreditei durante minha vida pública reduziu-se a ruínas.
Sobra apenas uma coisa a fazer: dedicar todas as minhas forças à
vitória da causa pela qual me sacrifiquei tanto. Acredito que ainda viverei
o bastante para ver o nazismo derrotado e a Europa livre outra vez.
Minha
consciência está limpa. Fizemos tudo o que um país poderia
fazer para obter a paz, mas a situação tornou-se intolerável.
E agora que resolvemos mudá-la, sei que todos cumprirão seus papéis
com serenidade e coragem. Que Deus defenda os justos, pois lutaremos contra o
mal, a força bruta, a má fé, a injustiça, a opressão
e a perseguição. E contra tudo isso, tenho certeza, os justos prevalecerão.
Neville Chamberlain ,70 anos, é primeiro-ministro
da Grã-Bretanha há 2 anos.