Alemanha de Hitler atropela acordos, invade a Polônia e derruba
Varsóvia - Na rabeira do ataque tedesco, URSS abocanha uma parte do território
polaco - França e Grã-Bretanha prometem retaliação:
a refrega está armada
A invasão: soldados nazistas arrancam cancelas
na fronteira da Polônia e iniciam a guerra
á quanto tempo as armas estão cantando no front europeu?
Para alguns, desde o início da Grande Guerra - que jamais teria terminado,
apesar do armistício de 1918. Para outros, uma nova batalha começara
em 1936, com o embate entre fascistas e socialistas na Espanha. Já os mais
crédulos preferiam ver a paz como soberana no Velho Mundo. Mas o líder
alemão Adolf Hitler é homem de certezas, não de dúvidas.
Para eliminar qualquer conjectura, resolveu mostrar para todo o planeta que estava
começando uma nova guerra - a sua guerra, a guerra do Reich, a guerra da
Grande Alemanha. E assim, às 4h45 da manhã de 1º de setembro
de 1939, ordenou que seu exército cobrasse com sangue polonês os
territórios tirados da Alemanha pelo Tratado de Versalhes. Assim foi dito,
assim foi feito.
As poderosas guarnições do exército
germânico fizeram das defesas polonesas frágeis bibelôs, que
se espatifaram completamente em menos de um mês de combate. Varsóvia
caiu no último dia 27, e a fortaleza de Modlin, último bastião
da resistência, no dia seguinte. A derrocada da Polônia foi sacramentada
com a invasão do Exército Vermelho na porção ocidental
do território beligerante, em 17 de setembro - a União Soviética,
considerando que a República Polonesa já deixara de existir, entrou
na guerra para ocupar territórios que reconhecia como zonas de sua influência.
Signatária de um pacto de não-agressão com os alemães
(leia reportagem nesta edição),
ela também o fez sem grandes esforços. Em trinta dias, os ataques
das duas potências contabilizaram à Polônia cerca de 70.000
mortos, entre civis e militares, e 130.000 feridos. A Europa, em sobressalto,
sabe que é apenas o começo.
O apaziguamento, afinal, virou
coisa do passado - recente, mas ainda assim passado. França e Grã-Bretanha
não poderão repetir a ingênua e desastrosa política
de conciliação que permitiu à Alemanha nazista ocupar e anexar
a região do Reno, em 1936, o torrão dos Sudetos, em 1938, e, em
março deste ano, rasgando o acordo assinado em Munique, a Tchecoslováquia
- fato que não deixou dúvidas sobre as intenções germânicas.
Assim, cumprindo o pacto de auxílio firmado em março com Romênia,
Grécia e Polônia, as duas potências ocidentais declararam oficialmente
guerra à Alemanha em 3 de setembro, dois dias depois do ataque aos poloneses.
Aliás, não foram só elas: até o fechamento desta edição,
Austrália, Índia, Nova Zelândia, África do Sul e Canadá
também já haviam ingressado oficialmente na luta contra o Reich.
A guerra promete ser duradoura. A Alemanha não parece estar disposta
a abandonar sua política externa expansionista, mesmo tendo atingido todos
os objetivos iniciais da campanha da Polônia: retomar as terras perdidas
em Versalhes, destruir a república arqui-rival e ainda conquistar os chamados
"espaços vitais" (Lebensraum, no original alemão)
propícios à segurança e expansão do povo germânico.
Para estender suas tenazes sobre as disputadas regiões do Corredor Polonês,
da Alta Silésia e de Danzig, Hitler provocou a ira de britânicos
e franceses, já de cara fechada desde a assinatura do pacto entre nazistas
e soviéticos. Mas o Führer dá de ombros, sem demonstrar
sinal algum de arrependimento, e promete usar todos os meios necessários
para atropelar os inimigos: "Quando se começa uma guerra, já
não é o direito que conta, e sim a vitória".
...
Jogo de cena - A vitoriosa
manobra alemã na Polônia, batizada de Fall Weiss ("Plano
Branco"), principiou-se em 25 de agosto, com uma espécie de teatrinho
da autoridade máxima nazista. Naquele dia, às 15h25, Adolf Hitler
telefonou a um de seus mais leais oficiais, Gerd Von Rundstedt, comandante do
Grupo de Exércitos Sul, que se encontrava acampado às margens do
Neisse, e ordenou o início dos ataques para 4h30 da manhã seguinte.
Von Rundstedt já havia despachado três batalhões para a pugna
quando recebeu, por volta das 20h30 do mesmo 25 de agosto, uma nova mensagem do
Führer anulando a ordem de ataque. O marechal de campo teve de correr
e segurar seus homens pela gola do uniforme. A justificativa de Hitler arranhava
uma surpreendente saída pacífica para o confilto: "Quero evitar
a intervenção dos ingleses".
A frase foi a senha para
o início de uma semana de negociações. No final de agosto,
a diplomacia ainda parecia ter chances de vingar. Hitler admitira receber um plenipotenciário
polonês, e a idéia lançada pelo líder italiano Benito
Mussolini - fazer uma conferência internacional para discutir casos europeus
em litígio - começava a ser levada em consideração.
A boa-vontade do lado germânico, porém, não passava de fachada.
O líder tedesco não tinha a menor intenção de usar
o diálogo para resolver a pendenga, como ficaria provado no fatídico
crepúsculo do mês.
Na tarde de 31 de agosto, sob encomenda
do Führer, o poderoso general Reinhard Heydrich fabricou um incidente
talhado a servir como justificativa à iminente invasão da Polônia.
Comandados pelo major da SS Alfred Naujocks, oito soldados alemães vestiram-se
com trajes do exército polonês e invadiram a estação
de rádio da cidade alemã de Gleiwitz, distante 1,6 quilômetro
da fronteira polaca. Após render a equipe da emissora, o grupo anunciou
ao microfone, em alto e bom polonês, que chegara a hora de a Polônia
atacar a Alemanha. Antes de deixar o local, as falsas tropas polonesas ainda deixaram
uma "prova" forjada das supostas hostilidades contra contra civis germânicos,
executando um refém - na verdade, um prisioneiro de campo de concentração
arrastadi até à rádio especificamente para esse fim. O exército
alemão ainda levou o cadáver até os correspondentes internacionais,
exibindo-o como evidência inconteste do que anunciavam como cruel ataque
polaco.
...
Corredor Polonês - Depois
desse último jogo de cena, a tão desejada batalha de Hitler foi
finalmente levada a cabo. Às 4h45 de 1º de setembro, apenas alguns
minutos depois que os aviões Stukas da Luftwaffe (Força Aérea)
começaram a atacar os primeiros campos de pouso poloneses, o couraçado
alemão Schleswig-Holstein, navio-escola da Kriegsmarine (Marinha),
em visita amistosa ao porto de Danzig, abriu fogo contra a Westerplatte, uma faixa
de aproximadamente 1,6 quilômetro onde a Polônia mantinha um armazém
naval e um depósito de munições. Os poloneses organizaram
heróica resistência, mas acabaram se rendendo uma semana depois.
A essas alturas, o Exército alemão já alcançara
êxitos estrondosos em diversos pontos do território inimigo, graças
a uma nova e revolucionária técnica de guerra - a Blitzkrieg,
ou "guerra relâmpago" (leia
reportagem nesta edição). Ataques aéreos múltiplos
eram executados de forma simultânea, permitindo que as guarnições
de tanques em terra avançassem rapidamente. No norte, o Terceiro e o Quarto
Exército da Alemanha uniram-se, subjugando o Corredor Polonês já
no dia 3 e fazendo com que o Exército de Pomorze fosse completamente dizimado.
Na Silésia, o Grupo de Exércitos Sul avançou rapidamente
sobre os Exércitos de Lodz e da Cracóvia.
Em 5 de setembro,
a posição da Polônia era crítica, a despeito das declarações
de guerra da França e da Grã-Bretanha - que, a bem da verdade, tiveram
pouco tempo hábil para se preparar e ajudar a defender a terra atacada.
Ao invés de bombas, os aviões da Royal Air Force (RAF) britânica
preferiram lançar dezenas de milhões de folhetos em terras alemãs,
culpando Hitler pela guerra e esperando que a população teutônica
insistisse na paz. Evidentemente, esses apelos não eram refresco ou esperança
alguma aos homens do marechal Smigly-Rydz, comandante do Exército Polonês,
no combate aos invasores.
E não era para menos. Como se não
bastasse a superioridade gritante do equipamento das forças germânicas,
Hitler comprometeu em peso seu exército nessa campanha, arriscando-se a
deixar desnudas as defesas no quinhão ocidental da Alemanha. Tudo para
garantir uma vitória inconteste, afirmativa do poderio militar do Reich.
Nesse contexto, a invasão soviética no leste polonês foi apenas
a pá de cal nas esperanças da defesa. Mesmo antes de terminada a
luta, os conquistadores já repartiam o espólio: uma divisão
militar temporária estendeu a fronteira vermelha até o rio Vístula.
No fim do mês, com a batalha definida, alemães es soviéticos
teriam firmado um acordo para fixar as linhas russas mais para o leste, o restante
ficando sob controle tedesco.
...
'Supremacia ariana' - A anexação
desse território foi mais um passo para a construção do Império
da Grande Alemanha, talvez a grande obsessão da vida de Adolf Hitler. Mas
não se pode deixar de mencionar que a mais recente empreitada militar germânica
também veio a atender uma segunda - e mais nefasta - idéia fixa
do Führer: a purificação racial e a "limpeza"
da nação. Nunca é demais lembrar que um dos primeiros decretos
de Hitler como chanceler, em 1933, foi a suspensão dos direitos políticos
dos judeus. No início deste ano, em discurso no Reichstag, o parlamento
alemão, Hitler declarou com todas as letras que a raça judaica seria
eliminada da Europa num mundo dominado pela ordem nazista.
E o que se
viu na Polônia foi uma nova demonstração de tais intenções.
O "Plano Branco" incluiu o uso de sete Esquadrões de Ação
Especial, os Einsatzgruppen, unidades móveis de extermínio
que haviam estreado de forma tímida na Batalha da Áustria, em março
de 1938. Sua missão, conforme as palavras do comandante Theodor Eicke,
é auto-explicativa: "encarcerar ou aniquilar" todo e qualquer
inimigo do nazismo. Além de executar arbitrariamente centenas de judeus,
os temíveis Einsatzgruppen mostraram serviço ao assassinar
membros da intelligentsia polaca, além de padres e aristocratas.
Os judeus poupados da barbárie vêm sendo expulsos da área
anexada pelo Reich. Para que as autoridades alemãs tenham controle total
sobre seus atos, esse grupo será forçado a viver em guetos - o primeiro
está sendo instalado em Piotrkow, e deve ser posto em funcionamento ainda
em outubro.
...
O mundo em alerta - Enquanto
Canadá, Austrália, Nova Zelândia e demais países do
Império Britânico apressavam-se em tomar partido de Londres, outras
forças do mundo ocidental preferiam optar pela neutralidade. Até
mesmo a Itália, que cultiva uma rivalidade histórica com a França,
preferiu não se juntar à aliada Alemanha no front. Provavelmente
pesaram na decisão do ditador Benito Mussolini os protestos dos radicais
fascistas anti-bolcheviques, que foram às ruas para condenar o pacto entre
Hitler e Stalin, e a indignação generalizada dos italianos com o
massacre promovido pelos nazistas na Polônia, país católico
como a Velha Bota.
Mantendo a postura isolacionista adotada após
a traumática adesão à Grande Guerra, na qual cerca de 50.000
de seus soldados tiveram as vidas ceifadas em combate, também os Estados
Unidos da América desfraldaram a bandeira branca. Para marcar essa posição,
o presidente Franklin Delano Roosevelt convocou na última semana do mês
a Conferência do Panamá, com a participação de mais
de 20 repúblicas do continente. Como resultado dos debates, foi divulgada
uma declaração que confirmou a neutralidade dos países representados
e ainda baniu a entrada de submarinos beligerantes em seus portos, exigiu o fim
das atividades militares subversivas em seus territórios e estabeleceu
a criação de uma zona marítima de segurança de 480
quilômetros ao redor do Continente - com exceção do litoral
do Canadá e das colônias de países europeus.
A opinião
pública americana demonstrou apoiar a decisão de FDR. Apesar do
generalizado sentimento anti-nazista, a população acredita que Grã-Bretanha
e França serão capazes de conter os avanços de Hitler na
Europa. Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico, também
espera ser esse o desfecho do embate (leia
artigo nesta edição). Desta vez Adolf Hitler terá
sérias dificuldades para repetir Munique e fazer Chamberlain - e, por tabela,
a Grã-Bretanha - de gato e sapato outra vez. Atendendo aos apelos do povo
inglês, o primeiro-ministro convocou ninguém menos que o experiente
e sagaz Winston Churchill para o Almirantado. Como todos sabem da queda do lorde
por uma boa guerrinha, a Europa pode se preparar: vai ser briga de cachorro grande.
...
Cenas
de Varsóvia destruída e do povo polonês Baixar vídeo
Bombardeio
de ferrovia polonesa pelos nazistas Baixar vídeo