“Estou acima do peso e quero emagrecer”. Muitas mulheres podem se reconhecer ao ler essa frase, geralmente quando estão à procura do corpo que julgam perfeito, com índices de gordura bem abaixo do padrão considerado saudável pela medicina. No entanto, especialistas alertam que o fascínio pelo peso ideal é um problema grave também entre os homens.

“O número de pacientes do sexo masculino vítimas de transtornos alimentares, como bulimia e anorexia nervosas, vem crescendo a cada ano”, afirma Raphael Cangeli Filho, coordenador de psicologia do grupo de homens do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (Ambulim) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP).

A afirmação do especialista se baseia na experiência clínica, uma vez que não há números globais de incidência. O Ambulim iniciou um atendimento específico a homens em 2006, recebendo 30 pacientes. Desde então, 104 já passaram por ali, e agora, os homens já são um em cada cinco atendidos. “Cresceu a busca pelo tratamento: o homem passou a se perceber doente com mais facilidade e a procurar ajuda”, diz Cangeli. Vale acrescentar que, no Programa de Distúrbios Alimentares da (Proata) Universidade Federal Paulista (Unifesp), que faz trabalho semelhante, a participação masculina também é crescente e chega a 10%.

Diferenças – “Bulimia e anorexia são transtornos alimentares, classificados como doenças mentais", explica a psiquiatra Angélica de Medeiros Claudino, coordenadora do Proata/Unifesp. Homens e mulheres sofrem com os problemas, mas de maneiras diferentes. A chamada “distorção corporal” – pela qual a pessoa se enxerga bem mais gorda do que de fato é –, por exemplo, é bem mais amena entre os homens anoréxicos, que não se percebem tão diferentes do que realmente são. As mulheres, por sua vez, não aceitam o corpo, por mais magras que estejam, mas são menos resistentes ao tratamento.

“Eles costumam procurar tratamento quando já estão em condições de internação”, diz Cangeli. O psicólogo diz ainda que os homens são mais eficientes para esconder os sintomas, pois ganham massa corporal com facilidade ao praticar exercícios físicos.

Público alvo – Os especialistas que acompanham a evolução dos distúrbios avaliam que os problemas já se espalham por diferentes grupos masculinos. “Além dos rapazes ligados a profissões que se preocupam muito com o corpo, como modelos, estilistas e jockeys, também atendemos muitos homens, solteiros e casados”, acrescenta Cangeli. “É um público bem variado”.

Os homossexuais formam outro grupo em que os transtornos podem ser percebidos. “Eles se preocupam muito com a imagem do corpo”, explica Angélica Claudino.

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Um transtorno para dois gêneros
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