Foto Raul Junior

jornalista Caio Túlio Costa, 45 anos, dirige a mais vigorosa operação de internet do país. Ele é o principal executivo do Universo Online (UOL), o provedor de acesso e conteúdo de propriedade dos grupos Folha da Manhã e Abril, que edita VEJA. Com 650 000 assinantes e mais de 25 milhões de páginas vistas por dia, o UOL se manteve, desde o primeiro momento, afastado da grande onda de acesso gratuito que bateu na praia da internet brasileira nos últimos meses. No auge do maremoto, quando tudo parecia indicar que não restaria de pé um único provedor que cobrasse dos usuários, Costa insistia na tese de que não existe almoço grátis. Ou seja, acesso gratuito tem custo e alguém está pagando.

Veja - O senhor acha que esse modelo, o da internet gratuita, veio para ficar?

Costa - A sobrevivência dos provedores de acesso gratuito será difícil. O modelo de internet gratuita vem conseguindo algum sucesso na Europa. Mas ele é totalmente dependente da receita compartilhada com as operadoras de telefonia. O provedor recebe da operadora de telefone uma parte da receita adicional que vem com o aumento de tráfego em suas linhas pelos usuários da internet. Quem olhar os números da Freeserve, o provedor inglês sempre citado como exemplo de sucesso da internet gratuita, verá que se trata de um produto extremamente deficitário. Do dinheiro que entra no caixa do Freeserve, 60% vêm do compartilhamento.

Veja- E no Brasil?

Costa - O modelo se instalou no Brasil sem essa possibilidade do compartilhamento de receita.
Pode ser que isso venha a existir no futuro. Pode ser que os órgãos reguladores decidam nesse sentido. Mas o modelo nasceu sem essa possibilidade de receita. Pior, nasceu dependente de um mercado publicitário que é muito pequeno se comparado ao europeu.
O modelo poderia até ter algum sucesso se fosse monopolista, se houvesse uma única companhia disputando essa receita.
Não é o que acontece. No Brasil há pelo menos nove empresas oferecendo acesso gratuito e disputando o dinheiro dos anunciantes.

Veja- O acesso gratuito traz algum benefício aos provedores pagos?

Costa - Eles beneficiam a internet como um todo porque aumentam o tráfego, aumentam a discussão em torno da existência da rede, e isso é bom. Mas não se esqueça de que estamos num país complicado, num país pobre, onde a palavra gratuito pode dar um sentido equivocado do que representa isso. Você está pagando pelo uso da linha telefônica. Para ser gratuito mesmo, o certo seria que as telefônicas dessem o impulso grátis Aí, sim, o acesso seria realmente sem custo.

Veja- Há espaço para todas as empresas que estão aí?

Costa - Nesse ramo há três grupos de empresas, cada qual com um interesse distinto. O primeiro é o das empresas que sabem produzir conteúdo e entram para o negócio de internet. É aí que está o próprio UOL, a Globo.com, a America Online e uma série de outras empresas. Não precisa ser conteúdo jornalístico. O Yahoo! também é um site cujo conteúdo é a grande quantidade de páginas que ele ajuda a localizar. O segundo grupo está para a internet assim como o SBT está para a televisão. O negócio do dono do SBT, Silvio Santos, não é fazer televisão, mas vender a Tele-Sena e os carnês do Baú da Felicidade. Nesse segundo grupo estão os sites ligados às operadoras telefônicas. O negócio deles não é internet. É telefonia. Aí estão o Terra, que é um braço da Telefónica, e o Zip.Net, da Portugal Telecom, ou O Site, ligado à Impsat. O terceiro grupo faz internet apenas e tão-somente porque é um negócio que pode dar lucro rápido. Não há nenhum julgamento de valor nisso. Você cria uma companhia, faz uma espuma danada em torno dela e depois vende. É onde estão a StarMedia e o iG. Não me parece que eles tenham compromissos com o negócio internet.

Veja - Esse grupo seria composto de aventureiros?

Costa - Não estou chamando ninguém de aventureiro. Não é isso. A internet é um negócio. Eles são banqueiros e entram porque vêem a chance de ganhar dinheiro rápido. Não há um compromisso com o negócio internet, nem com o conteúdo, nem com a permanência da empresa.

Veja- No mesmo grupo do UOL há uma empresa, a NetGratuita, que também oferece o acesso gratuito. Como o UOL se posiciona em relação a isso?

Costa - Acredito que as pessoas não deixarão de assinar o UOL, que tem conteúdo extraordinário, para ter um segundo provedor, seja gratuito ou pago. O importante para a companhia como um todo, e aí vou falar pelo conglomerado UOL, é estar presente em todas as pontas desse mercado.

Veja- Mas qual o futuro disso tudo?

Costa - A internet anda por ondas. Ela está crescendo, está mais madura, mas ainda há muito que fazer. Vem aí a conexão por banda larga, que promete mudar muita coisa nesse cenário e pode ser a próxima onda. Mas eu insisto num ponto: só sobreviverão as empresas capazes de gerar conteúdo de qualidade.