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Sentado diante da máquina, decidi experimentar um game de corridas, o Ridge Racer V. Como nunca fui rato de videogames, minha ansiedade em relação ao console estava sob controle. Estava. Logo na primeira volta pela pista eu me sentia o próprio Jackie Stewart, tricampeão mundial de Fórmula 1. O.k., o.k., a referência é antiga, mas o grande lance do PS 2 é exatamente esse: curtir o que ele tem de lúdico e mágico. É quase impossível perceber a existência do aparelho intermediando as reações que se vêem materializadas no monitor. Em Ridge Racer, depois de optar por um bólido amarelo que faz 300 quilômetros por hora, escolhi o traçado e fui em frente. Podia sentir a ondulação do asfalto, o peso do carro e a força centrífuga em algumas curvas. Cheguei ao túnel. Para quem vive numa grande cidade e já cruzou um túnel escuro em plena luz do dia, a comparação é imediata. Saí acelerando o PS 2 até estourar em meu pára-brisa um sol poente de cores tão intensas que fechei os olhos. É isso mesmo. Reagi como se estivesse ofuscado por um sol de verdade.
Instalado na frente do PS 2, concluí que os demais videogames não são apenas de uma geração anterior. São outro tipo de produto. É como comparar uma máquina de escrever com um computador. Ao terminar a corrida em Ridge Racer V, pude assistir ao replay escolhendo as imagens entre vários ângulos, incluindo o de uma câmara a bordo de um helicóptero. A grande sacada tecnológica que o aparelho da Sony traz é transformar polígonos virtuais em realidade. Quanto mais polígonos por segundo o processador do PS 2 manipula, melhor a impressão de tridimensionalidade. A exemplo do personagem Morpheus (Laurence Fishburne), em Matrix, o que o PS 2 nos diz é: "Bem-vindo ao mundo real". Há senões, claro. O fato de os carros nunca se amassarem, mesmo nas pancadas mais violentas, decepciona a mente convencida de quem está lidando com um novo tipo de realidade material. Nesse momento, porém, é inevitável pensar que esses jogos são a pré-história de um mundo novo. O Ridge Racer V que testei vem acondicionado num CD, mas o PS 2 pode rodar também DVD -; o que multiplica a já inacreditável qualidade dos games. A aposta mais corrente no mundo do videogame -; que apenas nos Estados Unidos movimenta 7 bilhões de dólares por ano -; é que os jogos se tornem melhores e atraiam cada vez mais toda a família, libertando-se da fama de que são só para crianças e adolescentes. Os produtores de games esperam derrubar as barreiras da criação e ser protagonistas de algo parecido ao que aconteceu no cinema com a evolução tecnológica: roteiros mais complexos e tramas ilimitadas. Os games começam a ter diretores, como nos filmes. Entre os jogos lançados no Japão com a chegada do PS 2 há um em DVD chamado Kessen, cuja abertura é, com um pouco de exagero, uma seqüência à Kurosawa. Um plano geral apresenta dois exércitos de guerreiros que partem para o confronto numa planície. Ali, a neblina faz com que a gente fique sem saber direito de onde vem o inimigo. São três minutos inebriantes que tornam o game uma atração como nunca existiu nessa classe de brinquedos. Vislumbrar a revolução que o PS 2 anuncia fica mais fácil quando sabemos que a Sony quer fazer de seu supervideogame uma central de entretenimento doméstico. A partir do ano que vem, acessar os sites favoritos, assistir a filmes em DVD, ouvir CDs e jogar games com gente de qualquer canto do mundo -; utilizando um só aparelho -; fará parte do cotidiano de cada vez mais pessoas. Tanto que Bill Gates correu e anunciou o projeto X-Box, que por suas especificações pode ser superior ao PS 2. A conferir. Por essas, quando o subeditor da revista Ação Games que mandei para o Japão voltou com o PlayStation2, a sensação que tivemos deve ter sido parecida com a dos primeiros brasileiros que assistiram à televisão em cores em sua chegada ao país. O PS 2 é um eletrodoméstico impressionante quando se lembra que pode trabalhar também como navegador de internet. Não duvido de que leremos nossas revistas favoritas nele -; ou em algum de seus sucessores. Só não sei se antes ou depois de um pega automobilístico ao som de AC/DC e Brian Setzer Orchestra.
* Edson Rossi, 34 anos, é redator-chefe da revista Ação Games |
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