Popular Mechanics

Divulgação
Lançado em 1950, o "forno eletrônico" (à esq.) prometia preparar alimentos em 75 segundos e era visto com receio pelas donas-de-casa. Foi o precursor do microondas. A novidade agora é a geladeira com visor de cristal líquido (à direita) que permite conexão com a internet

a primeira Feira de Utilidades Domésticas (UD) do país, em 1960, em São Paulo, o fogão a gás fabricado no Brasil ganhou destaque entre os expositores. Todos abriam espaço para olhar a maravilha tecnológica da época. Na década de 80, os computadores foram a grande atração, mas eram vistos como objetos estranhos ao mundo dos eletrodomésticos. Na UD do mês passado, ainda em território paulista, os PCs já não chamavam tanto a atenção. O que despertava a curiosidade dos visitantes da feira eram aparelhos úteis para assistir a uma simples novela das 8 ou navegar na internet. Foi a primeira UD da era da internet, que serviu para mostrar que, se depender dos fabricantes, em pouco tempo surgirão aparelhos híbridos para os quais as donas-de-casa terão de inventar uma utilidade. O forno de microondas com um chip embutido servirá para quê? A geladeira com uma tela externa de cristal líquido em que se pode ver páginas da internet vai funcionar?

Melhor nem perguntar. Os fabricantes acham que a tendência de colocar chip nas geladeiras, nas lavadoras de roupas, nos aparelhos de televisão e em todos os equipamentos eletrônicos da casa veio para ficar. Como uma maneira de enfatizar sua visão de futuro, os organizadores da UD neste ano montaram por lá uma casa do futuro cheia de eletrodomésticos equipados com chips. Pela intenção dos criadores da casa, seus moradores poderão fazer qualquer tarefa doméstica sem se levantar da poltrona. E tome divagação futurista: "Ninguém mais perderá tempo com supermercado nem com uma série de outras atividades chatas do dia-a-dia", diz Walter Duran, coordenador da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros). Para muita gente, ir ao supermercado não é perda de tempo. Ver os produtos novos nas prateleiras pode ser uma forma de entretenimento &emdash; e mesmo pedir aos filhos adolescentes para fazer compras é um aprendizado e uma forma de envolvê-los mais intensamente na vida familiar. Duran, o da casa futurista, pode ser apenas mais um dos visionários que, no passado, julgaram ser possível enxergar anos à frente.

A famosa revista americana Popular Mechanics (popularmechanics.com/ popmech/sci/1950STROP.html) oferece em sua edição de abril uma curiosa amostra de como se pode errar no atacado quando o assunto é adivinhar como será a casa do futuro. A revista republica um artigo escrito em 1950 que previa o que parecia ser a evolução natural na euforia do pós-guerra americano, período em que o país se firmou como potência econômica. O conforto nas casas aumentou espetacularmente, mas os redatores da Popular Mechanics erraram em quase todas as suas previsões (veja quadro na página seguinte).

Os fabricantes não se abalam. Querem apressar a chegada do futuro mesmo sem saber exatamente como ele será. A sueca Electrolux não estava expondo em São Paulo, mas sua geladeira Screenfridge, que já foi instalada para testes em algumas casas de Estocolmo, é a prova do que está acontecendo com o mercado de eletrodomésticos após a chegada da internet. O produto que começa a ser vendido no próximo ano na Europa permitirá uma série de procedimentos, como acessar a rede, mandar e receber mensagens eletrônicas, fazer compras on-line e ainda controlar a despensa da casa. Os brasileiros ainda vão esperar dois anos pela chegada do modelo, mas já têm à sua disposição outros equipamentos com possibilidade de conexão.

A Plasma Infoway da Philco, um aparelho de TV com tela de 42 polegadas, 15 centímetros de profundidade e formato de cinema, é um exemplo dessa nova realidade. O aparelho permite conexão simultânea de até sete equipamentos e funciona como um monitor para o PC. A linha Flatron, da coreana LG, também está pronta para esse novo mundo. Tem tela de até 60 polegadas, capacidade de reproduzir com altíssima fidelidade até 16 770 tonalidades de cores e também pode servir de tela para a internet. O problema é o preço salgadíssimo. Esses aparelhos têm o valor de um carro de luxo. O da Philco custa quase 30 000 reais. O da LG, quase 30 000 dólares.

Com menos recursos, mas bem mais em conta, o Easy Box é outra opção. Com o equipamento da Daewoo, o usuário pode navegar em sua televisão antiga, mesmo que ela seja analógica. O Easy Box é uma caixinha com um fax modem de 56 K que pode ser plugada em qualquer televisão com entrada para videocassete e dá acesso à rede e ao correio eletrônico, dispensando até o computador. Juntamente com o equipamento vem um teclado com mouse embutido e sem fio que funciona a até 7 metros de distância da TV. Já está à venda e custa 550 reais. Outro lançamento da feira é a placa InfoAccel, fabricada pela Itautec Philco. O acessório promete fazer um telefonema para qualquer parte do mundo custar o mesmo que uma ligação local. Para isso, a placa precisa estar instalada nos dois computadores utilizados na conversa.