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Tecnologia 2008 | O
40º ANO DE VEJA
A metamorfose digital
O abismo que separa os dois computadores
cujas fotos ilustram esta reportagem é um sinal eloqüente
da metamorfose por que passou o mundo em quatro décadas
a digital. À esquerda está o S/360, lançado
pela IBM em 1964. À direita, o MacBook Air, o mais recente
produto da Apple, a usina de criações tecnológicas
comandada pelo americano Steve Jobs. O S/360 usado basicamente
para cálculos de balística em unidades militares,
experimentos científicos em universidades e controle das
finanças de grandes empresas pesava até 10
toneladas e ocupava um espaço de 800 metros quadrados, o
equivalente a seis apartamentos de classe média. O MacBook,
o laptop mais fino da atualidade, tem 1,36 quilo e pode ser erguido
na ponta dos dedos (como Jobs, também um mestre do marketing,
adora demonstrar). O mais impressionante: o pequeno computador da
Apple é capaz de armazenar uma quantidade de dados 10 000
vezes maior do que a de seu antepassado da IBM e é 21 vezes
mais veloz nos cálculos. Isso significa que uma operação
que demora um minuto no MacBook levaria quase meia hora para ser
realizada pelo S/360. Foi a junção desses dois fatores
a diminuição do tamanho das máquinas
e a melhora extraordinária de seu desempenho , aliada
à invenção e difusão da internet, que
permitiu a transformação do computador numa espécie
de eletrodoméstico. Por meio dele, é possível
hoje conversar com pessoas ao redor do mundo, acessar arquivos antes
impenetráveis, assistir a filmes e programas de televisão,
efetuar operações bancárias, fazer buscas de
toda sorte, editar e transmitir textos e, é claro, realizar
cálculos de razoável complexidade. E tudo isso em
um aparelho portátil.
O período compreendido
entre a década de 60 do século passado e o começo
do século XXI foi, sem sombra de dúvida, a era de
ouro dos computadores. Embora as primeiras máquinas tenham
sido inventadas nos anos 40, só a partir de 1964 teve início
seu uso comercial em maior escala. Nos anos 70, com os investimentos
em pesquisa para a criação de microprocessadores
como são conhecidos os minúsculos chips, responsáveis
pela execução das tarefas de um computador ,
a revolução se acelerou. Em 1971, o primeiro chip
tinha 2 000 transistores num espaço do tamanho da unha do
dedo polegar. Hoje, um microprocessador chega a ter 400 milhões.
Mais transistores em um chip significam maior capacidade de armazenamento
e cruzamento dos dados. Com chips mais potentes, abriram-se as portas
para o universo dos computadores pessoais, pequenos e incrivelmente
mais velozes do que os gigantes dos anos 60.
O passo seguinte foi dado na década
de 80, quando Bill Gates e sua empresa, a Microsoft, apresentaram
ao mundo o Windows 1.0. O sistema operacional inventado por Gates
tornou o uso dos computadores muito mais simples até
então, eram necessários vários comandos para
executar uma única operação. A entrada do Windows
no mercado resultou na venda em massa de computadores de uso pessoal,
do tipo que se encontra hoje em qualquer escritório ou no
quarto dos filhos. Nos anos 90, com o surgimento da internet, a
revolução estava completa: o microcomputador passou
a fazer parte do dia-a-dia de todos.
A rede que conectou computadores
de todo o planeta e revolucionou a comunicação entre
as pessoas começou a ser desenvolvida no fim dos anos 60.
Em meio à Guerra Fria, os americanos estudavam uma forma
de proteger informações essenciais para a segurança
nacional. A solução encontrada foi o desenvolvimento
de uma rede que interligava computadores em diferentes bases militares
e permitia a transferência de dados, via cabo, entre máquinas
distantes. Dessa forma, informações vitais podiam
ser repassadas sem risco de ser acessadas pelos inimigos. Batizada
de Arpanet, a iniciativa deu tão certo que, rapidamente,
extrapolou os círculos militares e chegou às universidades.
Elas passaram a comunicar-se entre si, utilizando uma rede chamada
BBS. De lá para cá, avanços impressionantes
foram obtidos para agilizar a transmissão de dados, ampliar
o número de computadores interligados e facilitar o uso de
uma rede hoje praticamente única. Dois fatos determinantes
nesse processo foram a introdução da fibra óptica
no setor de comunicações a partir da década
de 70 hoje o principal meio para a transmissão das
informações e a criação, em 1991,
do sistema HTML. Este último foi o que deu à internet
a interface gráfica que conhecemos hoje e permite a uma criança
acessar endereços virtuais. Nos cinco continentes, mais de
1 bilhão de pessoas utilizam a rede de computadores. O Brasil,
com mais de 40 milhões de cidadãos conectados, é
o sexto país em número absoluto de usuários.
Apesar de tamanha evolução,
os computadores gigantes ainda são imprescindíveis.
Atualmente, essas máquinas que lembram dezenas de
armários enfileirados são empregadas para pesquisas
científicas de ponta. Seu diferencial está na capacidade
de processamento e armazenamento de dados. Neles, tudo é
superlativo. Os prefixos "quilo" e "giga" dão
lugar ao "tera". O Roadrunner, novo supercomputador lançado
pela IBM em junho deste ano, consegue processar 1 quatrilhão
de operações por segundo o equivalente ao processamento,
em conjunto, de 100 000 dos mais velozes notebooks vendidos atualmente.
O Road-runner será usado para monitorar o arsenal nuclear
dos Estados Unidos. Da exploração espacial à
do subsolo, quase tudo, hoje, depende de máquinas assim.
A indústria automobilística, por exemplo, as utiliza
para projetar peças de carro. Em geral, são atividades
que exigem cálculos extremamente complexos, algo que somente
um computador desse porte é capaz de realizar. Essas máquinas
também estão presentes em uma série de áreas
que afetam diretamente o cotidiano. "As operações
bancárias feitas simultaneamente por milhões de pessoas
só são possíveis graças à enorme
capacidade de processamento desses supercomputadores", explica
Fabio Pessoa, diretor da divisão de hardware da IBM.
O curioso é que os computadores
já foram demonizados. Em maio de 1978, uma reportagem de
VEJA registrava a criação da Sociedade Internacional
pela Abolição dos Computadores. Seu fundador, o americano
Harvey Matusow, pregava o fim dos "monstros eletrônicos".
Ele acreditava que, por reunirem um número excessivo de informações
das pessoas, tais máquinas poderiam se transformar em inimigas
do homem. Hoje, uma breve pesquisa no Google revela: ao digitar
o nome de Matusow, são encontradas apenas 8 150 citações.
Bill Gates e Steve Jobs, somados, têm mais de 50 milhões
de referências. Nos anos 60, a quantidade de computadores
no planeta mal chegava à casa das 10 000 unidades, na maioria
aparelhos de grande porte usados por empresas. Hoje, só no
Brasil, há 50 milhões de máquinas. Matusow
felizmente perdeu a guerra contra os computadores.
E, com isso, todos saíram ganhando.
PERSPECTIVA Hoje, metade
dos computadores vendidos no mundo são notebooks. Em breve,
eles serão maioria absoluta. Com a evolução
da transmissão de dados por banda larga, o acesso sem fio
à internet, com velocidade, em qualquer lugar do mundo, se
tornará tão simples quanto beber uma Coca-Cola. Ou
seja, poderá ser feito, rigorosamente, em qualquer lugar.
Os equipamentos continuarão evoluindo. Em uma década,
os monitores tradicionais serão substituídos por telas
flexíveis, da espessura de uma folha de papel. Também
devem ganhar terreno os "netbooks", computadores em que
não há aplicativos nem espaço de armazenamento.
Tudo o que eles fazem é conectar-se à internet e usar
programas e pastas virtuais, guardados em grandes servidores. O
futuro é portátil.

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